Mundo de ficçãoIniciar sessãoEnquanto aguardava o ônibus, Clara se encontrava em um verdadeiro impasse. Antes do incidente com o empresário, ela havia saído para uma entrevista de emprego como recepcionista de um hotel renomado na cidade, mas não foi selecionada por não ter "habilidades necessárias" para o cargo.
Quando a mãe adoeceu, ela se viu obrigada a procurar maneiras corretas para não deixar que nada faltasse em casa, pulando de um emprego para outro, em variados cargos; atendente, serviços gerais, recepcionista, passeadora de cães. Mas durava pouco tempo, pois não havia ninguém para ficar com a sra. Navarro em casa. A partir daí, tudo para ela se tornou uma questão de escolha. Apesar do que aconteceu, sua mãe era a pessoa mais importante da sua vida. Um carro preto encostou ao seu lado no ponto de ônibus. Era discreto demais para ser coincidência. Então, o vidro traseiro desceu. - Srta. Clara Navarro? - a mulher loira dentro do carro perguntou, com a voz firme e educada. Antes de responder, o corpo de Clara estremeceu em alerta. - Sou eu. - O sr. Cavalieri gostaria de falar com você. Se puder no acompanhar. - Nós já conversamos, não precisa disso. - Ele insistiu. Claro que insistiu. Para Clara, dessa vez, essa parecia ser uma escolha pequena. Mas mais tarde, ela descobriria que não era. Ela olhou para frente, para o ponto de ônibus, em seguida para seu celular. Havia uma mensagem da sua mãe: "Desculpa". Ela suspirou. - Tá bom. E entrou no carro. O trajeto até o destino foi silencioso. Da janela, ela observava a cidade em borrões e tudo que ela tinha era esperança. Esperança de que aueles dias de viagem em família retornariam, que ela seria feliz outra vez. De repente, Clara sentiu o desconforto que havia sentido no quarto do hospital, mas ainda não sabia como nomeá-lo. Quando o carro parou, ela precisou inclinar a cabeça para observar o topo do prédio. Grande e impecável, mas ao mesmo tempo frio e silencioso, como uma catedral. O motorista abriu a porta do carro para as duas mulheres descerem e Clara foi recepcionada de maneira amigável e respeitosa. Por dentro tudo era ainda mais silencioso, mas havia pessoas normais, com suas vidas, seus trabalhos e deveres. Era uma empresa comum e um dia comum para todos, mas não para ela. Na realidade, seus dias não eram comuns há bastante tempo. Clara foi conduzida até a sala do empresário. Ao dar uma breve olhada pelo ambiente, ela viu prêmios, quadros e certificados dispersos pelas paredes. Naturalmente. Na mesa dele não era diferente. Pastas com papéis, telefone e duas fotografias, provavelmente de esposa e filhos. Nathaniel estava de pé na janela, com um copo de whisky na mão, enquanto a outra estava no bolso da sua calça. Ele admirava a cidade, sereno, como se o incidente não tivesse acontecido na noite anterior. Ele virou-se assim que a porta se fechou e deixou os dois a sós. - Srta. Clara - disse ele, com um leve aceno. — Vejo que está melhor. Clara cruzou os braços, tentando não parecer deslocada naquele ambiente. - Estou. Olha, obrigada por pagar a conta… mas não precisava. - Precisava, sim. Você salvou a minha vida - um sorriso de canto surgiu. Os pequenos ferimentos na sua testa ainda eram visíveis. - E eu não fico em dívida. - Então - Clara disse, querendo acabar logo com aquilo - se era só isso… - Não é. Ele saiu da sua posição inicial e foi até Clara, puxando a cadeira para ela. - Por favor, sente-se. - ele apontou educadamente para o assento. Clara olhou para ele, hesitante, mas decidiu se sentar. Nathaniel ocupou a cadeira ao lado, de frente para ela, juntou as mãos sobre o colo e suspirou, até finalmente dizer: - E eu pretendo demonstrar ainda mais minha gratidão. Por isso, quero te fazer uma proposta. - Que tipo de proposta? - Um trabalho muito bem pago... Mas incomum. Clara soltou uma risada curta, sem humor. - Eu aceito qualquer coisa, sr. Cavalieri. Desde que seja honesto. - Isso depende do seu conceito de honestidade - disse ele, agora olhando diretamente nos olhos de Clara. - Eu preciso de alguém para ocupar um lugar na minha vida. Clara piscou, confusa. - Como assim? - Preciso que finja ser alguém que não está mais aqui. Mais um silêncio. - Por quê? - ela disse, finalmente. - Porque algumas pessoas acreditam que ela ainda está. Clara demorou alguns segundos para responder. - Fingir ser alguém? Isso não é ilegal? - Não exatamente - ele iniciou, tranquilo demais - É mais uma questão de interpretação. Clara levantou subitamente. Aquilo parecia impossível de existir fora de filmes de ficção. Mas agora ela estava diante dele, perplexa. - Eu acho que não estou entendendo. Nathaniel inclinou-se sobre a mesa e pegou o porta-retrato, virando-o para ela. A mulher na foto era elegante, sorriso contido, um olhar firme e sedutor. Usava um vestido cor de vinho. Nathaniel a abraçava por trás, com uma das mãos apoiada em sua cintura. Ambos sorriam. As alianças eram visíveis. - Helena - disse baixo. - Minha esposa. - Espera... Você está me pedindo para fingir ser sua esposa? - Clara perguntou, ainda boquiaberta. Ela sorriu ao mesmo tempo, incrédula. - Em algumas situações específicas - respondeu. - Eventos, aparições, contatos selecionados. Nada que você não consiga aprender. - Isso é um absurdo. - Clara disse, balançando a cabeça negativamente. - É necessário. - E onde ela está agora? A pergunta pareceu atingir Nathaniel em cheio, causando um silêncio momentâneo. Clara percebeu, mas optou por não dizer nada, aquela situação já era complicada demais para questionar outra coisa.. Ele piscou e disse, finalmente: - Ausente. - Ausente? Ninguém fica "ausente" assim de repente. Ainda mais a esposa de alguém. - Algumas pessoas ficam. Clara deu alguns passos para trás ficando no meio da sala. Apoiou a mão na cintura, enquanto a outra passava pela boca, pensativa. - E por que eu? - ela virou-se para ele. Nathaniel permanecia sentado. Mas logo se levantou e se aproximou de Clara. - Porque você é... Adequada. - ele olhou cada detalhe do rosto dela, resistindo a tentação de toca-la. - Eu vejo você nela. O cabelo, as maças das bochechas, o olhar... - Isso é loucura. - É uma oportunidade, Clara. Você precisa de dinheiro, e eu preciso de você. Clara mordiscou os lábios. Era simples demais, mas ia contra todos os seus princípios desde que se tornou adulta: honestidade. Mas, pela primeira vez, ela sentia que não precisava ser uma escolha difícil. A porta estava aberta, mesmo que a levasse para o lugar errado. - E se eu disser que não? Nathaniel deu de ombros, com a mesma tranquilidade de antes. - Não muda nada pra mim... Nem para você. A resposta foi fria. Clara olhou novamente para a foto. O sorriso de Helena inevitavelmente parecia esconder alguma coisa, ou talvez fosse apenas impressão. Naquela altura, Clara estava anestesiada sobre qualquer sensação. - E seu eu disser que sim? Dessa vez, Nathaniel sorriu. Um sorriso diabólico. "Mas é impressão, tem de ser apenas impressão", Clara torcia para si mesma. - Então você deixa de ser invisível.






