Capítulo 3

Aurora

— Oi, bunda bonita! — sinto alguém segurar minha cintura por trás bem de leve. Quase pulo no lugar com o susto.

— Meu Deus, Everest! Que susto! Tira a mão daí. As pessoas estão olhando e pensando em coisas que não existe.

Como sei que é ele? Essa voz inconfundível, e o fato de que ninguém mais me chama assim. Nosso esbarrão na biblioteca aconteceu ontem, depois daquele momento, todos fizeram questão de me falar sobre ele. O grande Felipe Seven. Um dos filhos dos homem mais poderoso por aqui. Soube até que são mafiosos, mas não dei muita importância. Sou leiga nessa questão de máfia, pelo que penso todos os mafiosos são italianos baixinhos, barrigudos, com terno listrado e charuto na boca. Nada a ver com esse rapaz.

Sinto a mão se afastar e logo ele aparece na minha frente com seu tamanho absurdo e seu rosto capaz de tirar raciocínios.

— Não imaginei que a aluna nova fosse o tipo que se importa com a opinião do outros. Não se veste para chamar a atenção como as outras alunas, não tem o rosto tomado de maquiagem... achei que fosse uma raridade de opinião forte.

Fico muda com suas palavras. Não imaginei que tivesse me notado assim.

— Espero não ter ofendido com essa observação. A ideia não era essa, muito pelo contrário.

— Não ofendeu. — Um pensamento atrevido surge. Se ele pode se atrever a me segurar como segurou, eu também posso me atrever de alguma forma. — Você gosta de sorvete? — Sinto seu olhar curioso sobre mim antes de assentir. — Pensei em tomar sorvete. Se quiser ir e falar de livros... — Deixo no ar.

— Claro. — Ele passa o braço pelo meu e me guia até seu carro, quanto tento dizer que o lugar não fica longe, ele retruca. — Você fez o convite, eu escolho o lugar.

Dou de ombros e me deixo ser guiada. O maluco me levou para um castelo. Juro, tem um castelo em plena capital carioca. Me falaram sobre o lar dos Seven ser um castelo quando vieram me contar sobre ele. Mas estar nele é muito diferente de ouvir falar.

Fiquei boquiaberta quase o tempo todo. Um lugar digno de um sonho.

Conversamos bastante, sentando no balcão de uma cozinha gigante e bem equipada, enquanto tomávamos um sorvete delicioso de nozes com chocolate. Por fim o motorista dele me levou até em casa.

É, parece que é inevitável sermos amigos. Espero que isso seja uma coisa boa.

*

No dia seguinte, tomei café da manhã sob o olhar curioso da minha madrinha. Eu contei tudo para ela, não escondo nada da minha madrinha. Depois do café, fui até o meu amiguinho de penas que gosta de ficar parado na única árvore do quintal.

— Oi, Diablo, como está nessa manhã calorenta? — pergunto, como se ele realmente fosse responder. Ganhei ele dos meus pais quando tinha dez anos. No começo ele ficava preso em uma gaiola grande o bastante para que pudesse ter seu espaço, mas eu tinha pena dele e sempre o soltava. Para minha alegria, ele voltava para dormir na gaiola. Acabou que ele nunca mais ficou preso. Às vezes tenho medo que alguém o machuque quando ele voa para longe, mas acho que viver em uma gaiola é pior. Eu não gostaria de viver presa, e não quero isso ao meu querido bichinho.

Depois de uma conversa bem estilo monologo, pego minhas coisas, despeço da minha madrinha e vou para a aula. Ah, a minha madrinha não trabalha fora, passa o tempo cuidando da casa. Vivemos da herança que meus pais deixaram para mim.

Com os meus fones, sigo o caminho do colégio. Mas hoje está estranho. Sinto como se estivesse sendo seguida. É um sentimento que faz meu coração bater acelerado, mesmo sendo uma rua muito movimentada, é difícil não me incomodar.

Estou quase chegando na frente do colégio quando uma garota que nunca vi na vida, passa os braços pelos meus ombros e diz no meu ouvido:

— É melhor não fazer escândalo e entrar no carro. Ou afundo mais um pouco. — Enquanto fala, sinto uma lâmina cutucar minha pele. A sensação me faz acreditar que cortou a blusa do uniforme e está perfurando minha pele.

Penso em sair correndo, pois não duvido que seja bem pior o que vão fazer comigo nesse carro que acaba de parar e tem dois homens, um no volante e outro atrás.

Nem morta que entro nesse carro. Sem pensar duas vezes, estou prestes a fugir quando a mão da mulher que está no meu ombro, espeta algo em meu pescoço e ela me puxa contra si em um abraço de urso, me impedindo de escapar enquanto, seja lá o que for que tinha na seringa levava minha consciência. Que mulher forte!

As pessoas ao redor pensariam se tratar apenas de duas garotas se abraçando empolgadas.

Enquanto eu apagava, apenas uma pergunta se fazia em minha mente. Por que eu não gritei?

*

Desperto com uma terrível dor de cabeça e com o corpo pesado. Aos poucos consigo ver que estou em um colchão velho no chão. Me apavoro e toco todo meu corpo em busca de indícios que abusaram de mim. Um suspiro de alivio escapa quando tudo indica que não, mas é alivio momentâneo, só durou até a porta abrir e um homem corpulento entrar no lugar ao lado da maldita mulher que me agarrou na rua. Certeza que seu uniforme do colégio é disfarce.

— Acordou, bela adormecida!

— O que querem? Dinheiro? Eu posso conseguir.

Eles se olham e sorriem.

— Dinheiro algum daria mais prazer do que a vingança.

— Vingança? Eu nunca fiz nada contra vocês, nem os conheço.

— Mas seu namorado conhece. O pai dele nos deve por ter acabado com nosso esquema de prostituição.

Namorado? Que namorado?

Fico olhando para eles com cara de paisagem, até que um nome faz tudo fazer sentido.

— Felipe Seven vai pagar. Quando ele chegar aqui, vou fazer ele assistir a amada dele ser quebrada... — ele ri. — e não falo só na parte emocional.

Olho para a mulher, tentando ver se ela é mais sensata para tentar argumentar, mas suas palavras acabam com minha esperança.

— Depois disso, vamos estourar os miolos dele e mandar em papel de presente pra aqueles miseráveis dos Seven.

— Espere, eu não... — tento falar, mas sou interrompida.

— Poupe sua garganta, gatinha. Vai precisar dela logo logo para gritar e implorar.

Eles saem rindo e fazendo planos, sem dar a mínima para o que tenho a dizer sobre esse namoro inexistente.

Pronto. Eu sabia que as pessoas entenderiam errado aquela mão na minha cintura e termos saído juntos do colégio. Só não esperava que fosse esse tipo de pessoas. Eu estou morta. Ninguém seria doido de vir salvar uma praticamente desconhecida correndo risco de morrer.

O que eu faço agora?

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