Mundo de ficçãoIniciar sessãoKieran
O ferro b**e contra o chão com força suficiente para ecoar pelo pátio inteiro.
Jogo o peso longe e apoio as mãos nos joelhos, respirando pesado. O suor escorre pelo meu rosto, mistura-se com o sangue que corre de um corte aberto no antebraço. Não sinto dor. Não agora. O corpo está quente demais para isso.
Treino desde antes do sol nascer. E não paro.
Cada golpe que dou no saco de treino é uma tentativa de calar o que está acontecendo dentro do meu peito. Cada soco é uma ordem silenciosa para o meu corpo lembrar quem manda.
Sou eu.
Sempre fui.
— “Mentira.” — Fenrir provoca, a voz grave e irritante dentro da minha mente. — “Ela ainda está aí.”
— Cala a boca. — rosno, acertando o saco com tanta força que a corrente estala.
O impacto reverbera pelo braço, sobe pelo ombro. Bom. Preciso disso. Preciso de algo físico para me manter ancorado.
— “Você sente a falta dela até agora. Falta de provar os lábios dela, de sentir o calor do corpo.”
Fecho os olhos por um segundo, sem querer. E lá está. O salão. O vestido simples. Os olhos assustados. O cheiro.
Meu peito aperta como se alguém tivesse fechado a mão em volta do meu coração. Abro os olhos com raiva.
— Eu não sinto falta de ninguém. — digo em voz alta, mais para mim do que para ele.
Fenrir ri. Um riso baixo, perigoso.
— “Sente sim. E sente medo também.”
Dou outro golpe, dessa vez com o punho errado. O ferro rasga a pele dos dedos. O sangue pinga no chão de pedra.
— Eu não vou arrastar outra Luna para a morte. — digo, com os dentes cerrados. — Não vou repetir isso.
— “Você não matou Helena.”
— Eu estava lá. — respondo, a voz dura. — E ela morreu.
Fenrir se aproxima, pesado como uma presença real.
— “E mesmo assim, a Deusa te escolheu outra vez.”
— A Deusa erra.
— “É nisso que quer acreditar?”
O saco de treino se solta da corrente e cai no chão com um baque seco. Alguns guerreiros que treinavam mais afastados param, tensos, mas ninguém se aproxima.
Eles sabem. Sou perigoso assim.
Pego uma toalha e jogo sobre o ombro, ignorando o sangue. Quando me viro para sair do pátio, quase trombo com Aron.
Meu Beta me encara em silêncio por alguns segundos.
— Vai se matar desse jeito.
— Não tenho esse luxo. — respondo, passando por ele.
Ele segura meu braço, firme, mas sem desafio.
— Kieran, chega.
Olho para a mão dele como se estivesse pensando em arrancá-la. Aron solta devagar, mas não recua.
— Você precisa parar de fingir que nada aconteceu ontem à noite.
Dou um passo para trás.
— Não aconteceu nada.
Aron suspira.
— O salão inteiro sentiu. Até lobos que nunca ligaram para você sentiram. Alguma coisa mudou.
— Não muda nada. — corto.
— Muda tudo. — ele rebate. — A alcateia precisa de uma Luna. A Bruma está próxima. Os sinais já começaram. Os ômegas estão inquietos, os machos mais agressivos. Você sabe o que isso significa.
— Significa que eu mantenho todos na linha.
— Sozinho?
Não respondo. Aron abaixa a voz.
— A Deusa não te puniria com outra perda.
Meu maxilar trava.
— Você não sabe disso.
— Sei que você não é um homem amaldiçoado, Kieran. — ele diz, com firmeza. — Só é um homem ferido.
Viro as costas.
— Mantenha aquela garota longe de mim.
Aron franze a testa.
— Que garota?
— A visitante. A pequena. — digo, seco. — Não quero ela perto de mim. Nem do salão, nem dos corredores, nem de lugar nenhum.
Fenrir rosna, furioso.
— “Você está mentindo pra todo mundo.”
— Faça isso. — insisto. — É uma ordem.
Aron hesita.
— Kieran…
— É uma ordem, Aron.
Ele assente, contrariado.
— Como quiser, Alfa.
Quando ele se afasta, sinto o peso da decisão cair sobre mim. É a coisa certa. Tem que ser. Não posso permitir que o vínculo avance. Não posso permitir que ela entre na minha vida.
Não de novo.
No fim da tarde, o Conselho anuncia oficialmente o que todos já sentiam no ar.
A Bruma.
— Em poucos dias, o cio coletivo vai se intensificar. — Magnus diz, solene. — Todos devem permanecer em seus alojamentos após o pôr do sol. Patrulhas dobradas. Tolerância zero para descontrole.
Sinto Fenrir se mexer, inquieto.
— “Isso vai ficar feio.”
— Eu sei. É exatamente por isso que ela precisa ficar longe.
Mais tarde, Cassandra aparece no corredor que leva aos meus aposentos. Não sorri dessa vez. Está curiosa. Atenta demais.
— Estão dizendo coisas interessantes sobre os convidados. — ela comenta, caminhando ao meu lado sem ser convidada.
— Não me interessa.
— Sempre interessa quando algo raro surge. — ela diz. — Uma loba… diferente. Pequena. Discreta. Mas que fez você abandonar o salão.
Paro de andar. Viro lentamente o rosto para ela.
— Não fale sobre isso.
Ela sorri, satisfeita por ter tocado no ponto certo.
— Então é verdade. — Cassandra murmura. — Existe uma “especial”.
— Não existe nada. — respondo, gelado.
— Vou descobrir quem ela é. — Cassandra diz, como quem fala do clima. — E de onde veio.
Fenrir se agita.
— “Ela é perigosa.”
— Eu sei. — respondo pra ele em minha mente e depois olho para ela — Faça o que quiser. — respondo, retomando o caminho. — Desde que não chegue perto de mim.
Cassandra ri baixinho atrás de mim.
— Veremos, Kieran.
A noite cai pesada sobre Aislen. A lua surge entre nuvens grossas, opaca, inquieta. Tento dormir, mas o corpo não obedece. O peito continua apertado, como se algo estivesse fora do lugar.
Levanto da cama e vou até a janela. Fecho os olhos. E então acontece. Não é um pensamento. Não é uma lembrança. É medo. Cru. Repentino.
Meu corpo inteiro reage como se o perigo estivesse diante de mim. O coração acelera. Fenrir se ergue com um rosnado baixo.
— “Ela.”
Vejo flashes que não são meus. Um corredor estreito. Passos apressados. Um empurrão. O medo dela explode dentro de mim como se fosse meu.
Abro os olhos, respirando forte.
— Que porra é essa… — sussurro.
Fenrir está atento, quase… satisfeito.
— “Você sentiu.”
— Como? — pergunto, confuso, irritado. — Eu não a marquei. Não existe vínculo.
— “Existe sim.” — ele responde, com algo muito parecido com orgulho. — “Já começou. Mesmo sem a marca.”
— Isso é imposs
ível.
Fenrir ri. Um som profundo, cheio de certeza.
— “Inacreditavelmente perfeito.”
Sinto algo dentro de mim sorrir junto com ele. E isso… isso me assusta mais do que qualquer Bruma.







