6 UM ACIDENTE NA ESTRADA

  Eu me senti completamente ferida com este comentário, mas não deixava de ser verdade. Porque se o William realmente quisesse minha presença, ele teria me ligado ou passado me ver na residência dos D. Sierras. Mesmo assim, me recuso a chorar na frente de um desconhecido que acha que conhece tudo sobre meu relacionamento.

  “Mas com que carro você pretende nos levar? O Roberto guarda o carro na garagem dos fundos. Não seria mais fácil pedirmos para entregar a pizza.”

  O Sr. Arturo virou a maçaneta da porta, porém antes de abri-la, olhou para trás e alcançou minha figura parada na divisa da sala com os braços cruzados como reprovação.

  “Você não costuma sair muito, não é? A essa altura os restaurantes estão lotados. Se pedirmos para entregar, certamente levará mais de uma hora para recebermos qualquer encomenda. Eu conheço um lugar que fará nosso pedido em menos de dez minutos.” Saindo da residência com sua confiança inabalável, ele continuou sem esperar por uma resposta. “Agora vamos. Não vou te chamar novamente.”

  Segui-o para fora da garagem quase correndo e avistei um Mercedes E-Class estacionado na calçada.

  “Ah! Você veio de carro?” Minhas sobrancelhas se levantaram um pouco.

  “Esperava que eu viesse caminhando do trabalho até a casa do meu irmão, tia Holly?” Ele sendo extremamente sarcástico com esse comentário, sorriu de canto com o rosto virado, mas pude ver através do seu reflexo no vidro. Esse homem parecia estar amando me provocar.

  Notei que ao chegar perto do Mercedes e segurar o puxador da porta, o carro destrancou, sem precisar da chave. Fiquei atônita por um momento, mas era óbvio que não seria como os automóveis que estou acostumada, mudei minha expressão rapidamente para não parecer mais boba.

  “Eu não estava insinuando isso.” Murmurei. 

  Na minha cabeça, ele e o meu patrão tinham vindo juntos com o Roberto. Parei antes de entrar no carro, me virando para os dois. 

  “Ok, mas onde o Kevin irá se sentar?”

  Ele apenas indicou com a cabeça em direção ao banco de trás, onde pude ver um assento de criança instalado naquele estofado caro. O Sr. Arturo fez um sinal de negativa com a cabeça e aproximou-se do meu rosto.

  “Será que agora podemos ir ou a tia Holly tem mais alguma dúvida?”

  Até quando ele irá me chamar assim? Pensei já irritada.

  “Sim. Podemos.” Falei com os lábios quase fechados.

  Quem poderia imaginar que este homem era tão preparado para cuidar do sobrinho? Abri a porta traseira para me sentar perto de Kevin, mas senti um aperto forte e quente no meu braço, não ao ponto de machucar, apenas firme. Sua voz mais baixa bem próxima a mim. Eu podia sentir sua respiração entre os fios do meu cabelo. 

  “Você acha que sou seu chofer?”

  Ele me puxou para mais perto dele, minhas bochechas corando, tanto com a aproximação quanto pela vergonha. O Sr. D. Sierras me trouxe para o seu lado abrindo a porta do passageiro e livrando-me do seu aperto, apontou o braço em direção ao banco.

  “Sente-se.” Sua voz grave e rouca me causava arrepios em alguns momentos. Era nítido como ele era acostumado a mandar e ser obedecido.

  Experimentei um leve sentimento de raiva começando a subir quente pela minha garganta, mas não o retruquei. Apenas entrei no carro e ele fechou a porta, se acomodando no banco do motorista. Kevin brincava com seus dinossauros de pelúcia no banco de traz, alheio a toda nossa interação.

  Pelo que podia ver no seu painel de navegação, iríamos demorar quase meia hora para chegar na pizzaria que ele mencionou. Já percebi que voltaríamos bem tarde para casa e eu só podia pensar em quão tarde o Kevin iria para cama hoje. O carro estava envolto em um silêncio constrangedor entre nós, tirando a batalha acirrada dos dinossauros ao fundo. Eu permaneci imóvel com os braços cruzados. Não queria tocar em nada por receio de  quebrar ou manchar algo. Nunca na vida teria dinheiro para ressarcir uma única peça deste carro.

  “Você parece tensa. Pode relaxar um pouco.” O Sr. D. Sierras me olhou de canto, mas ainda atento ao volante. Dei-lhe apenas um meio sorriso. “Por um acaso, está brava comigo ainda?”

  “Não estou brava!” Virei meu rosto em sua direção. 

  Minha resposta saiu automática e exagerada, antes que eu pudesse me conter. Então ele virou-se para me encarar, seus olhos azuis claros pareciam me fazer mergulhar em águas profundas e cristalinas. Quando me dei conta, eu estava vermelha de novo. Que clima estranho foi esse? No que eu estava pensando? E no que ele estava pensando? Foram segundos, mas ainda assim, ele estava dirigindo. Recuperei minha compostura, virando-me para frente e ajustando o meu vestido que insistia em subir.

  “Se quiser, posso devolver seu celular, mas acredito que você está mais brava por eu ter sugerido a pizza.” Aquele sorriso brincando em seus lábios novamente. 

  Ele nem ao menos tentou olhar para minha direção, mas percebi sua fisionomia mudando.

  “Não sei do que você está falando, mas aceito meu celular de volta.” Eu o encarei com a mão estendida.

  Seu rosto agora sem expressão, ele parecia não me ouvir.

  “Sr. D. Sierras?”

  “Tia Holly, olha! Carros de polícia.” Kevin apontou o dedo para frente.

  As luzes das viaturas nos iluminavam nas cores vermelho e azul. O Sr. Arturo parou o carro e desafivelou o cinto de segurança.

  “Não desçam do carro.” Sua voz era firme 

  Engoli em seco enquanto observava o Sr. Arturo saindo do veículo. Meu coração se apertou por um momento e senti uma sensação estranha. Não haviam apenas carros de polícia, mas duas ambulâncias e um carro de bombeiro. Parecia ter sido um acidente grave. Os paramédicos olhavam para o despenhadeiro abaixo. Em nossa frente havia mais dois carros parados e os motoristas estavam no acostamento, como se aguardassem notícias. Será que eles conheciam essas pessoas?

  Enquanto Kevin pedia para descer junto com o tio, eu me alternava em acalmá-lo e tentar ver o que estava acontecendo do lado de fora. O Sr. Arturo parecia conversar com aquele grupo de pessoas, um casal e outro homem de mais idade. O senhor mais velho colocou uma mão em seu ombro ao mesmo tempo que Arturo pressionava as duas mãos no topo da cabeça. Não podia ser o que eu estava imaginando. Podia? Meus olhos começaram a se encher de lágrimas. E se fosse eles? E se fosse os D. Sierras? 

  Levei uma mão à boca, quando vi aquele homem arrogante e prepotente, que parecia que nada poderia atingi-lo, se agachar no asfalto com a cabeça abaixada, igual uma criança.

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