O perigo deixou de ser abstrato no momento em que ganhou olhos. Não olhos curiosos por acaso, mas atentos, presentes demais, como se alguém tivesse começado a perceber que certos silêncios se repetiam com frequência excessiva. O segredo, até então confortável, passou a exigir um nível novo de atenção.
A manhã começou aparentemente comum. Lorenzo saiu para a escola com a tranquilidade de sempre, Dante seguiu para o escritório improvisado no andar de baixo, e eu me ocupei das tarefas rotineiras. Ainda assim, havia algo no ar que não se encaixava. Uma vigilância invisível. Um cuidado que não vinha apenas de nós dois.
Helena circulava pela casa com mais presença do que o habitual. Não era intromissão; era observação. O tipo de observação que nasce da convivência longa, do instinto de quem percebe mudanças sutis no comportamento das pessoas.
Eu estava no corredor quando Dante surgiu à minha frente, vindo do escritório. O encontro foi rápido demais para ser ensaiado, lento demais para ser c