Mundo de ficçãoIniciar sessão“Ivy Collins”
Mal dormi. Passei a noite inteira revirando na cama do apartamento da Tiffany, tentando processar o fato de que: Primeiro, consegui o emprego. Segundo, vou morar com pessoas desconhecidas. Terceiro, vou dividir o teto com o homem cujo gosto ainda persegue minha boca toda vez que fecho os olhos. Vou morar na casa dele. Com ele. — Você está completamente louca, Ivy Collins — murmuro, ajeitando a mochila no ombro. Mas não tenho escolha. Não se quiser resolver meus problemas em tão pouco tempo. E se isso significa fingir que aquela noite nunca aconteceu? Então é isso que vou fazer. Toco a campainha, com o estômago revirando de nervosismo, e o portão abre sozinho. Assustador? Um pouco. Mas é chique também. Caminho pela alameda de árvores que parece cenário de filme até a mansão aparecer. — Oh, meu Deus… — murmuro, admirada. — Isso existe mesmo na vida real? A mansão tem três andares, paredes de vidro, pedras caras e uma fonte de golfinhos de mármore na entrada. Sim. Golfinhos. De mármore. Sigo em choque. Uma mulher de uns cinquenta anos e um coque tão apertado que puxa o rosto inteiro, me espera na porta com uma postura tão reta que parece ter engolido um cabide. — Você deve ser a Srta. Collins — ela diz, me olhando como quem avalia uma peça de leilão. — Sou a governanta, Sra. Mallory. — Prazer em conhecer a senhora — respondo, esboçando um sorriso educado. — Pode me chamar de Ivy. — Srta. Collins — ela repete, sem piscar. — Você é uma funcionária. Vamos manter o protocolo. Ok. Começamos bem. Ela se vira, fazendo um gesto para eu entrar. Atravessamos corredores tão longos que seria perfeitamente possível andar de bicicleta. Passamos por uma sala maior que a casa onde cresci, outra com uma mesa absurda, e subimos as escadas de vidro até finalmente pararmos diante de um quarto no segundo andar. Quarto, claro, é apelido. É praticamente uma suíte de hotel cinco estrelas: cama gigante, janelas enormes com vista para o jardim dos golfinhos… surreal. — Regras de convivência — a Sra. Mallory diz, me entregando um tablet. — Leia, compreenda e assine. Desbloqueio o tablet… e, enquanto leio, meus olhos vão abrindo, abrindo, até quase saltarem. Lucas Sinclair não é um chefe. É um ditador de terno. — Não atender ligações pessoais? Não sair do quarto depois das 22h? — murmuro, incrédula. — Isso aqui é uma casa ou um campo de concentração cinco estrelas? A Sra. Mallory me olha como se eu fosse uma barata que resolveu aprender a falar. Só falta pegar um chinelo. — A maioria das babás achou que era brincadeira. Todas saíram chorando, algumas correndo. Uma até se mudou de país — a governanta diz, completamente séria. — Então, se quer um conselho, não se apegue demais. A nada. No fim, ninguém fica. E ela sai, fechando a porta como se estivesse selando meu destino. Jogo a mala na cama, vou até o closet e encontro seis conjuntos idênticos de uniforme. Todos com a mesma vibe de comissária de bordo dos anos 50. — E lá vamos nós — murmuro, vestindo a saia cinza e a blusa branca. Desço as escadas no exato momento em que ouço Lucas se despedir da governanta, pedindo que ela avise caso a babá número 28 desista e saia chorando. A porta se fecha logo em seguida, fazendo um nó se instalar no meu estômago. Ele nem sequer quis me desejar boas-vindas, nem quis saber se fui bem recebida aqui. — Para de ser idiota, Ivy — sussurro, descendo o resto da escada. — Você está aqui pelo dinheiro. Só isso. Balanço a cabeça, ignoro o incômodo e sigo a voz de Oliver até a sala de brinquedos. Finalmente encontro o menino sentado no chão, tentando lançar um foguete que claramente foi projetado por alguém que não gosta de crianças. Ou de paredes intactas. — Parada aí! — ele grita quando me vê, levantando e pulando na frente da porta. — Garotas não podem entrar aqui! — Ah, é? — digo, fingindo ofensa. — Que pena. Porque eu trouxe algo muito legal para te mostrar. — O quê? Criando um suspense bobo, tiro lentamente as mãos de trás das minhas costas, revelando o boneco do Homem-Aranha. O plano B que desceu comigo para domar a ferinha. — Lembra dele? — pergunto, balançando o boneco. — O ARANHA! — grita, estendendo as mãos. — Você trouxe ele! — Trouxe — confirmo, fingindo entregar o boneco antes de puxá-lo de volta. — Mas só posso deixar você brincar se eu puder entrar na sala. Essas são as regras do Homem-Aranha. Oliver franze a testa, claramente em conflito interno. — Tá bom — resmunga, finalmente. — Você pode entrar. MAS SÓ POR CAUSA DO ARANHA! — Justo — concordo, entrando e me sentando ao lado dele. — A teia ainda funciona? — pergunta, praticamente puxando o boneco da minha mão. Oliver aperta o botão sem esperar minha resposta. A teia voa, gruda no lustre de cristal e ele puxa o boneco tão forte que o negócio balança como se estivesse prestes a cair sobre nossas cabeças. — Oliver! — Foi sem querer querendo! E assim começa o nosso dia caótico. Oliver testa minha paciência de todas as formas possíveis, mas é na hora do banho que quase desisto. Passo quase uma hora negociando com ele, porque “astronautas não tomam banho no espaço”. Ele só entra no chuveiro quando falo, muito profissionalmente, que a NASA não aceita crianças fedidas. Finalmente, às 20h30, chega a hora da historinha. Mas, claro, Oliver não facilita e pede uma história sobre buracos negros. Acabo inventando um buraco negro que engole crianças que não dormem. Milagrosamente, funciona, e ele finalmente apaga como um anjo. — Obrigada, Deus… — sussurro, cobrindo o pequeno. Praticamente deslizo para fora da cama, apago a luz e o teto cheio de estrelinhas fluorescentes brilha como num planetário particular. Saio de fininho e praticamente corro para o meu quarto. Vou direto para o banheiro, tomo um banho rápido e desabo na cama, morta. Mas, claro, dormir de estômago vazio é pedir para sofrer, e às 23h acordo com a barriga roncando alto demais para ser ignorada. — Por que eu não guardei um biscoitinho do Oliver? — murmuro, encarando o teto. — Que fome… Bufo e esfrego as mãos no rosto. As regras dizem para não sair do quarto depois das 22h, mas minha barriga claramente não leu o manual. — Provavelmente, o Lucas já está dormindo — sussurro, me levantando. — Ninguém vai perceber que saí. Ou pelo menos é nisso que escolho acreditar. Desço as escadas na ponta dos pés, sem me preocupar com o fato de estar usando apenas um shortinho de pijama e uma camiseta larga, enquanto tento lembrar onde fica a cozinha nesse labirinto de gente rica. Após abrir três portas erradas, finalmente encontro o cômodo digno de um episódio do MasterChef. Vou direto para a geladeira, pego o leite, fecho a porta e, quando me viro… Bato com tudo em um peitoral duro, definido e quente. O impacto me faz perder o equilíbrio, mas antes que eu caia, duas mãos fortes seguram minha cintura. Levanto o rosto e o ar simplesmente some dos meus pulmões quando encontro o mesmo olhar intenso que recebi na boate. Lucas. Claro. E não é o Lucas de terno impecável. É um Lucas sem camisa. Meu corpo reconhece o toque no mesmo instante, e cada terminação nervosa acende como se tivesse memória própria. — Srta. Collins — ele diz, com a voz rouca e perigosamente calma. — Acabou de quebrar a regra número doze.






