Mundo de ficçãoIniciar sessão
Clara Navarro estava sentada em uma mesa de bar, virando alguma garrafa de refrigerante. Não tinha mais dinheiro para pedir qualquer outra coisa. O bar não era grande, tinha luzes baixas, mesas e cadeiras de madeira desgastadas e havia um cantor em um mini palco no meio do local, cantando "Tempo Perdido" do Legião Urbana.
- Somos tão jovens... - ela murmurou baixo, imitando a música de forma áspera e irritante. - Que droga, Renato. Eu não tenho mais tempo. Ela virou a garrafa e percebeu que não havia mais nada ali, mas continuou a fazer o mesmo gesto apenas para ter o que fazer com as mãos e não sentir os olhares pesados sobre ela, mesmo sabendo que a maioria daquelas pessoas já estavam altas e não se lembrariam de nada no dia seguinte. Enquanto a música soava, já distante dos seus ouvidos, sentiu o celular vibrar. Era uma mensagem da sua mãe, informando que mais uma conta estava atrasada. Ela suspirou fundo e levantou-se, deixando uma nota de R$10 sobre a mesa. Antes de sair do bar, fechou o zíper do seu moletom e colocou as mãos gentilmente nos bolsos. A rua estava vazia e o clima era frio, com alguns gatos pingados aqui e ali, pessoas que, com a rotina tão corridas, possuíam somente o último horário para correr ou pedalar. Northbridge era segura o suficiente para que isso acontecesse. Ela não se importava com o frio congelante, pois não queria voltar para a realidade desgasgante da sua vida. Atravessou a avenida principal tranquilamente até chegar à praia. O mar estava agitado e o vento bagunçava todo o seu cabelo, mas ela se sentia em paz. Sentou na areia e fechou os olhos, sentindo a brisa fria e refrescante no seu rosto. A lua estava cheia, iluminando o mar com um brilho cintilante que dançava junto as ondas. Estas quebravam na superfície, quebrando também o silêncio da noite, mas trazendo a sensação de paz que ela tanto buscava. Clara adorava que, mesmo por breves momentos, tudo parecesse distante; as dúvidas, problemas, pesadelos. De repente, quase como uma luz, um homem passou correndo ao seu lado em direção a água. Estava com roupa social, a camisa branca aberta e calça de marfim preta, sem nenhum calçado nos pés. O sujeito cambaleava em determinados antes de finalmente entrar na água. "Um louco bêbado", ela pensou, revirando os olhos. Tentou ignorá-lo, mas ao olhar ao redor, percebeu que ele era única coisa que chamava sua atenção naquele momento. A praia estava vazia. Semicerrou os olhos para ver o que ele estava fazendo e notou que ele se afastava cada vez mais da superfície, até sumir em meio as ondas. Um minuto se passou, até as mãos dele aparecerem ao alto, numa agitação desesperada. O coração dela disparou. Ele estava definitivamente se afogando. Um louco bêbado se afogando, era o que faltava para completar o seu dia. - Que merda! O quê? - Socorro! Socorro! A voz dele era distante e pesada. Clara olhou ao redor em busca de ajuda, mas não havia ninguém. Somente ela. Então, movida pelo instinto, arrancou seu moletom e seus sapatos e correu em direção a água. Estava gelada de forma incapacitante, seus lábios tremeram de frio instantaneamente, e o choque atravessou sua pele como pequenas agulhas. Mas ela não pensou duas vezes e mergulhou. Nadou o mais rápido que pôde e até que suas forças se esgotassem. O homem já estava inconsciente quando ela o alcançou, pesado demais pelas ondas, e por um instante, o pânico apertou o peito de Clara. Ela percebeu que não iria conseguir e os dois acabariam mortos ali. - Por favor, ajuda! Socorro! Ela gritava, enquanto engolia água e tossia violentamente. Ela agarrou o homem com um braço e com o outro foi nadando de volta até a praia, mas a distância era impossível agora. Os seus músculos queimavam e as pernas estavam dormentes. O peso dele os arrastavam para baixo cada vez que as ondas fortes quebravam sobre os dois. Clara não sabia como estava conseguindo segurar aquele homem. Ela estava cansada, mas resistiu. Gritou novamente por ajuda, com a voz já falhando em meio ao vento, até que duas silhuetas surgiram correndo pela praia e, sem pensar duas vezes, a ajudaram a puxar o homem para fora. Quando Clara sentiu a areia sob os joelhos e percebeu que estavam seguros, toda a adrenalina abandonou seu corpo de uma vez. Sua visão escureceu, os sons ficaram distantes e ela desabou ali mesmo pelo cansaço. ————–——————————————— - Hospital Saint Aurora - Clara abriu os olhos lentamente, quando deu seus primeiros suspiros consciente, sentiu seu pulmão e sua cabeça doerem levemente. Havia engolido muita água durante aquele tumulto na praia. Estava em uma maca de hospital, recebendo soro na veia e uma enfermeira estava fazendo curativo em uma pequena ferida em sua testa. - Com licença... - Clara disse em um tom fraco. - Onde está... o homem que entrou comigo? - Homem? A enfermeira parou e ficou com um olhar de dúvida, mas logo retomou ao que estava fazendo. Clara olhou para o sofá do quarto e viu que todas as suas coisas estavam ali. - Sim, eu o salvei... bem... - ela insistiu. - Tentei salvá-lo de um afogamento. Como ele está? - Ah, sim - a enfermeira sorriu, finalmente se lembrando. - Ele está no quarto ao lado. Mas não sei... da última vez que o vi, ele estava bastante inquieto. Queria ir embora. - Entendi. A enfermeira finalizou o curativo e saiu, mas antes, aconselhou a paciente a aguardar mais aquela noite antes de pedir alta e a evitar se levantar bruscamente. Clara olhou o relógio de parede: Eram 03h da manhã. A sua mãe devia estar furiosa com a demora, mas ela não estava com o pensamento nisso. Ela havia acabado de salvar - ou tentar - salvar alguém. Por quais motivos ela se sacrificaria para salvar um desconhecido? Não, aquilo foi apenas o instinto. Clara saiu do seu devanio quando alguém bateu na porta. - Pode entrar - ela respondeu. Seu coração acelerou ao ver a figura entrando pela porta. Era o homem que ela havia salvado na praia. Ele fechou a porta atrás de si e se aproximou em silêncio, escolhendo cada movimento. Por um momento, apenas a observou. - Clara... certo? Ela agora o via sem a escuridão fria da noite; Ele era moreno com um tom quente, sua mandíbula era definida e firme. Seu olhos eram escuros, mas ela não estava convencida disso. Eram castanhos em sua mente. Seu cabelo era preto, castanho também, talvez, e ainda estava úmido. De baixo do pijama hospitalar, era fácil perceber que seu corpo era definido, ela também havia sentido durante todo o caos na água. Era alto, posturado e sereno. Além de tudo isso, ela via os ferimentos leves na sua testa, mas deduziu que foram causados pelo que aconteceu na água, já que ela também estava ferida. - Sim, sou eu - ela disse, ajeitando-se na maca. - Meu nome é Nathaniel. Espera.... -cNathaniel? O empresário mais importante de... - Clara gaguejou, com um meio sorriso. - Desculpe. Aquele Nathaniel da Cavalieri Group? Nathaniel Cavalieri? - Depende do quanto você ouviu sobre mim - respondeu, com calma. - Mas sim, sou eu. Clara piscou algumas vezes, tentando encaixar a imagem do homem à sua frente com a figura que via em telas, entrevistas e capas de revista. Não fazia sentido. Não ali. Não naquele quarto de hospital, com cheiro de antisséptico e luz branca demais. Não naquela praia, não daquela forma. Por que ela o havia salvado? Por que ele estava naquela situação? - Você estava se afogando na água.... Como você está agora? - Eu estou bem. Eu vim aqui pessoalmente porque quero te agradecer por ter me salvado, Clara. Nathaniel levou as mãos até as de Clara e se esforçou para sorrir, mas ela havia percebido que ele estava abatido e que aquilo era apenas gentileza. Ela não o conhecia como uma fã do seu trabalho, então ambos estavam seguros sobre reações exageradas e perguntas inusitadas. Naquele instante, ele era apenas um humano. Quando ele estava com as mãos sobre as dela, ela viu outros pequenos arranhões nas costas das das suas mãos e presumiu que foram causados por ela mesma. - Olha, você não precisa me agradecer. Qualquer pessoa de bem teria feito a mesma coisa. - ela sorriu meio sem graça, se sentiu constrangida pelas marcas que estavam nele. - Me desculpe por isso... - ela olhou para as mãos dele - Eu nem sabia o que estava fazendo direito. A expressão do rosto de Nathaniel mudou de repente e ele retirou as mãos dele delicadamente de perto dela, e as acariciou uma na outra. Ele andou de um lado para o outro na sala e voltou a atenção para ela novamente. - Está tudo bem, Clara. Isso não foi nada. Eu estava em um momento ruim, um pouco bêbado talvez, mas agora está tudo bem. E você? - Isso é muito bom, Nathaniel. Eu... estou um pouco...- ela se ajeitou na maca novamente, seu corpo doía - cansada. Na verdade, mais cansada do que pensei que estaria. - Isso não é uma surpresa - ele comentou. - Você entrou em uma água congelante para salvar alguém. - Como eu disse, qualquer pessoa teria feito isso. Nathaniel a encarou por um segundo, como se fosse responder, mas apenas negou levemente com a cabeça. - Não. Os dois sorriram. - É uma pena que eu não tenha visto o seu desempenho, mas tenho certeza que se saiu bem. - ele iniciou novamente. - É pura gentileza da sua parte, mas preciso confessar que quase morri afogada junto com você, Nathaniel. - Ainda assim, você está aqui. - ele olhou para ela. - Você também... - Clara desviou o olhar, sentindo um leve incomodo. - Então, estamos estranhamente empatados. O silêncio se sucedeu pelo quarto, mas era um silêncio consciente, não havia mais nada a ser dito. Nathaniel caminhou até a janela do quarto, observando a rua lá embaixo. Northbridge parecia distante dali. Os carros passavam tranquilamente, como se as pessoas estivessem saindo para trabalhar, as luzes eram frias e se ouvia apenas o barulho dos pagers dos aparelhos médicos. Clara o observou, sem dizer nada. - Obrigado novamente, Clara. Por ter salvado minha vida. Ele assentiu com a cabeça e saiu do quarto fria e apressadamente. Ele parecia perturbado, mas quem não estaria após quase morrer afogado? Era muito simples. Clara suspirou devagar e fechou os olhos. Provavelmente nunca o encontraria outra vez.






