5. Um Ditador de Terno

“Ivy Collins”

Mal dormi.

Passei a noite inteira revirando na cama do apartamento da Tiffany, tentando processar o fato de que:

Primeiro, consegui o emprego.

Segundo, vou morar com pessoas desconhecidas.

Terceiro, vou dividir o teto com o homem cujo gosto ainda persegue minha boca toda vez que fecho os olhos.

Vou morar na casa dele.

Com ele.

— Você está completamente louca, Ivy Collins — murmuro, ajeitando a mochila no ombro.

Mas não tenho escolha. Não se quiser resolver meus problemas em tão pouco tempo.

E se isso significa fingir que aquela noite nunca aconteceu?

Então é isso que vou fazer.

  Toco a campainha, com o estômago revirando de nervosismo, e o portão abre sozinho. Assustador? Um pouco. Mas é chique também.

  Caminho pela alameda de árvores que parece cenário de filme até a mansão aparecer.

  — Oh, meu Deus… — murmuro, admirada. — Isso existe mesmo na vida real?

  A mansão tem três andares, paredes de vidro, pedras caras e uma fonte de golfinhos de mármore na entrada.

  Sim. Golfinhos. De mármore. Sigo em choque.

  Uma mulher de uns cinquenta anos e um coque tão apertado que puxa o rosto inteiro, me espera na porta com uma postura tão reta que parece ter engolido um cabide.

  — Você deve ser a Srta. Collins — ela diz, me olhando como quem avalia uma peça de leilão. — Sou a governanta, Sra. Mallory.

  — Prazer em conhecer a senhora — respondo, esboçando um sorriso educado. — Pode me chamar de Ivy.

  — Srta. Collins — ela repete, sem piscar. — Você é uma funcionária. Vamos manter o protocolo.

  Ok. Começamos bem.

  Ela se vira, fazendo um gesto para eu entrar. Atravessamos corredores tão longos que seria perfeitamente possível andar de bicicleta.

  Passamos por uma sala maior que a casa onde cresci, outra com uma mesa absurda, e subimos as escadas de vidro até finalmente pararmos diante de um quarto no segundo andar.

  Quarto, claro, é apelido. É praticamente uma suíte de hotel cinco estrelas: cama gigante, janelas enormes com vista para o jardim dos golfinhos… surreal.

  — Regras de convivência — a Sra. Mallory diz, me entregando um tablet. — Leia, compreenda e assine.

  Desbloqueio o tablet… e, enquanto leio, meus olhos vão abrindo, abrindo, até quase saltarem.

  Lucas Sinclair não é um chefe. É um ditador de terno.

  — Não atender ligações pessoais? Não sair do quarto depois das 22h? — murmuro, incrédula. — Isso aqui é uma casa ou um campo de concentração cinco estrelas?

  A Sra. Mallory me olha como se eu fosse uma barata que resolveu aprender a falar. Só falta pegar um chinelo.

  — A maioria das babás achou que era brincadeira. Todas saíram chorando, algumas correndo. Uma até se mudou de país — a governanta diz, completamente séria. — Então, se quer um conselho, não se apegue demais. A nada. No fim, ninguém fica.

  E ela sai, fechando a porta como se estivesse selando meu destino.

  Jogo a mala na cama, vou até o closet e encontro seis conjuntos idênticos de uniforme. Todos com a mesma vibe de comissária de bordo dos anos 50.

  — E lá vamos nós — murmuro, vestindo a saia cinza e a blusa branca.

  Assim que termino, saio do quarto. Primeira missão do dia: resgatar meu Homem-Aranha.

  Sim, porque ontem, quando tentei pegar de volta, Oliver fez um escândalo tão grande que Lucas, o próprio CEO do gelo, quase implorou para eu deixar o boneco com a criança até hoje.

  Desço as escadas no exato momento em que ouço Lucas se despedir da governanta, pedindo que ela avise caso a babá número 28 desista e saia chorando.

A porta se fecha logo em seguida, fazendo um nó se instalar no meu estômago. Ele nem sequer quis me desejar boas-vindas, nem quis saber se fui bem recebida aqui.

— Para de ser idiota, Ivy — sussurro, descendo o resto da escada. — Você está aqui pelo dinheiro. Só isso.

  Balanço a cabeça, ignoro o incômodo e sigo a voz de Oliver até a sala de brinquedos.

 Finalmente encontro o menino sentado no chão, tentando lançar um foguete que claramente foi projetado por alguém que não gosta de crianças. Ou de paredes intactas.

— Parada aí! — ele grita quando me vê, levantando e pulando na frente da porta. — Garotas não podem entrar aqui!

— Ah, é? — digo, fingindo ofensa. — Que pena. Porque eu trouxe algo muito legal para te mostrar.

— O quê?

Criando um suspense bobo, tiro lentamente as mãos de trás das minhas costas, revelando o boneco do Homem-Aranha. O plano B que desceu comigo para domar a ferinha.

— Lembra dele? — pergunto, balançando o boneco.

— O ARANHA! — grita, estendendo as mãos. — Você trouxe ele!

— Trouxe — confirmo, fingindo entregar o boneco antes de puxá-lo de volta. — Mas só posso deixar você brincar se eu puder entrar na sala. Essas são as regras do Homem-Aranha.

Oliver franze a testa, claramente em conflito interno.

— Tá bom — resmunga, finalmente. — Você pode entrar. MAS SÓ POR CAUSA DO ARANHA!

— Justo — concordo, entrando e me sentando ao lado dele.

— A teia ainda funciona? — pergunta, praticamente puxando o boneco da minha mão.

  Oliver aperta o botão sem esperar minha resposta.

  A teia voa, gruda no lustre de cristal e ele puxa o boneco tão forte que o negócio balança como se estivesse prestes a cair sobre nossas cabeças.

  — Oliver!

  — Foi sem querer querendo!

  E assim começa o nosso dia caótico.

  Oliver testa minha paciência de todas as formas possíveis, mas é na hora do banho que quase desisto.

  Passo quase uma hora negociando com ele, porque “astronautas não tomam banho no espaço”.

  Ele só entra no chuveiro quando falo, muito profissionalmente, que a NASA não aceita crianças fedidas.

  Finalmente, às 20h30, chega a hora da historinha. Mas, claro, Oliver não facilita e pede uma história sobre buracos negros.

  Acabo inventando um buraco negro que engole crianças que não dormem. Milagrosamente, funciona, e ele finalmente apaga como um anjo. 

  — Obrigada, Deus… — sussurro, cobrindo o pequeno.

  Praticamente deslizo para fora da cama, apago a luz e o teto cheio de estrelinhas fluorescentes brilha como num planetário particular.

  Saio de fininho e praticamente corro para o meu quarto. Vou direto para o banheiro, tomo um banho rápido e desabo na cama, morta.

 Mas, claro, dormir de estômago vazio é pedir para sofrer, e às 23h acordo com a barriga roncando alto demais para ser ignorada.

— Por que eu não guardei um biscoitinho do Oliver? — murmuro, encarando o teto. — Que fome…

Bufo e esfrego as mãos no rosto.

As regras dizem para não sair do quarto depois das 22h, mas minha barriga claramente não leu o manual.

— Provavelmente, o Lucas já está dormindo — sussurro, me levantando. — Ninguém vai perceber que saí.

Ou pelo menos é nisso que escolho acreditar.

Desço as escadas na ponta dos pés, sem me preocupar com o fato de estar usando apenas um shortinho de pijama e uma camiseta larga, enquanto tento lembrar onde fica a cozinha nesse labirinto de gente rica.

Após abrir três portas erradas, finalmente encontro o cômodo digno de um episódio do MasterChef.

Vou direto para a geladeira, pego o leite, fecho a porta e, quando me viro…

Bato com tudo em um peitoral duro, definido e quente.

O impacto me faz perder o equilíbrio, mas antes que eu caia, duas mãos fortes seguram minha cintura.

Levanto o rosto e o ar simplesmente some dos meus pulmões quando encontro o mesmo olhar intenso que recebi na boate.

Lucas. Claro.

E não é o Lucas de terno impecável. É um Lucas sem camisa.

Meu corpo reconhece o toque no mesmo instante, e cada terminação nervosa acende como se tivesse memória própria.

— Srta. Collins — ele diz, com a voz rouca e perigosamente calma. — Acabou de quebrar a regra número doze.

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