Mundo de ficçãoIniciar sessãoFelipe
— Cara, deixa isso pra quando estiver na faculdade. Bora, pegar umas gatas? — William tenta chamar minha atenção enquanto leio.
— É mesmo. Você já é o primeiro da turma, não precisa estudar coisa que nem é da nossa série. — Carlos dá corda.
— Eu gosto de matemática avançada, me distrai — respondo sem desviar os olhos do livro.
— Mais que uma buceta?
— Depende do momento — digo dando de ombros e encarando um e outro. Eles zoam como sempre, mas por um momento minha atenção é presa a uma loira de rabo de cavalo que está carregando mais livros que o aconselhável nas mãos. Será que trabalha aqui?
— Está olhando a novata, né, seu puto? Depois diz que livro é mais interessante que buceta.
Então ela é nova? Nem percebi que havia uma nova aluna. Se for do mesmo ano que eu, deve ser de outra classe.
— Eu disse que depende do momento. — Me levanto e sigo até meu mais novo objeto de interesse. Por que tenho interesse? Vai saber. A garota é uma força da natureza que me puxa em sua direção sem nem perceber.
Ela está tão distraída que não me nota quando aproximo, faço questão de esbarrar nela. Mas me sinto um completo idiota por um comentário tosco sobre seu bumbum. Parece que ela roubou minha capacidade de pensar antes de falar. Que esquisito.
— Se queria me chamar de bunda amassada, era só chamar, Everest. Agora, se me der licença, esses livros pesam.
Everest? Franzo o rosto diante da forma como me chama. Se bem que perto do seu tamanho, posso ser visto como o monte Everest.
Contrário a dar licença, pego os livros das mãos dela.
— O que quer fazer com eles? — pergunto.
Ela faz uma careta de deboche.
— Ler, obvio.
Mais uma vez falo merda. Que pergunta idiota! Para meu alivio, penso rápido em uma resposta.
— Achei que trabalhasse aqui. Afinal, até alunos novos sabem que só podem pegar três livros por vez.
Ela encara os livros em minhas mãos e responde:
— Eu ia sentar e escolher.
— Então vamos.
— Não preciso de ajuda.
— E nem eu quero ajudar, só acho divertido escolher livro.
— Você é ele, não é?
— Ele quem? — franzo o rosto, confuso com sua pergunta.
— O badboy. Toda história de colégio tem um para ser insuportável e fazer bullying.
— Também tem os que se apaixonam pela aluna nova.
— O que não é nosso caso — responde casualmente.
Eu já me apaixonei uma vez, e não foi a primeira vista. Não acredito nisso. Também não acredito tanto assim em amor adolescente, pois ela se mudou para fora do país e não me fez falta, aos poucos o contato entre nós cessou. Vou me preocupar com amor quando estiver pronto para ter uma família. Sou jovem demais para pensar nisso... Mas por que caralho estou pensando nisso e me justificando?
Espanto os pensamentos antes de sair correndo de perto dessa garota nova que me deixa estranho.
— Claro que não. Isso é vida real, não um clichê — respondo sério. — Só quero ser legal com a aluna nova e aproveitar para escolher livros, coisa que adoro. Agora sente-se aqui e vamos ao que interessa, garota da bunda bonita.
Ela apenas nega com a cabeça, dando um meio sorriso gracioso.
Indico alguns livros de mitologia que li entre os que ela escolheu.
— Serão apenas esses. Depois indico outros, pois só pode levar três. — Novamente fico confuso com sua reação. — Por que está sorrindo?
— Se tivesse me abordado como essa pessoa normal que gosta de livros, eu consideraria ser sua amiga, mas escolheu o tema bunda. O que te faz parecer o tarado da turma.
Impossível segurar uma gargalhada.
— Eu gosto de bunda, talvez mais que de livros — brinco.
Ela ri. É um som muito bom de se ouvir.
O sinal toca. Nem percebi que passou mais de meia hora em que fiquei discutindo sobre melhores livros de mitologia com essa garota.
— Hora de ir. — Me levanto.
Quando estou saindo, ela me chama.
— Qual o seu nome?
— Felipe. E o seu?
— Aurora.
— Nos vemos por ai, Aurora.
Ela responde com um aceno, e eu saio da biblioteca.







