Quando Lívia saiu, o silêncio que ficou na cozinha foi quase ensurdecedor.
Eu não tremia.
Não chorava.
Não me encolhia.
Eu queimava.
Por dentro, uma lava densa subia lenta, segura, perigosa.
Aquele tipo de raiva que não faz escândalo.
Aquele tipo que cresce calada.
E que, quando finalmente fala, destrói com precisão.
Quem ela pensa que é?
A pergunta estourou dentro de mim como se tivesse sido gritada — mas não saiu da minha boca. Ficou ali, fervendo, rodando pela minha mente.
Quem ela pensa que é pra entrar assim?
Pra me analisar, me medir, me diminuir?
Eu me encostei no balcão, digerindo cada palavra como se fossem farpas alojadas na carne. Não pelo conteúdo — aquilo eu sabia que era veneno — mas pelo fato de ela achar que podia me dizer tudo aquilo, como se eu fosse alguma peça descartável no tabuleiro dela e do Rafael.
"Ele gosta de novidades…, mas logo se cansa."
A vontade que eu tive foi rir.
Um riso amargo, ácido.
Porque o que ela disse não doeu — irritou.