Capítulo 6

Kieran

O ferro b**e contra o chão com força suficiente para ecoar pelo pátio inteiro.

Jogo o peso longe e apoio as mãos nos joelhos, respirando pesado. O suor escorre pelo meu rosto, mistura-se com o sangue que corre de um corte aberto no antebraço. Não sinto dor. Não agora. O corpo está quente demais para isso.

Treino desde antes do sol nascer. E não paro.

Cada golpe que dou no saco de treino é uma tentativa de calar o que está acontecendo dentro do meu peito. Cada soco é uma ordem silenciosa para o meu corpo lembrar quem manda.

Sou eu.

Sempre fui.

— “Mentira.” — Fenrir provoca, a voz grave e irritante dentro da minha mente. — “Ela ainda está aí.”

— Cala a boca. — rosno, acertando o saco com tanta força que a corrente estala.

O impacto reverbera pelo braço, sobe pelo ombro. Bom. Preciso disso. Preciso de algo físico para me manter ancorado.

— “Você sente a falta dela até agora. Falta de provar os lábios dela, de sentir o calor do corpo.”

Fecho os olhos por um segundo, sem querer. E lá está. O salão. O vestido simples. Os olhos assustados. O cheiro.

Meu peito aperta como se alguém tivesse fechado a mão em volta do meu coração. Abro os olhos com raiva.

— Eu não sinto falta de ninguém. — digo em voz alta, mais para mim do que para ele.

Fenrir ri. Um riso baixo, perigoso.

— “Sente sim. E sente medo também.”

Dou outro golpe, dessa vez com o punho errado. O ferro rasga a pele dos dedos. O sangue pinga no chão de pedra.

— Eu não vou arrastar outra Luna para a morte. — digo, com os dentes cerrados. — Não vou repetir isso.

— “Você não matou Helena.”

— Eu estava lá. — respondo, a voz dura. — E ela morreu.

Fenrir se aproxima, pesado como uma presença real.

— “E mesmo assim, a Deusa te escolheu outra vez.”

— A Deusa erra.

— “É nisso que quer acreditar?”

O saco de treino se solta da corrente e cai no chão com um baque seco. Alguns guerreiros que treinavam mais afastados param, tensos, mas ninguém se aproxima.

Eles sabem. Sou perigoso assim.

Pego uma toalha e jogo sobre o ombro, ignorando o sangue. Quando me viro para sair do pátio, quase trombo com Aron.

Meu Beta me encara em silêncio por alguns segundos.

— Vai se matar desse jeito.

— Não tenho esse luxo. — respondo, passando por ele.

Ele segura meu braço, firme, mas sem desafio.

— Kieran, chega.

Olho para a mão dele como se estivesse pensando em arrancá-la. Aron solta devagar, mas não recua.

— Você precisa parar de fingir que nada aconteceu ontem à noite.

Dou um passo para trás.

— Não aconteceu nada.

Aron suspira.

— O salão inteiro sentiu. Até lobos que nunca ligaram para você sentiram. Alguma coisa mudou.

— Não muda nada. — corto.

— Muda tudo. — ele rebate. — A alcateia precisa de uma Luna. A Bruma está próxima. Os sinais já começaram. Os ômegas estão inquietos, os machos mais agressivos. Você sabe o que isso significa.

— Significa que eu mantenho todos na linha.

— Sozinho?

Não respondo. Aron abaixa a voz.

— A Deusa não te puniria com outra perda.

Meu maxilar trava.

— Você não sabe disso.

— Sei que você não é um homem amaldiçoado, Kieran. — ele diz, com firmeza. — Só é um homem ferido.

Viro as costas.

— Mantenha aquela garota longe de mim.

Aron franze a testa.

— Que garota?

— A visitante. A pequena. — digo, seco. — Não quero ela perto de mim. Nem do salão, nem dos corredores, nem de lugar nenhum.

Fenrir rosna, furioso.

— “Você está mentindo pra todo mundo.”

— Faça isso. — insisto. — É uma ordem.

Aron hesita.

— Kieran…

— É uma ordem, Aron.

Ele assente, contrariado.

— Como quiser, Alfa.

Quando ele se afasta, sinto o peso da decisão cair sobre mim. É a coisa certa. Tem que ser. Não posso permitir que o vínculo avance. Não posso permitir que ela entre na minha vida.

Não de novo.

No fim da tarde, o Conselho anuncia oficialmente o que todos já sentiam no ar.

A Bruma.

— Em poucos dias, o cio coletivo vai se intensificar. — Magnus diz, solene. — Todos devem permanecer em seus alojamentos após o pôr do sol. Patrulhas dobradas. Tolerância zero para descontrole.

Sinto Fenrir se mexer, inquieto.

— “Isso vai ficar feio.”

— Eu sei. É exatamente por isso que ela precisa ficar longe.

Mais tarde, Cassandra aparece no corredor que leva aos meus aposentos. Não sorri dessa vez. Está curiosa. Atenta demais.

— Estão dizendo coisas interessantes sobre os convidados. — ela comenta, caminhando ao meu lado sem ser convidada.

— Não me interessa.

— Sempre interessa quando algo raro surge. — ela diz. — Uma loba… diferente. Pequena. Discreta. Mas que fez você abandonar o salão.

Paro de andar. Viro lentamente o rosto para ela.

— Não fale sobre isso.

Ela sorri, satisfeita por ter tocado no ponto certo.

— Então é verdade. — Cassandra murmura. — Existe uma “especial”.

— Não existe nada. — respondo, gelado.

— Vou descobrir quem ela é. — Cassandra diz, como quem fala do clima. — E de onde veio.

Fenrir se agita.

— “Ela é perigosa.”

— Eu sei. — respondo pra ele em minha mente e depois olho para ela — Faça o que quiser. — respondo, retomando o caminho. — Desde que não chegue perto de mim.

Cassandra ri baixinho atrás de mim.

— Veremos, Kieran.

A noite cai pesada sobre Aislen. A lua surge entre nuvens grossas, opaca, inquieta. Tento dormir, mas o corpo não obedece. O peito continua apertado, como se algo estivesse fora do lugar.

Levanto da cama e vou até a janela. Fecho os olhos. E então acontece. Não é um pensamento. Não é uma lembrança. É medo. Cru. Repentino.

Meu corpo inteiro reage como se o perigo estivesse diante de mim. O coração acelera. Fenrir se ergue com um rosnado baixo.

— “Ela.”

Vejo flashes que não são meus. Um corredor estreito. Passos apressados. Um empurrão. O medo dela explode dentro de mim como se fosse meu.

Abro os olhos, respirando forte.

— Que porra é essa… — sussurro.

Fenrir está atento, quase… satisfeito.

— “Você sentiu.”

— Como? — pergunto, confuso, irritado. — Eu não a marquei. Não existe vínculo.

— “Existe sim.” — ele responde, com algo muito parecido com orgulho. — “Já começou. Mesmo sem a marca.”

— Isso é imposs

ível.

Fenrir ri. Um som profundo, cheio de certeza.

— “Inacreditavelmente perfeito.”

Sinto algo dentro de mim sorrir junto com ele. E isso… isso me assusta mais do que qualquer Bruma.

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