Mundo de ficçãoIniciar sessãoDAMIÃO GUERRA
Há 3 anos atrás...
Meu avô costumava dizer que homens da família Guerra não tinham o direito de serem fracos.
Engraçado.
Porque foi exatamente um homem fraco que destruiu minha família.
Meu pai.
Ainda lembro do dia em que ele saiu de casa levando metade das roupas em malas caras enquanto minha mãe fingia dignidade na frente dos empregados. Eu tinha dezenove anos, mas nunca vou esquecer o som dos saltos dela ecoando pela sala enorme depois que ele foi embora. Nem o cheiro do whisky que ela começou a beber escondida à noite. Nem a forma como passou a dormir com as luzes acesas.
Tudo por causa de amor.
Ou do que chamam assim.
Meu pai abandonou vinte e cinco anos de casamento para fugir com a própria secretária. Uma mulher mais jovem, bonita e estrategicamente encantadora que passou anos sorrindo para ele atrás de uma mesa de escritório até conseguir exatamente o que queria.
Casamento, um sobrenome de peso, dinheiro e um filho – como garantia- de um futuro promissor.
Meu meio-irmão.
A nova família perfeita.
Patético.
As pessoas gostam de vender o amor como uma coisa bonita, mas eu aprendi cedo que amor é só uma desculpa ‘’elegante’’ para justificar egoísmo.
Casamento então? pior ainda.
Uma negociação emocional onde alguém sempre sai perdendo.
E eu me recusei a ser esse alguém.
Talvez por isso eu tenha me tornado exatamente o tipo de homem que minha mãe odiava: frio, desapegado e absurdamente cuidadoso para nunca pertencer a mulher nenhuma e muito menos receber o golpe da barriga.
As revistas sociais me chamavam de playboy.
Os sites de fofoca adoravam publicar fotos minhas entrando em festas acompanhado de modelos diferentes toda semana.
Eu deixava, era conveniente.
Mulheres bonitas, noites rápidas, nenhuma promessa. Era coisa prática e simples, algo seguro o qual não envolvia sentimentos e nenhuma armadilha.
Porque existia uma coisa que eu jamais permitiria: ser preso.
Dinheiro atrai interesseiras como sangue atrai tubarões, e eu cresci vendo mulheres tentarem engravidar de homens ricos como se filhos fossem contratos vitalícios. Algumas queriam pensão. Outras status. Outras sobrenomes.
Eu não julgava.
Mas também não seria idiota, sempre fui extremamente cuidadoso , com preservativos, e exames.
Nada de intimidade demais, dormir junto ou de repetir rostos com frequência suficiente para criar expectativa.
Funcionava perfeitamente.
Até meu avô decidir transformar minha vida em um verdadeiro inferno.
Desde muito novo aprendi que sentimentos atrapalhavam negócios, e negócios eram praticamente o idioma oficial da família Guerra. Meu bisavô fundou a primeira fábrica da Guerra Essence décadas atrás, começando com pequenas essências artesanais até transformar aquilo em um império da perfumaria de luxo. Meu avô expandiu a marca internacionalmente. Meu pai quase destruiu tudo junto com o casamento dele.
E eu… bem, eu fui o responsável por transformar a empresa em uma das marcas de perfumes mais renomadas do país.
Perfumes caros.
Campanhas milionárias.
Frascos elegantes prometendo paixão, desejo e amor eterno para consumidores idiotas o suficiente para acreditar nisso.
Irônico.
Eu vendia romantização engarrafada para o mundo inteiro enquanto não acreditava em absolutamente nada daquilo.
— A presidência precisa de continuidade.
A frase saiu da boca dele numa terça-feira de manhã enquanto tomávamos café na mansão da família. O velho Aguinaldo Guerra tinha setenta e sete anos, um coração parcialmente destruído e uma obsessão quase doentia por legado.
Eu continuei mexendo no café.
— E?
Ele me encarou por cima dos óculos.
— Você já tem trinta e três anos.
— Parabéns pela descoberta matemática. - fui sarcástico
O olhar dele endureceu.
— Não estou brincando, Damião.
Nunca estava.
Suspirei pesadamente, sem disfarçar o meu desagrado com essa conversa há essas horas da manhã.
— O que o senhor quer exatamente?
— Um herdeiro.
Direto ao ponto.
Típico.
Minha mandíbula enrijeceu.
— Não.
Ele sequer piscou.
— Então vou colocar o conselho para votar a sucessão da presidência.
Aquilo chamou minha atenção.
Lentamente levantei os olhos, fixando nos seus.
— O quê?
— A empresa precisa de estabilidade futura. Um sucessor legítimo.
Eu ri sem humor.
— Legítimo? Estamos em 2021, não na porra de uma monarquia.
— Não me importa — rebateu friamente. — Um Guerra precisa continuar no comando da empresa.
Eu já sabia onde aquilo ia parar antes mesmo dele continuar.
— Se você não pretende construir uma família, Theo assumirá seu lugar futuramente.
Theo.
Meu meio-irmão.
O filho da secretária.
Senti um gosto amargo subir pela garganta, como féu.
— Nem fodendo.
Fiquei tão puto que pouco me importei com os bons modos.
Meu avô permaneceu calmo, se não fosse por sua erguida de sobrancelha que o tivesse delatado - não aprovando meu linguajar impróprio.
— Então resolva isso.
— O senhor quer que eu case?
A ideia me deu repulsa instantânea.
— Quero um herdeiro.
As palavras ecoaram na minha cabeça pelo restante do dia.
Um herdeiro.
Como se fosse simples.
Como se crianças fossem apenas peças estratégicas dentro de um tabuleiro corporativo.
Talvez fossem para nossa família.
Naquela noite fui para uma festa em Ipanema tentando esquecer a conversa. Música alta, álcool caro, corpos bonitos se esfregando sob luzes artificiais. O cenário perfeito para anestesiar pensamentos inconvenientes.
Uma loira absurdamente bonita sentou no meu colo por volta das duas da manhã.
— Você parece entediado — ela murmurou perto do meu ouvido.
Sorri automaticamente, afinal de contas...era treinado para isso.
— Talvez eu esteja.
Ela riu e beijou meu pescoço.
Qualquer outro dia aquilo bastaria. Naquela noite, não.
Porque enquanto ela deslizava as mãos pelo meu peito, tudo que eu conseguia pensar era que ela poderia engravidar.
E a ideia me causou um desconforto quase físico.
Não pela criança, mas pela mulher.
Pela dependência que isso criava pelo resto da vida, o vínculo. E pela possibilidade de alguém usar um filho como corrente para me manter aprisionado a ela.
O mero pensamento me causou claustrofobia.
Afastei-a gentilmente.
— Vou embora.
Ela franziu a testa.
— Agora?
— Trabalho cedo amanhã.
Mentira.
Saí da festa antes das três e dirigi sem rumo pela cidade vazia até estacionar em frente ao mar. Fiquei observando as ondas quebrando na areia enquanto tamborilava os dedos no volante.
Eu precisava de um herdeiro, mas não queria esposa. Nem relacionamentos e muito menos sentimentos.
E então pensei: banco de óvulos.
A ideia surgiu quase fria.
Clínica.
Contrato.
Discrição.
Sem vínculos emocionais.
Sem alianças.
Sem risco de uma mulher aparecer anos depois tentando transformar maternidade em negociação financeira.
Prático.
Seguro.
Perfeito.
Sorri pela primeira vez naquela semana.
Dois dias depois, marquei uma reunião em uma das clínicas de reprodução mais caras da cidade.
Uma funcionária veio ao meu encontro poucos minutos após minha chegada.
— Senhor Guerra, a doutora já vai atendê-lo.
Assenti sem muito interesse enquanto seguia pelo corredor amplo da clínica mexendo distraidamente no celular.
Uma mulher surgiu dobrando o corredor tão perdida nos próprios pensamentos que literalmente esbarrou em mim. O impacto fez uma pasta azul escapar das mãos dela, espalhando papéis pelo chão brilhante.
— Droga…- ela murmurou assustada imediatamente, abaixando-se rápido.
Parei automaticamente.
— Olha por onde anda — falei por reflexo.
Ela levantou os olhos para mim.
Usava óculos grandes.
Cabelos cacheados presos em um coque claramente improvisado.
Rosto bonito de um jeito discreto, quase escondido atrás daquela aparência excessivamente comportada.
O tipo de mulher que passaria despercebida em qualquer festa que eu frequentava.
Ainda assim, havia alguma coisa estranhamente delicada nela.
Me abaixei para ajudá-la antes que alguém pisasse nos documentos espalhados.
Ela fez o mesmo rapidamente.
— Desculpe… eu estava distraída.
A voz saiu baixa.
Suave.
Nossos dedos se tocaram ao pegar a mesma folha.
Ela puxou a mão de volta quase imediatamente como se tivesse levado um choque, estranhamente quase espelhei sua reação.
Levantei os olhos rapidamente.
Mas a mulher parecia mais assustada do que qualquer outra coisa. Piscou os olhos nervosamente atrás dos óculos enquanto tentava organizar os papéis depressa demais.
Bonitinha.
De um jeito tímido.
Entreguei a pasta de volta sem muito interesse.
— Você devia prestar mais atenção.
Ela ajeitou os óculos rapidamente.
— Sim… desculpe outra vez.
Assenti apenas.
Meus olhos passaram rapidamente pelo nome visível em uma das folhas antes dela guardar os documentos quando os entreguei.
Dulce Garcia.
Ela agradeceu baixo novamente antes de que eu seguisse corredor a dentro.
A médica que me recebeu parecia inteligente demais para se impressionar com meu sobrenome.
Gostei disso.
— O senhor deseja fertilização independente? — perguntou profissionalmente enquanto analisava meus exames.
— Quero um herdeiro sem complicações.
Ela ergueu uma sobrancelha discreta.
— Entendo.
Não, ela não entendia, ninguém entendia. Porque aquilo não tinha nada a ver com desejo de formar família.
Se tratava de sobrevivência corporativa.
Legado e controle.
— Temos banco de doadoras anônimas — explicou enquanto girava alguns documentos na mesa. — O senhor pode selecionar características genéticas, histórico médico, perfil físico…
Era estranho ouvir alguém falar sobre genética como se estivesse escolhendo itens de catálogo.
Mas talvez fosse exatamente isso, uma escolha racional.
Sem amor.
Sem caos.
Muito melhor assim.
— Quero discrição absoluta.
— Isso faz parte da política da clínica.
Assenti lentamente.
A médica deslizou uma pasta em minha direção.
— Algumas pacientes deixam óvulos armazenados para futuros processos de fertilização. Em certos casos específicos, mediante autorização contratual, pode haver compatibilidade para programas independentes.
Olhei os papéis sem muito interesse, nada importava além do objetivo final.
Um herdeiro.
Assinei os primeiros documentos naquela mesma tarde sem qualquer hesitação ou culpa.
Porque eu já havia aprendido há muito tempo que sentimentos só servem para destruir pessoas.
E eu nunca permitiria que isso acontecesse comigo.







