Helena

Clara engoliu em seco e olhou para Nathaniel. Não havia mais nada a perder.

- Está bem… eu aceito.

Ele não disse nada de imediato. Apenas inclinou levemente a cabeça e sorriu, pequeno, quase imperceptível. Um sorriso que não era acolhedor, mas que de algum jeito acalmava algo dentro dela. Clara não sabia se era medo ou alívio.

- Ótimo - disse ele finalmente. - Amanhã cedo começaremos. Preciso que esteja disponível para algumas reuniões… e para aprender detalhes que só Helena sabia.

- Detalhes? - Clara piscou insistentemente. - Escute, minha mãe...

- Não se preocupe, eu enviarei alguém confiável para cuidar da sua mãe. Ela não ficará desamparada enquanto você for minha.

Nathaniel sorriu outra vez, seguro de si. Clara se perguntou como ele poderia saber sobre sua vida dessa forma, mas a resposta era instantanea: ele era um empresário. E também dono de uma empresa de tecnologia.

- Eu nunca fiz nada assim - confessou Clara.

- Ninguém nunca faz nada na primeira vez - ele respondeu, impassível. - Mas você é inteligente, observadora. Isso facilita.

Clara percebeu que aquilo era um teste. Ele estava medindo se ela era digna de entrar no mundo dele. Logo, todo o incidente do afogamento se tornou poeira juntamente com a versão humana dele que ela havia criado em sua mente.

- Onde vou ficar?

Ela perguntou, finalmente. Nathaniel fez um gesto com a mão, indicando a ela a saída da sala.

- Na minha casa. Até você estar preparada, é melhor você estar perto de tudo que precisa para se passar por Helena.

Clara havia aceitado, mas o peso dessa decisão ainda não tinha recaído sobre ela. Não era apenas a imagem de Helena que ela teria de assumir, mas sim a sua vida, a rotina, seus segredos e, talvez, o que havia de mais obscuro.

O caminho até o carro foi em silêncio, Clara sentia os olhares pesados do staff do prédio, atentos demais em cada movimento do CEO. Sussurros abafados, rostos que desviavam rapidamente quando ela olhava, rostos que, provavelmente, ela veria outra vez, mas como Helena. No carro, o silêncio retornou, mas logo foi quebrado por Nathaniel.

- Amanhã - ele iniciou - Começaremos pelo básico: falar como ela falaria, maneiras de se vestir. Depois, os detalhes sociais. Por fim, as reuniões.

Clara assentiu.

- E... Por quanto tempo isso irá durar?

- Helena e eu havíamos concordado em nos divorciar, mas antes de assinar os papéis... Ela precisou se ausentar. - ele disse, quase abatido.

- Se ela precisou se ausentar... Isso significa que você não a vê mais?

- Não - suspirou, pesado. - Ela não vai voltar.

Clara sentiu um calafrio na espinha. Tinha certeza que estava entrando em uma enrascada, mas era tarde demais para voltar atrás. O carro chegou a mansão imponente de Nathaniel, e Clara se sentiu pequena enquanto passavam pelo portões enormes da entrada.

- Esta será sua casa por enquanto - disse, após abrir a porta do passageiro para ela - Eu vou te levar para conhecer cada cômodo, e recomendo que você absorva cada detalhe. Helena gostava muito daqui.

Os dois passavam pelo longo corredor da mansão, ela admirava e ao mesmo tempo se sentia sufocada pelos móveis caros e o piso polido que rangia sob seus pés. Tudo aquilo era bonito e distante de quem ela era, e agora parecia tão assustadoramente perto do que ela seria.

- Aqui... - Nathaniel abriu a porta do quarto de Helena - É onde você irá ficar.

Clara entrou devagar. O quarto estava impecável, como se ninguém tivesse vivido ali, cada objeto estava em seu devido lugar, mas carregava a presença de Helena. Ela respirou fundo e se aproximou do guarda-roupas, tocando um dos vestidos. Cor de vinho. O mesmo do porta-retrato com Nathaniel. O toque gelado do tecido a fez estremecer de leve.

- Você deve entender que isso não durará para sempre - Disse Nathaniel, parado na porta - Mas preciso que você... Leve isso a sério. Preciso que seja ela.

- Quando nos divorciaremos?

A pergunta de Clara ficou suspensa no ar. Ela ainda segurava o vestido cor de vinho.

- Você não precisa se preocupar com isso agora.

- Como não? Você está me pedindo para ser sua esposa, eu preciso saber até quando isso vai durar.

- Helena e eu tínhamos planos formais de separação - ele respondeu, passeando o olhar pelo quarto - Mas isso deixou de ser relevante.

- Deixou de ser relevante por quê?

Clara perguntou, sentindo um incomodo crescer. Nathaniel finalmente a encarou.

- Porque certas decisões não dependiam mais dela.

- E ela sabia disso?

Nathaniel deu alguns passos para dentro do quarto e caminhou até a penteadeira, passando os dedos pela superfície, como se conferisse a poeira invisível.

- Ela sabia de muitas coisas - suspirou, retomando a atenção para Clara - Por isso decidiu se divorciar de mim. Mas antes mesmo disso acontecer, ela... foi embora.

O estômago de Clara revirou e ela fechou os olhos. Não podia questionar mais nada, não estava em uma posição justa naquele momento. Precisava apenas do dinheiro. Nathaniel se aproximou de Clara, colocando levemente uma mecha atrás de sua orelha.

- Você agora precisa ser Helena Cavalieri.

Clara sentiu o coração disparar. O calor entre os dois tornava o ar do quarto denso, quase difícil de respirar. Permaneceram imóveis, presos no olhar um do outro, como se qualquer movimento pudesse quebrar algo delicado ou perigoso. Era o início de algo perturbador, disso ela tinha certeza. Algo que atravessaria sua vida sem pedir permissão e a transformaria por completo. Ainda assim, Clara não recuou.

- Eu serei Helena Cavalieri.

Ela sorriu.

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