CAPÍTULO 5 - DECISÕES IMPULSIVAS

DULCE

Atualmente...

Meu corpo inteiro parecia anestesiado enquanto eu atravessava o corredor iluminado

Eu simplesmente fui embora.

Sem pensar ou senso de direção. Puxando minha mala de rodinhas atrás de mim enquanto caminhava rápido demais pela pequena passarela de madeira da pousada.

Eu continuava ouvindo a voz dele na minha cabeça.

“Eu nunca deixei de amar você.”

Meu Deus, como doía.

As rodas da mala batiam tortas contra o chão de pedra enquanto eu saía da pousada praticamente às cegas. Em algum momento tirei os óculos para limpar as lentes molhadas, mas isso só piorou tudo. Minha alta miopia transformou as luzes suaves da rua e o brilho do mar em manchas distorcidas.

Eu não aguentei muito.

Em determinado momento minhas pernas simplesmente cederam.

Parei na calçada e me agachei ali mesmo, apoiando os braços sobre a mala enquanto o choro finalmente explodia de verdade. Um soluço doloroso escapou da minha garganta e então veio outro… e outro… até eu perder completamente o controle.

Chorei curvada sobre mim mesma como se estivesse tentando impedir meu coração de se partir mais.

Naquele momento eu não conseguia pensar em absolutamente nada além da dor esmagadora dentro do peito.

Cinco anos jogados fora , amando um homem que ainda pertencia à minha irmã e esperando algo que nunca existiu.

Senti náusea.

Vergonha.

Humilhação

E um pesar que me rasgava o peito, causando um dano que me fazia temer ser irreversível.

Limpei o rosto de qualquer jeito, coloquei os óculos novamente e me obriguei a levantar.

Eu precisava sair dali.

Então caminhei mais um pouco pela avenida costeira sem realmente saber para onde estava indo.

Foi quando vi o hotel.

Entrei quase no automático.

O ar-condicionado frio bateu no meu rosto quente de choro enquanto eu atravessava o lobby puxando a mala atrás de mim.

A recepcionista me lançou um sorriso profissional que vacilou discretamente ao notar meu estado.

— Bom dia, senhora. Precisa de um quarto?

Assenti em silêncio.

Minha voz não saiu.

Ela fez o check-in rapidamente quando lhe passei meus documentos enquanto eu permanecia imóvel tentando não desmoronar ali mesmo. Minhas mãos tremiam quando peguei o cartão eletrônico do quarto.

— O elevador fica à esquerda.

Agradeci em um tom baixo, sentindo minha garganta áspera.

*****

A primeira coisa que fiz ao entrar no quarto foi deitar na cama olhando para o nada até finalmente quebrar.

O choro veio violento e descontrolado.

Aquele tipo de dor que faz o peito arder fisicamente, eu chorei até minha cabeça doer.

Passei o dia inteiro trancada ali, dormindo em intervalos curtos e miseráveis.

Dário estava com Maria - provavelmente naquele exato momento.

A ideia me destruía de novo cada vez que surgia.

Então a raiva veio.

Eu estava cansada de amar sozinha!

Levantei abruptamente da cama e fui até o banheiro.

Meu reflexo no espelho me assustou. Os olhos inchados atrás dos óculos, o coque desfeito, o rosto abatido.

Patética.

Era assim que eu me sentia.

Me aproximei devagar do vestido notando que o tecido deslizou pelos meus dedos como água.

Bonito e sensual.

Minha mãe provavelmente imaginou que eu usaria aquilo para Dário.

Quase ri.

No fim, ele nunca veria.

Mas outra parte de mim pensou: E daí?

Tomei um banho longo e quente, deixando a água escorrer pelo meu corpo enquanto tentava lavar a dor acumulada daquele dia infernal.

Depois me arrumei.

Soltei os cabelos completamente. Os cachos caíram pelas minhas costas de forma volumosa, rebelde, viva. Passei uma maquiagem leve — muito mais do que normalmente teria coragem — e vesti o vestido.

Meu Deus!

Quase não me reconheci.

O tecido abraçava minhas curvas. O decote valorizava meu colo, e a fenda discreta deixava parte da minha perna exposta quando eu andava.

Feminino.

Sexy.

Bonito.

Calcei o salto alto que veio junto na mala e fiquei parada diante do espelho por alguns segundos.

Como se eu estivesse olhando para outra pessoa.

Quando desci até o saguão do hotel, percebi imediatamente a movimentação diferente. Música elegante preenchia o ambiente enquanto hóspedes mascarados circulavam pelo bar principal.

— Baile de máscaras, senhora — a recepcionista explicou sorridente ao perceber minha confusão. — Todos os hóspedes estão convidados.

Ela pegou uma máscara dourada delicada sobre o balcão e me entregou.

Segurei o objeto por alguns segundos e então coloquei.

O bar estava lotado, com luzes baixas refletindo nos lustres dourados enquanto casais dançavam ao som de jazz moderno misturado com música eletrônica suave. Risadas, perfumes caros e álcool preenchiam o ar.

Pela primeira vez em anos… ninguém me olhava com pena.

Na verdade, alguns homens me olharam demais e com real interesse.

E Deus.

Aquilo foi perigosamente agradável.

Me aproximei do bar tentando ignorar o nervosismo estranho dentro do peito por estar chamando tanta atenção. Precisava beber.

E muito.

Foi exatamente quando outra mão alcançou o último drink deixado pelo bartender ao mesmo tempo que a minha.

— Eu peguei primeiro — uma voz masculina grave disse ao meu lado.

Virei o rosto automaticamente, meu cérebro falhou por um segundo detectando o monumento ao meu lado.

Ombros largos trajando um smoking preto perfeitamente ajustado ao corpo.

Uma máscara escura escondia parte do rosto dele, mas não o suficiente para diminuir o estrago causado pela beleza absurda daquele homem.

Meu Deus.

Era o homem mais bonito que já vi de perto.

Os olhos límpidos desceram lentamente para minha mão segurando o copo junto com a dele.

— Engraçado — respondi antes de pensar. — Porque minha mão chegou primeiro.

Sua sobrancelha arqueou discretamente.

— Então temos um impasse.

O bartender surgiu nervoso.

— Posso preparar outro…

— Não precisa — respondi rapidamente.

Mas ao tentar puxar o copo, o líquido acabou inclinando perigosamente e derramou diretamente na camisa branca dele.

Congelei.

Silêncio sepulcral se fez

Depois ouvi uma mulher próxima soltar uma risadinha chocada.

— Meu Deus… eu… desculpa…

Os olhos dele desceram lentamente para a mancha molhada no próprio peito.

Então voltaram para mim e ao invés de irritação…

Ele sorriu.

Um sorriso lento e perigoso.

Esse homem era a verdadeira definição da palavra pecado.

Meu coração tropeçou imediatamente.

— Essa foi uma forma interessante de chamar minha atenção.

Meu rosto esquentou instantaneamente.

— Não foi intencional. Não seja presunçoso. - respondi com um sorriso.

— Pena.

A resposta saiu baixa e sedutora , assim como tudo nele.

Senti calor subir pelo meu pescoço.

O homem pegou o guardanapo que o bartender ofereceu sem tirar os olhos de mim.

— Agora acho justo você me pagar outra bebida.

Soltei uma risada nervosa.

— Você claramente pode pagar suas próprias bebidas.

— Não estraga o clima.

Ele inclinou levemente a cabeça;

— Mas agora fiquei curioso sobre você.

Homens nunca ficavam curiosos sobre mim.

Nunca.

Isso sim era épico.

O bartender preparou outro drink enquanto eu tentava ignorar a forma como aquele homem me observava.

Seus cabelos eram curtos e negros, uma vez em que ele  debruçou no balcão ao meu lado me engolindo com os olhos claros.

A postura relaxada, a boca bonita e, o olhar intenso parado diretamente em mim como se estivesse tentando me decifrar , me deixou balançada.

Parecia que ele estava desmontando minhas camadas lentamente

Senti meu corpo inteiro ficar consciente da presença dele.

— Então? — ele perguntou apoiando no balcão. — Vai fugir depois de quase me afogar em whisky caro?

Sorri sem perceber.

— Você é dramático.

— Se me der a oportunidade de me conhecer melhor...garanto que vai mudar de ideia.- seu tom era sugestivo e ousado.

Fiquei imensamente nervosa.

Eu normalmente mal conseguia sustentar conversas longas com estranhos sem ficar desconfortável. Mas escondida atrás daquela máscara… parecia mais fácil respirar.

Ele pegou o novo copo e estendeu na minha direção.

— Trégua?

Olhei para a bebida.

Depois para ele.

Aceitei.

Nossos dedos se tocaram de leve, meu corpo inteiro reagiu.

Os olhos dele escureceram minimamente, como se tivesse percebido.

— Interessante — murmurou baixo.

Engoli em seco.

— O quê?

Ele inclinou o rosto um pouco mais perto.

— Você fica arrepiada quando encosto em você,

Meu coração disparou tão forte que achei que ele pudesse ouvir.

— Você fala isso para todas?

— Não. Apenas para mulheres que atiçam meus sentidos.

O jeito como respondeu me fez perder o ar por um segundo.

A música mudou lentamente ao fundo enquanto o salão continuava girando ao nosso redor, mas de alguma forma parecia que só existíamos nós dois naquele balcão.

Ele se aproximou mais um pouco.

Perto o suficiente para que eu sentisse o perfume dele.

Amadeirado.

Quente.

Perigosamente masculino.

— Me diz uma coisa — falou em tom baixo. — Você sempre foi assim ou a máscara fez você perder o juízo?

Sorri pela primeira vez naquele dia.

Um sorriso de verdade.

— Talvez eu tenha cansado de ser quem eu sou.

Os olhos dele percorreram meu rosto lentamente por trás da máscara.

— Perigoso.

— O quê?- o olhei desconfiada.

— Pessoas fazem escolhas impulsivas quando querem esquecer a própria vida.

Engoli o restante da bebida de uma vez.

— Talvez hoje eu queira ser impulsiva.

A boca dele curvou-se minimamente.

E Deus…

Não me recordo de ver qualquer homem olhando para mim daquela forma.

Como mulher.

Conversamos por algum tempo e rimos de não sei o que. O álcool aqueceu meu corpo, a música confundiu meus pensamentos e, em anos, alguém realmente parecia me enxergar.

Ele me desejava.

Quando ele segurou minha mão e perguntou se eu queria subir, eu deveria ter dito não.

Mas naquela noite eu estava cansada de ser correta.

Então fui.

O quarto dele era luxuoso, iluminado apenas pelas luzes suaves da varanda aberta para o mar.

 E quando ele me beijou… meu corpo inteiro tremeu.

Passei anos sendo ignorada pelo próprio marido. Anos sem ser tocada, desejada ou sequer olhada daquela maneira.

E naquela noite, alguém me tocou como se eu fosse mulher de verdade.

********

Lentamente abri os olhos , sentindo a luz entrando através das enormes janelas de vidro , fazendo com que eu piscasse uma sequência de vezes começando a sentir uma dor de cabeça miserável. Me fazendo recordar de que havia pesado a mão na bebida ontem à noite.

Ontem à noite!

Meus olhos se arregalam quando bato sentada puxando o lençol contra meu corpo , uma vez em que encaro ao meu lado da cama King Size. O lugar está desarrumado , mas um barulho de chuveiro ligado me deixa em polvorosa.

Levei a mão para cima do meu rosto a procura da máscara que para meu prazer permanecia em seu lugar.

As imagens sórdidas da noite anterior fazem com que eu faça uma careta fechando meus olhos me maldizendo, por ter sido tão irresponsável. Afinal de contas não era do meu feitio ser assim.

Apavorada pulo da cama tentando esquecer das mãos e da boca do homem por todo o meu corpo , deixando meu rosto quente com as lembranças vívidas, intensas e marcantes. Me deixei levar pela beleza inescrupulosa do macho safado com aparência de Deus, por mais que nenhum de nós dois pudesse ver o rosto do outro – entretanto o seu físico já era mais do que o suficiente para saber que o homem era um espetáculo a parte, e sem deixar de lado seu charme irresistível que era o aditivo final para levar qualquer mulher para a cama sem precisar fazer esforço.

E o pior não era isso...

Por Deus...havia perdido minha virgindade com um estranho!

Perscruto o olhar por todo o quarto a procura das minhas roupas as localizando em cima de uma cadeira pomposa dobrada.

Sem mais delongas deixo o lençol cair no chão e rapidamente me visto, enfiando meus saltos nos pés - precisando cair fora daqui o mais rápido possível, antes que o estranho gostoso saísse do banheiro e viesse exigir explicações, as quais nem eu conseguiria dar.

De modo sorrateiro e de ponta de pé pego minha clutch em cima da mesinha que tinha ao lado da porta e mais que depressa saio dali.

Assim que saio do quarto , que viro no corredor escuto meu nome sendo chamado por uma voz já então familiarizada, deixando meu corpo todo dormente.

— O que faz aqui , Dulce?

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