Mundo ficciónIniciar sesiónARTURO
Já se passaram uma semana do terrível acidente que Aidan e Evelyn se envolveram. Disseram que um carro invadiu o lado da pista que eles estavam e se chocou contra o carro de Evelyn, os atirando contra o penhasco. Se não fosse em uma curva, certamente, meu irmão teria conseguido desviar. Parece que quando é para algo ruim acontecer, tudo corrobora para aquilo.
Entrei em contato com Roberto para que ele levasse Holly e Kevin para casa. Fiquei no local até retirarem Aidan e sua esposa do carro. Infelizmente, minha cunhada não resistiu e faleceu na queda, assim como o motorista do outro carro. Meu irmão foi resgatado, mas seu estado ainda é crítico. Pelo que os médicos mencionaram ele bateu a cabeça contra o vidro do carro com muita força durante o impacto, levando-o ao coma.
Tentei ao máximo segurar o funeral de Evelyn para que Aidan pudesse estar presente neste dia, mas ele ainda não recobrou a consciência e os pais dela desejavam enterrar o corpo da filha e dar a sua alma o devido descanso. Eu entendo totalmente, mas ainda tinha esperanças que meu irmão pudesse se despedir da única mulher que ele amou nesta vida. Porém quanto mais os dias passavam, menos chances os médicos davam para que ele acordasse e isso era algo que eu não estava preparado.
Holly tem nos ajudado a cuidar de Kevin em período integral, mas não consegui ir até a residência de Aidan depois daquele dia. Foram muito os assuntos a resolver e papeis para assinar, tanto da empresa, quanto do funeral e os assuntos pessoais relacionados aos dois. Minha cunhada não tinha parentes próximos e como os pais são idosos, precisavam de ajuda com a parte burocrática. Eles estavam hospedados na residência de Aidan e Evelyn para que pudessem buscar consolo na presença do único neto, mas Kevin não quis que Holly fosse embora. Acredito ser apego emocional, por não ter visto os pais a tanto tempo e ele devia entender que não encontraria mais com sua mãe. Meu sobrinho ainda é novo, mas eu também era quando perdi a minha mãe e me lembro exatamente do vazio em meu peito devido a falta que sentia dela.
Meu celular vibrou e vi a mensagem de Liam: “Vai começar. Cadê você?”
Eu estava em uma das salas reservadas, bebendo um copo de uísque. Já havia cumprimentado as pessoas que chegaram para o funeral de Evelyn, as principais pelo menos, seus pais e amigos mais próximos. Pedi para que Holly viesse com Kevin apenas no momento da homilia, não acredito que faria bem ao menino ficar tanto tempo nesse ambiente, mas sei que ele também precisava se despedir da mãe.
Quando entrei na capela, não estava lotada, pois era uma cerimônia reservada apenas para familiares e amigos. Metade das pessoas que estavam aqui, poderiam simplesmente não ter comparecido, pois era a minha metade da família. Pessoas que viraram as costas para o meu irmão quando ele se casou com Evelyn e tudo pelos desejos egoístas da minha avó. Por que razão eles viriam? A única coisa que posso imaginar é a leitura do testamento, mas eles não precisavam se dar ao trabalho, pois não será realizado aqui. Será que agora, sem a minha cunhada no caminho, eles acreditam que Aidan voltará para o testamento? Hipócritas.
Minha garganta coçava para falar algo, espero que nenhum deles venha em minha direção. Caminhei pelo corredor para me sentar ao lado da família Valente, quando a vi. Lá estava Holly com seu vestido preto, simples e discreto. Ela estava sentada ao lado de Nora, mãe de Evelyn, e Kevin estava em seu colo. Todos aguardando a fala do padre que já estava à frente.
Passei por ela e me sentei ao seu lado, não a cumprimentei, mas percebi seu olhar de canto. Enquanto o padre discursava, escutei um breve alvoroço vindo do final do corredor. Quando me virei, avistei minha avó adentrando a capela, a matriarca da família D. Sierras, deve ter vindo para afirmar o seu triunfo sobre a morte daquela que ousou bater de frente com ela.
Ao vê-la, quis me levantar e pedir que ela se retirasse, porém senti uma mão leve e delicada segurando meu braço. Olhei para o lado e vi Holly, que me encarava e fez um sinal negativo com a cabeça. Se fosse qualquer outra pessoa, com toda certeza, teria sido expulsa junto com Adelaide D. Sierras, porém era a babá de Kevin, a pessoa que Evelyn mais falava e dizia confiar a vida do seu filho a ela. Não entendo a razão, mas seu toque me acalmou e sentei-me para terminarmos de escutar o sermão do padre.
Holly levou Kevin para fora, antes que as últimas homenagens fossem prestadas e enfim o enterro. Era nítido que ela estava arrasada por dentro, mas se fazia de forte para que o menino não percebesse.
Ao final da cerimônia nos direcionamos para a mansão da família D. Sierras para a leitura do testamento. Os pais de Evelyn estavam presentes por Kevin, não era bem o momento, mas algo precisava ser definido quanto ao destino do meu sobrinho. Para mim não haviam dúvidas, eu ficaria com ele até que meu irmão acordasse e ele vai acordar, porém precisávamos verificar o que o testamento do casal dizia. Se a vontade de Evelyn fosse em deixá-lo aos cuidados dos avós, eu não iria contra o seu desejo, mas eu era o parente mais presente em suas vidas.
No escritório escolhido, contávamos apenas com a presença da minha avó, os pais de Evelyn, os advogados das partes interessadas, entre eles meu amigo e também advogado Liam, e claramente a mim. A abertura do testamento foi realizada e como meu irmão permanecia vivo, quase nada mudou quanto aos bens, somente a casa onde residiam, seria passada para a família Valente, conforme desejo do casal. E então a parte que mais me interessava sobre Kevin foi abordada. O advogado continuou:
“... em pleno gozo de nossas faculdades mentais, declaramos que, em caso de incapacidade parcial ou permanente e/ou falecimento, a guarda de nosso filho menor, Kevin Valente D. Sierras será confiada a Arturo D. Sierras, irmão de Aidan. Estabelecemos, contudo, como condição essencial para o exercício da tutela, que o referido Arturo esteja legalmente casado, a fim de garantir ao menor um ambiente familiar estável e estruturado. Caso tal condição não seja cumprida no prazo de 30 (trinta) dias, a tutela deverá ser transferida para Carlo e Nora Valente, pais de Evelyn.”
Os Valentes deram um suspiro e se abraçaram. Eu vendo a comemoração adiantada, me levantei da cadeira, espalmando as mãos sobre a mesa.
“Desculpe meus modos, senhor e senhora Valente.” Passei uma mão sobre a boca, pensando em como dizer que não aceitava essa condição imposta pela sua filha e meu irmão insensato.
“Algum problema, filho?” O Sr. Carlo me olhava espantado.
“Como…" Dei uma breve pausa, pensando se faria mesmo isso com eles, mas eu tinha que pensar no que era melhor para Kevin e para o meu irmão. "Como o próprio testamento diz, em caso de incapacidade, o meu irmão passou a tutela de Kevin para mim.” Olhei para Liam, que cruzou os braços tentando imaginar o que eu estaria planejando.







