Ema Thompson

Eu corria pelo Lincoln Park até meus pulmões começarem a arder e minhas pernas ficarem tão moles que pareciam gelatina. Não era falta de preparo. Aquilo fazia parte da minha rotina. Todos os dias, sem exceção. Chovendo, fazendo sol ou com o céu completamente fechado, eu estava ali. Sempre ali.

Com o fone quase no último volume, a voz intensa de Sia preenchia minha cabeça. Ela cantava sobre sobreviver quando tudo parece desmoronar, sobre aprender a respirar mesmo quando o coração pesa, sobre continuar andando mesmo carregando cicatrizes que ninguém vê.

Aquilo não me fazia diminuir o ritmo.

Fazia o contrário.

Eu corria mais forte, como se pudesse fugir de mim mesma. Cada passada era uma tentativa inútil de deixar para trás lembranças que insistiam em me acompanhar. A música falava de força, de se manter de pé, de não esperar que alguém venha salvar. E aquilo doía. Porque eu sempre fui sozinha.

Corri até as lágrimas começarem a embaçar minha visão.

Quando finalmente parei, apoiei as mãos nos joelhos e respirei rápido, forte, sentindo meu coração bater descompassado dentro do peito. As minhas cicatrizes internas latejavam. Era uma dor conhecida, antiga, quase confortável de tão presente. Eu precisava daquilo. Por isso nunca deixava de correr. Era minha válvula de escape. A única coisa que ainda me mantinha funcional.

A música continuava tocando, suave e firme ao mesmo tempo, lembrando que não existe perfeição, apenas sobrevivência. Que mesmo quebrada, eu ainda estava de pé.

Mordi o lábio e levantei o olhar para o céu completamente nublado.

Eu sabia que as pessoas que passavam por mim deviam achar que eu tinha perdido totalmente o juízo. Mas tanto fazia. Elas não me conheciam. Provavelmente eu nunca mais as veria. Isso é Chicago. Tudo passa rápido demais para alguém se importar de verdade.

Quando minha respiração começou a se normalizar, limpei o rosto com as costas da mão e caminhei até um banco de frente para o lago. Sentei-me, abracei as pernas e observei uma família alimentando os patos. Pai, mãe e dois filhos. Uma cena simples, comum, quase banal.

Para mim, parecia um universo paralelo.

Existem pessoas que nascem com sorte. E existem pessoas como eu. Que não têm ninguém. Quer dizer, quase ninguém. Se não fosse minha melhor amiga, Joice, eu já teria afundado de vez. Não apenas na fossa. Eu estaria enterrada embaixo dela, que é exatamente onde sempre me disseram que eu pertencia.

Eu não sou uma pessoa má. Nunca fui. Mas gosto de coisas luxuosas. Sapatos caros, bolsas impecáveis, joias, roupas que chamam atenção. Eu amo esse mundo e não vejo motivo para mentir sobre isso. Eu sei que sou linda. Não existe um homem que não repare quando eu passo, mesmo vestindo jeans e camiseta simples.

E, ainda assim, ninguém conhece meus sonhos.

Nunca contei a ninguém que, no fundo, sonho em ter uma família. Talvez porque família nunca significou segurança para mim. Meus pais nunca foram exatamente pais. Mesmo assim, virei acompanhante de luxo para bancar as despesas médicas dos dois. Não me arrependo. O que dói é sair dessa vida. O que dói é perceber que, quando tudo acaba, sobra apenas o corpo e a solidão.

Eu não quero me casar com um velho caindo aos pedaços apenas pela fortuna dele. Quero alguém que me ame de verdade. Que cuide de mim. Muitos já me ofereceram tudo em troca de um casamento de fachada, mas eu não sirvo para ser esposa troféu. Nunca servi.

Ganho muito bem e, enquanto eu não me apaixonar, tudo segue sob controle. Pelo menos é isso que eu repito para mim mesma.

Levanto-me do banco, guardo os fones no bolso do moletom e sigo em direção ao metrô. Atualmente moro no Village. Uma grande subida na vida para quem veio do Bronx. Cresci aprendendo a me virar sozinha e nunca esqueci isso. Só me mudei depois que meus pais morreram. Por mais que não valessem nada, eu não conseguia abandoná-los.

Na plataforma do metrô, espero o trem chegar e acabo vendo meu reflexo em um painel de vidro. Meu estômago revira.

Gorda.

Foi a primeira palavra que me veio à mente. Uma lembrança antiga atravessou minha cabeça como uma lâmina. A adolescente anoréxica de treze anos. Gemi baixo, passando a mão pelo rosto até a ponta do rabo de cavalo. Amanhã eu correria o dobro. Só para garantir.

Caminhei até a banca de jornal. Tudo igual. Política, negócios, bolsa. Comprei um exemplar apenas pelos quadrinhos e pela seção de esportes. Afinal, que cidadão de Chicago não seria fã dos Bulls?

Entrei no vagão e me sentei perto da janela.

Hoje eu tinha um evento importante com um fazendeiro bilionário do Texas. Pelo menos era isso que eu achava. Eu precisava me preparar. Respirar fundo. Vestir meu sorriso profissional.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, algo dentro de mim parecia inquieto.

Como se aquela corrida tivesse mexido em coisas que eu não estava pronta para encarar.

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