Mundo de ficçãoIniciar sessãoDULCE
Atualmente...
Existe uma crueldade silenciosa nas esperanças pequenas.
Porque são justamente elas que nos matam devagar.
As grandes decepções ao menos chegam fazendo barulho, quebrando portas, rasgando tudo de uma vez. Mas as pequenas… não. Elas se instalam quietas dentro da gente, delicadas, quase inocentes, e quando percebemos já construíram uma casa inteira no peito.
Foi exatamente isso que aconteceu comigo.
Eu criei esperança.
E Deus… como fui estúpida.
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Naquela manhã acordei antes do despertador. O céu ainda estava escuro do lado de fora das enormes janelas do quarto de hóspedes — porque, cinco anos depois, eu ainda dormia no quarto de hóspedes — mas meu coração estava estranhamente leve. Permaneci alguns segundos deitada olhando para o teto enquanto tentava controlar a ansiedade ridícula que crescia dentro de mim.
Cinco anos de casamento.
Cinco anos amando um homem que nunca realmente foi meu.
E, ainda assim, naquela manhã, alguma coisa parecia diferente. Talvez porque pela primeira vez Dário tivesse prometido tentar. “Eu vou ser um marido melhor.”
A frase não saiu com paixão, nem com romantismo. Saiu cansada, quase resignada, durante uma conversa semanas antes, depois de uma discussão calorosa onde eu finalmente tive coragem de perguntar até quando continuaríamos vivendo como estranhos.
Mas para alguém faminta por migalhas… aquilo virou banquete.
Ele mandou que eu fosse diretamente para o aeroporto e nos encontraríamos lá após ele sair do trabalho , precisava passar na empresa antes para resolver algumas coisas.
Passei os dedos pelos fios devagar.
Prendi os cabelos , mantendo- o no penteado de sempre.
Sobre a cama estava o vestido que minha mãe havia mandado especialmente para a viagem. Um vestido branco de tecido leve e delicado, mais bonito — e mais sensual — do que qualquer coisa que eu normalmente usaria.
Minha mãe sequer tentou esconder o choque quando pedi conselhos sobre o que levar para as Bahamas.
— Finalmente esse casamento vai parecer um casamento de verdade? — ela perguntou enquanto avaliava o vestido.
Meu rosto esquentou imediatamente.
Ela suspirou irritada.
— Dulce, já faz cinco anos. Cinco. Você deveria parar de agir como uma freira.
A vergonha queimou meu rosto.
Mas ela não estava errada.
Cinco anos.
E Dário nunca tinha me tocado como homem toca mulher.
Mesmo assim… naquela manhã eu acreditava que talvez aquilo mudasse.
Porque a viagem tinha sido ideia dele.
Bahamas.
Uma semana.
Nós dois.
Sozinhos.
Meu coração disparava só de pensar.
Passei um brilho discreto nos lábios, coloquei os óculos e desci carregando a mala pequena comigo.
Linete sorriu quando me viu descendo as escadas.
— A senhora está linda.
Meu rosto esquentou imediatamente.
— Não estou acostumada com esse tipo de comentário.
Ela me lançou um olhar cheio de significado.
— Pois saiba que deveria recebe-lo todos os dias.
Timidamente sorri para ela.
A frase ficou comigo o caminho inteiro até o aeroporto.
Cheguei cedo demais, me sentia extremamente ansiosa de um jeito ridículo.
O aeroporto estava movimentado, cheio de famílias, turistas e casais embarcando para viagens de férias enquanto eu permanecia sentada próxima ao portão segurando minha passagem com força entre os dedos.
Nosso voo sairia às onze.
Às dez eu ainda sorria discretamente olhando o celular.
Às dez e quinze comecei a ficar inquieta.
Às dez e quarenta meu coração já estava acelerado.
Olhei o relógio pela décima vez.
Nada.
Nenhuma mensagem e muito menos qualquer ligação.
Às onze em ponto começaram os avisos de embarque.
Meu peito apertou lentamente.
Liguei para ele e só caia na caixa postal.
Outra vez tentei e nada
Minha garganta começou a secar.
Talvez fosse o trânsito ou uma reunião urgente de última hora o atrapalhou.
Liguei para a secretária dele, ela atendeu rapidamente.
— Senhora Garcia?
— Aconteceu alguma coisa com Dário?
Houve um pequeno silêncio do outro lado.
— O senhor Dário já embarcou esta manhã.
Meu coração falhou uma batida.
— O quê?
— O voo dele foi antecipado para mais cedo. Pensei que a senhora soubesse.
Fiquei imóvel.
Completamente imóvel.
Mas então…
Sorri.
Porque meu coração desesperado precisava acreditar em alguma coisa.
Talvez ele tivesse ido antes para me preparar uma surpresa.
Quem sabe uma recepção romântica.
Um jantar.
Algo especial.
Meu Deus!
Talvez ele realmente estivesse tentando.
A esperança é humilhante, mas era em tudo o que eu poderia me apegar.
Mesmo assim embarquei.
Passei o voo inteiro imaginando possibilidades ridículas como uma adolescente apaixonada.
Com certeza Dário estava me esperando no hotel, tivesse preparado flores. Talvez aquela viagem fosse o começo de verdade para nós dois e finalmente existisse espaço para mim no coração dele.
Quando o avião pousou nas Bahamas, o céu estava absurdamente bonito. Tons dourados tingiam o mar cristalino enquanto o ar quente de verão envolvia tudo.
Meu coração disparava outra vez.
Peguei minhas malas e fui direto para o resort reservado originalmente.
Mas assim que cheguei ao balcão da recepção, alguma coisa pareceu estranha.
A atendente verificou meu nome no sistema.
Depois franziu levemente a testa.
— Senhora Garcia… houve alteração na reserva.
Meu estômago afundou
— Alteração?
— Sim. O senhor Garcia solicitou transferência de hospedagem esta manhã.
Meu coração tropeçou dentro do peito.
— Transferência para onde?
Ela digitou rapidamente antes de me entregar um papel com o novo endereço.
Uma pousada de charme mais afastada da região principal da ilha.
Meu peito apertou.
Mas ainda assim sorri discretamente.
Porque naquele momento eu continuei querendo acreditar que ele tivesse escolhido algo mais íntimo.
Mais romântico.
Mais pessoal.
Deus como eu estava ansiosa!
O táxi percorreu uma estrada estreita cercada por coqueiros enormes até finalmente parar diante da pousada. O lugar era absurdamente bonito. Pequeno, sofisticado e escondido entre jardins tropicais iluminados pela luz dourada do fim da manhã. Lanternas decorativas balançavam suavemente ao vento e o som distante do mar preenchia o ambiente.
Era um lugar para casais apaixonados.
Meu coração acelerou.
A recepção era aconchegante, decorada em madeira clara e flores naturais espalhadas pelos cantos. O ar tinha cheiro de maresia e perfume cítrico.
— Bem-vinda à Maison du Soleil — a recepcionista disse em inglês, sorridente. — Seu quarto já está preparado.
Ela me entregou a chave e indicou o caminho pelos jardins da pousada.
— Suíte Hibiscus — informou com um sorriso. — Fica na ala privativa próxima aos jardins.
Lhe dei um meneio de cabeça.
Enquanto seguia pelo corredor externo da pousada, senti meu coração bater mais forte a cada passo. O caminho era iluminado por pequenas luzes no chão, cercado por plantas tropicais e pelo perfume doce das flores noturnas. Havia pequenas varandas privativas em cada suíte, algumas com cortinas leves dançando ao vento. Tudo era intimista demais.
Meu quarto ficava mais afastado, no final de um corredor parcialmente coberto por trepadeiras floridas. Conforme me aproximava, comecei a ouvir vozes.
Primeiro uma risada feminina.
Depois uma voz que era tão conhecida para mim e inconfundível.
Meu coração parou.
Porque eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar do mundo.
E reconheceria a outra também.
Maria.
Me aproximei devagar do corredor externo da pousada sentindo minhas pernas enfraquecerem a cada passo. A porta do quarto estava parcialmente aberta, e as vozes escapavam sem dificuldade.
Pela fresta encarei a cena que fez com que as lágrimas deslizassem por meu rosto.
— Você continua um galanteador — Maria riu.
Leve e bonita.
Naturalmente encantadora.
— Você desapareceu por cinco anos — Dário respondeu em tom baixo. — Achei que nunca mais fosse voltar.
Meu peito apertou tão forte que precisei apoiar a mão na parede.
— Sentiu minha falta? — ela provocou.
Silêncio.
Depois eles se beijaram
O som combinado a imagem dos dois nus agarrados na cama destruiu alguma coisa dentro de mim.
Fechei os olhos imediatamente.
Mas não consegui sair dali, como se meu corpo precisasse assistir ao próprio enterro.
— Eu nunca deixei de amar você — Dário confessou.
As palavras entraram rasgando.
Cruéis.
Definitivas.
Lá dentro houve outro riso baixo.
Depois lençóis se movendo, intercalados entre beijos e intimidade.
O tipo de intimidade que ele nunca me deu.
Cinco anos de casamento.
E eu continuava sendo apenas a substituta ocupando temporariamente o lugar da mulher que ele realmente queria e que jamais se esqueceu.
Como se fosse premeditado , bem no dia do nosso aniversário de casamento ele ousou viajar para outro país somente para ficar com ela.
Por mais que soubesse o que esperar dele , nunca imaginei que fosse capaz de me infringir tamanha dor.
Não deveria me sentir traída, mas era impossível não me sentir assim.
As lágrimas começaram a descer sem controle, silenciosas, queimando meu rosto enquanto eu permanecia parada do lado de fora daquele quarto ouvindo meu marido amar outra mulher.
Minha meia - irmã.
Senti náusea.
Humilhação.
Vergonha.
Mas, acima de tudo…
Senti raiva de mim mesma.
Porque, no fim, a pessoa que mais me destruiu durante todos aqueles anos não foi Dário.
Fui eu.
Por continuar esperando amor onde nunca existiu nenhum.







