CAPÍTULO 2 - A ÚLTIMA LANÇA

DULCE

Há 3 anos atrás...

Permaneci parada por alguns segundos diante da porta automática do hospital tentando entender por que meu peito parecia tão pesado

Talvez porque, naquele momento, eu estivesse oficialmente armazenada dentro de um laboratório.

Meus óvulos congelados, e junto com eles.... meu sonho também.

— Senhora Garcia?

A voz da enfermeira me alcançou antes que eu pudesse ir embora. Virei-me rapidamente, ajustando os óculos.

— Sim?

Ela me entregou mais alguns documentos com um sorriso profissional.

— Está tudo certo. Agora só precisamos agendar a próxima etapa assim que seu marido comparecer.

Meu marido.

Ainda era estranho ouvir aquilo mesmo depois de três anos de casamento.

Sorri sem mostrar os dentes.

— Claro.

Mentira.

Porque eu já sabia que Dário não iria, assim como sabia de muitas outras coisas.

Sabia que ele jamais pisaria naquela clínica por vontade própria. Até porque ele nunca sonhou em construir uma família comigo, dividir o sobrenome já era sacrifício suficiente.

Mesmo assim, assenti educadamente, agradeci e fui embora como a esposa posturada que aprendi a ser.

Caminhava distraída pelo corredor amplo e silencioso do hospital, perdida demais nos próprios pensamentos para prestar atenção ao redor. Minha cabeça continuava presa nas palavras da médica, na frieza burocrática de armazenar sonhos dentro de tubos congelados, na humilhação de saber que provavelmente Dário jamais pisaria ali, mas ainda assim iria tentar convencê-lo.

Então esbarrei em alguém.

Foi forte o suficiente para a pasta escapar das minhas mãos.

— Droga…- murmurei assustada quando os documentos se espalharam pelo chão brilhante do corredor.

— Olha por onde anda.

A voz masculina veio grave, baixa e irritadiçamente bonita.

Levantei os olhos automaticamente.

E por um segundo esqueci completamente dos papéis no chão.

O homem diante de mim era absurdamente bonito.

Alto.

Elegante.

Vestido com um terno escuro impecável que parecia caro mesmo para meus padrões acostumados ao luxo. Os traços fortes do rosto transmitiam uma arrogância quase natural, como se ele soubesse exatamente o efeito que causava nas pessoas e tivesse parado de se importar há muito tempo. O relógio em seu pulso provavelmente custava mais do que um carro popular inteiro.

Mas foram os olhos que me prenderam.

Verdes cristalinos.

Intensos.

Frios.

O tipo de homem que parecia perigoso mesmo parado.

Meu rosto esquentou imediatamente ao perceber que estava encarando por demasiado tempo.

— Desculpe… eu estava distraída.

Ele sequer respondeu.

Apenas se abaixou para recolher alguns papéis espalhados pelo chão antes que alguém pisasse neles. Fiz o mesmo rapidamente, tentando ignorar a vergonha crescente.

— Obrigada…- murmurei baixo.

Foi então que nossos dedos se tocaram ao pegar a mesma folha.

A reação foi instantânea.

Um choque leve percorreu minha pele de forma tão inesperada que puxei a mão de volta quase imediatamente. Meu coração tropeçou dentro do peito, e por um segundo fiquei completamente imóvel olhando para os dedos como uma idiota.

Que droga foi aquilo?

Levantei os olhos de novo.

Mas ele parecia absolutamente indiferente.

Como se não tivesse sentido nada.

Claro que não sentiu.

Homens como ele provavelmente estavam acostumados com mulheres suspirando ao redor.

Ele organizou os documentos rapidamente e me entregou a pasta de volta sem muito interesse.

— Você devia prestar mais atenção.

A frase não saiu grosseira exatamente.

Só distante.

Controlada.

Assenti sem graça enquanto ajeitava os óculos no rosto.

— Sim… desculpe outra vez.

Os olhos dele passaram rapidamente pelos papéis, avaliando sem real curiosidade. Nada memorável.

Ainda assim, meu estômago fez algo estranho quando ele sustentou meu olhar por um segundo a mais.

— Está tudo aí — disse apenas.

Assenti outra vez tentando organizar as palavras — Obrigada.

Ele não respondeu.

Apenas se afastou corredor adentro com passos seguros e postura impecável, deixando para trás um perfume amadeirado sofisticado demais para alguém daquele lugar estéril.

E eu odiei perceber que acompanhei sua figura até desaparecer no final do corredor.

Ainda assim… enquanto apertava a pasta contra o peito, não consegui ignorar um pensamento específico atravessando minha cabeça.

Aquele homem era perigosamente bonito.

Sacudi a cabeça tentando desfocar do acontecido conforme saí da clínica de fertilidade, sentindo o vento frio da tarde bagunçando alguns fios do meu cabelo que haviam escapado do coque. As pessoas passavam apressadas pela calçada, falando ao telefone, vivendo suas vidas.

A chuva começou fina quando entrei no carro. Fiquei alguns minutos segurando o volante sem ligar o motor, observando meu reflexo no vidro. Eu parecia cansada. Mais do que cansada, na verdade. Parecia apagada. Como uma fotografia esquecida ao sol durante tempo demais.

Engraçado.

Minha mãe costumava dizer que eu tinha nascido com vocação para ser invisível.

E talvez tivesse razão.

Ao contrário de Maria, que nunca precisou tentar existir. Ela simplesmente acontecia. Entrava nos lugares e tudo girava em torno dela naturalmente, como se o mundo tivesse sido construído para notar sua presença.

 Eu, não. Eu precisava me esforçar até para ser lembrada.

Talvez tenha sido exatamente por isso que me colocaram no altar no lugar dela.

Conveniente.

Liguei o carro com um suspiro cansado e dirigi até em casa enfrentando o trânsito lento daquela tarde cinzenta.

Linete a governanta apareceu na cozinha assim que ouviu meus passos.

— Boa tarde, senhora Dulce.

Ela ainda me chamava assim naquele tom gentil que às vezes fazia meu coração apertar.

— Boa tarde, Linete.

Ela percebeu a pasta em minhas mãos imediatamente.

— Foi tudo bem?

Por um segundo pensei em mentir.

Dizer que sim.

Dizer que estava feliz.

Mas eu estava cansada demais para fingir.

— Foi.

Ela me observou por alguns segundos em silêncio.

— O senhor Dário chegou mais cedo hoje — comentou enquanto me entregava uma xícara de chá. — Está no escritório.

Meu coração reagiu automaticamente.

Três anos depois e meu corpo ainda reagia ao simples fato de saber que ele estava em casa.

— Entendi.

Subi as escadas lentamente, pensando que talvez aquele fosse o momento certo para conversar.

Se eu explicasse com calma…

A ideia morreu antes mesmo que eu terminasse de formulá-la, porque eu já conhecia Dário e a distância dele.

A maneira como ele nunca olhava para mim por tempo suficiente, fosse lhe queimar as retinas dos olhos

Ainda assim, bati na porta do escritório.

— Entra.

A voz grave atravessou a madeira.

Empurrei a porta devagar.

Dário estava sentado atrás da mesa, sem gravata, as mangas da camisa social dobradas até os antebraços. Bonito de um jeito injusto. Sempre foi. A luz amarelada do escritório destacava o maxilar forte e a expressão séria concentrada em alguns documentos.

Ele levantou os olhos quando percebeu minha presença.

E eu odiei o fato do meu tolo coração ainda tropeçar dentro do peito por causa disso.

— Precisa de alguma coisa? — perguntou diretamente.

Sem grosseria.

Sem carinho.

Apenas indiferença educada.

Levantei levemente a pasta.

— Hoje foi o procedimento.

Os olhos dele pousaram no objeto em minhas mãos por dois segundos antes de voltarem para mim sem nenhuma reação.

— Entendo.

Meu estômago revirou em uma completa agonia.

— O médico disse que agora só…

Minha voz falhou por um instante.

Respirei fundo umedecendo meus lábios

— Só precisa agendar sua parte.

Dário desviou os olhos primeiro.

Aquilo já era resposta suficiente.

Mesmo assim, continuei. Porque insistir nele era um hábito humilhante que eu nunca consegui perder.

— Não precisa ser agora — falei rapidamente. — Eu sei que você está ocupado, mas o médico explicou que...

— Dulce, para.

Eu me calei imediatamente.

Dário apoiou as costas na cadeira e me encarou pela primeira vez de verdade naquela conversa.

— Nós já falamos sobre isso.

Meu peito apertou.

— Mas o contrato…

Ele soltou uma respiração longa, impaciente.

Um casamento de fachada precisava parecer completo e um filho ajudaria nisso, pelo menos era o que minha mãe dizia.

Mas existia um detalhe cruel naquela história toda: Dário nunca me tocou, nem uma vez sequer em três anos.

Nosso casamento era um acordo frio sustentado por jantares em família, eventos sociais e corredores silenciosos dentro daquela casa enorme.

Éramos estranhos dividindo sobrenome, apenas.

— Eu não mudei de ideia — ele disse por fim.

As palavras entraram em meu coração como se tivesse sido alvejado por uma lança.

— Dário…

— Não faz isso.

Franzi a testa.

— Isso o quê?

Ele me encarou fixamente por alguns segundos antes de responder:

— Não fica criando expectativas onde não existe nada.

Meu corpo inteiro ficou rígido.

Porque ele nem fazia ideia.

Não fazia ideia de quantas expectativas eu já havia enterrado sozinha ao longo daqueles anos.

— Eu só achei que… talvez agora…- engoli seco sentindo minha voz e mãos trêmulas.

— Agora o quê? — interrompeu.

A pergunta veio dura.

Cortante.

— Que eu magicamente fosse esquecer Maria?

O nome dela caiu entre nós como uma sentença, mesmo ausente e do outro lado do mundo.

Senti um bolo se instalar no meio da minha garganta.

— Eu não disse isso.

— Mas pensou.

Desviei os olhos imediatamente, sabendo que ele tinha razão.

Por todos esses anos me iludi com a ideia de que um dia o conquistaria e ganharia seu coração.

Uma parte iludida de mim sempre acreditava que talvez, com tempo suficiente, ele pudesse finalmente me enxergar como mulher.

Que talvez cansasse de amar alguém que nunca o escolheu.

Mas Dário nunca cansava.

— Você é a culpada de tudo . Se não tivesse feito a cabeça dela , Maria nunca teria fugido. — ele disse em voz baixa.

Ele não fazia ideia de que Maria fugiu com outro homem poucas horas antes da cerimônia. Ela escolheu abandonar tudo sem olhar para trás e minha mãe me obrigou a esconder a verdade.

Então eu me calei, como sempre.

E o silêncio virou minha prisão.

Dário levantou da cadeira devagar.

Imponente.

— Eu aceitei esse casamento porque não tive escolha — declarou friamente. — Mas não confunda isso com amor.

Meu coração doeu mesmo sabendo que já deveria estar acostumado.

Ele se aproximou apenas o suficiente para destruir o pouco de ar que ainda havia em mim.

— E eu nunca vou acreditar que você não teve participação no que aconteceu.

Aquilo me atingiu com violência.

— Dário…

Me cortou bruscamente

— Maria jamais teria ido embora daquele jeito se não estivesse tentando proteger alguém.

Meu sangue gelou nas veias. Ele realmente acreditava naquilo, depois de todos aqueles anos… ele ainda acreditava.

— Ela não fugiu por minha causa — murmurei com voz embargada

— Não? — ele rebateu com um sorriso frio. — Então por quê?

Porque ela estava apaixonada por outro homem.

Porque nunca te amou.

Porque enquanto você construía um futuro inteiro em volta dela, Maria já planejava fugir.

As palavras queimaram minha garganta.

Mas eu não consegui dizê-las.

Porque destruir Maria significava destruir o pouco de amor que minha mãe ainda sentia por mim.

E talvez… talvez eu fosse covarde demais para isso. Então permaneci calada.

E meu silêncio, mais uma vez, me condenou.

Dário assentiu lentamente, interpretando minha falta de resposta da pior maneira possível.

— Foi o que pensei.

Ele voltou para a mesa como se a conversa tivesse acabado.

Fiquei parada ali por mais alguns segundos, sentindo algo pesado crescer dentro do peito.

Humilhação.

Cansaço.

Tristeza.

Tudo junto.

— O médico disse que ainda dá tempo — murmurei, mesmo sabendo que não deveria insistir. — Se você quiser…

Dário nem levantou os olhos dos documentos quando respondeu.

— Eu não quero um filho em um casamento como esse e muito menos com você.

A frase destruiu alguma coisa dentro de mim.

Porque, finalmente, percebi algo cruel. Eu havia congelado meus sonhos esperando por um homem que nunca pretendia realizá-los comigo.

Segurei a pasta com mais força e apenas assenti.

— Entendi. Não se preocupe, não vou mais te incomodar – Minha voz saiu pequena e distante, quase inexistente. Exatamente como eu sempre fui naquela casa.

— Me faria um grande favor.

Uma ferida se abriu em meu peito e eu sabia bem que não cicatrizaria tão cedo.

Quando saí do escritório e fechei a porta atrás de mim, tive a estranha sensação de que alguma parte do meu ser havia ficado ali dentro.

Morta.

E ainda assim e mesmo despedaçada…continuei amando Dário.

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