5 MEU TORMENTO

HOLLY

 ‘Ah! Não acredito. Será que ele ouviu nossa conversa?’ Perguntei-me mentalmente.

  Por um momento pensei em ignorar sua provocação, mas acho que eu estava no meu limite. Não era por causa dele, se fosse qualquer outro dia eu teria apenas respondido gentilmente, como se fosse uma pergunta normal, mesmo porque ele é irmão do meu chefe. Se eu pretendo manter o meu emprego, preciso ao menos não alimentar essas trocas de farpas. Porém, hoje não era um dia comum. Eu estava sendo ignorada pelo William pela milésima vez, eu estava atrasada para um compromisso que eu nem ao menos queria ir e o meu namorado aparentemente não se importava com minha ausência; e eu estava com fome, porque alguém decidiu que o jantar hoje seria pizza, sendo que essa mesma pessoa, que literalmente acabei de conhecer decidiu me atormentar, só porque o sobrinho me chamou de tia.

  Eu ainda estava debruçada sobre o balcão e então me virei com o cabelo bagunçado devido a minha pequena exaltação de antes.

  “Qual o seu problema comigo?”

  Eu pensei ter ouvido sua voz da entrada da cozinha, mas quando me virei, ele estava com uma mão apoiada no banco ao meu lado. Exatamente onde me apoiei para parecer mais confiante. Sua mão estava quente e era grande como ele todo, Quando notei o meu erro, toda aquela coragem parecia ter sido retirada de mim como a um fio de tricô desfazendo uma bela peça de roupa, me deixando com nada, além de uma cara de pânico. Retirei minha mão rapidamente e a balancei no ar, como se tivesse me queimado.

  “Desculpe, não vi que você estava aqui.” Abaixei um pouco meu tom de voz, falando entre os lábios. “Tão perto.”

  Me esquivei de todo o seu esplendor, tentando ao máximo não tocá-lo novamente. O que era difícil, porque ele estava tão perto e não se movia para me dar espaço. Ao me sentir livre finalmente, encostei-me contra a enorme pia atrás de mim. Já aprendi que não posso dar as costas para esse homem ardiloso.

  “E então... Onde você quer que eu te leve?” Ele tinha o olhar fácil, como se não carregasse toda aquela beleza. Tem pessoas que são tão bonitas que é difícil até de manter uma conversa olhando nos olhos, ao mesmo tempo que poderíamos admirá-las o dia inteiro.

  “Para lugar nenhum. O Roberto vai me levar.”

  “Estranho, porque o Roberto saiu há uns vinte minutos.” Ele olhou para seu relógio caro de pulso.

 Massageei as têmporas de leve para não estragar a maquiagem e fechei os olhos para pensar um segundo.

  “Espera, então você está me dizendo que vai me levar para onde eu precisar?”

  “Exatamente.”

  Abri novamente os olhos um pouco confusa e o encarei.

  “Está brincando comigo? Já te digo que hoje não é um bom dia para mim. Apesar de ser muito grata pela gentileza da Sra. Evelyn.” Abaixei a cabeça para olhar o vestido maravilhoso que ela me deu.

  “Neste ponto meu irmão tinha razão.”

  “Como assim?” Peguei meu celular para tentar ligar para o William, novamente. Eram quase onze horas.

  “Esse vestido combina muito com você.”

  Engoli em seco e deixei o celular cair, sem querer. Quando tentei me abaixar para pegar, o Sr. Arturo foi mais rápido. Ao ver sua figura imponente se levantando próximo a mim, eu me senti acuada. Parecia que tinha sido encurralada. Sua sombra cobriu todo meu corpo e ele estendeu o celular na minha direção. Tentei pegar, mas seu aperto era firme e não parecia que iria soltar tão cedo. Na tela apareciam as mensagens que tinha enviado para o meu namorado e eram várias, sem nenhum retorno.

  O Sr. Arturo observou de relance as mensagens, não sabia se tinha dado tempo dele ler alguma coisa. Só pude me sentir ainda mais tola, lembrando do que Cecí havia me falado agora pouco. Eu parecia uma desesperada correndo atrás de alguém que nitidamente não se importava comigo.

  “Ele te enviou o endereço pelo menos?” Senti sua mão relaxando, enquanto eu puxava lentamente o meu celular.

  Ignorei-o e tentei ligar novamente para o William, mas fui impedida por mãos que pegaram novamente meu celular, desligando a ligação e colocando no bolso.

  “É por isso que ele te trata assim.” Arturo dava alguns passos para trás se recostando no balcão de mármore. “Você é... disponível demais.”

  Fiquei irritada com sua atitude, faz apenas algumas horas que nos conhecemos e ele acha que sabe tudo sobre minha vida.

  “Devolve meu celular, por favor.” Estendi a palma da mão em sua direção.

  “Se eu te devolver, você vai ficar a madrugada inteira ligando e enviando mensagem para esse...”

  Cortei a sua frase antes que terminasse. Eu já sabia o que ele iria falar.

  “Olha aqui você não me conhece e certamente não conhece o William.” Dei alguns passos em sua direção. “Agora, você pode devolver o meu celular.”

  Ele fingiu não me escutar e foi em direção a sala.

  “Onde você está indo?” Fui atrás dele.

  “Temos alguém para cuidar hoje.” Ele ergueu meu celular balançando no alto e colocou em seu bolso novamente. “E precisamos comer pizza.”

  Minha nossa, por um momento, eu tinha me esquecido que Kevin estava na sala, acordado a essa hora. Já era muito tarde.

  “Olha que horas são e ele não está na cama ainda.” Andei mais rápido, ultrapassando Arturo. Cheguei próximo ao Kevin, me ajoelhando no chão. “Querido, você deve estar com fome.” Passei a mão em seu cabelo.

  Ele se virou e pulou em cima de mim.

  “Pizza... Vamos comer pizza, tia Holly.”

  “A pizza vai demorar a chegar, Kevin. Olha, como está tarde, vamos jantar hoje e amanhã pedimos pizza. O que você acha?” Apresentei a sugestão e como uma criança compreensiva, senti que ele estava prestes a aceitar quando a voz do tio cortou os meus planos mais uma vez.

  “Eu prometi que comeríamos pizza, então é o que iremos fazer.” O Sr. Arturo pegou Kevin no colo e seguiu para a porta, mas parou olhando para trás. “Você não vem, tia Holly?”

  “Vocês vão sair agora? O Kevin precisa dormir. Já são quase onze horas!” Eu ainda estava de joelhos, não acreditando na sua brilhante ideia.

  “Amanhã ele não tem aula e duvido que ele queira jantar, depois que combinamos que iríamos comer pizza. Você está nos atrasando, tia Holly.”

  “Eu não posso ir. Já tenho planos para hoje a noite.” Levantei-me, ajustando o vestido.

  “Você nem sabe o endereço. Vai ficar aqui como uma boa garota, passando fome, esperando esse cara lembrar que você existe?” Suas palavras me atingiram como um tapa e senti meus olhos marejando. “ E não se esqueça que estou com o seu celular, então eu te recomendaria vir comigo se quiser saber se ele vai te ligar ou não.” Aquele cretino, manipulador, tirou o meu celular do seu bolso e quase esfregou na minha cara.

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