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Rotina e Regras Não Ditas

Victor

A rotina revela mais do que qualquer conversa. É nela que as pessoas falham, relaxam, mostram quem realmente são. Por isso, observei Emily com atenção redobrada naquele segundo dia completo.

Ela acordou cedo. Pontual novamente. Não precisei chamar sua atenção uma única vez. Gostei disso.

Da varanda do andar superior, acompanhei seus primeiros movimentos: a forma cuidadosa como acordou Mel, a paciência ao ajudá-la a se vestir, o tom de voz sempre baixo. Nada exagerado. Nada artificial. Emily não tentava conquistar minha filha — ela simplesmente estava ali.

Durante o café da manhã, mantive distância. Não por falta de interesse, mas por estratégia. O controle não se impõe com proximidade excessiva; ele se estabelece com presença calculada.

— Mel, termine o suco — disse, firme.

Emily não interferiu. Apenas aguardou. Inteligente. Ela observava antes de agir, como se tentasse entender até onde podia ir. Esse tipo de cautela me atraía mais do que deveria.

Notei como ela reagia à casa: evitava certos corredores, andava sempre atenta aos horários, seguia as instruções de Clara sem questionar. Estava aprendendo as regras não ditas — e isso a tornava parte do sistema mais rápido do que imaginava.

Em alguns momentos, nossos olhares se cruzavam. Nada prolongado. Nada explícito. Mas o suficiente para que eu percebesse: ela sentia minha presença mesmo quando eu não falava.

No fim da tarde, quando Mel cochilava, encontrei Emily organizando a sala de brinquedos.

— Não pedi isso — observei.

Ela ergueu os olhos, calma.

— Eu sei. Mas achei melhor manter tudo em ordem.

Não havia desafio em sua voz. Apenas iniciativa. Anotei mentalmente. Pessoas assim costumam se apegar… e se perder.

— Continue — respondi, antes de sair.

Enquanto me afastava, tive certeza de uma coisa: Emily ainda acreditava que estava no controle das próprias emoções.

Ela ainda não entendia como aquela casa muda as pessoas.

Emily

A casa tinha uma rotina própria — rígida, silenciosa, quase sufocante. E, ainda assim, eu começava a me adaptar.

Meu foco era Mel. Sempre Mel. A forma como ela sorria quando eu lia histórias, como segurava minha mão ao andar pelos corredores longos, como falava baixo quando o pai estava por perto. Aquela menina vivia entre regras demais para alguém tão pequena.

Victor… era outra questão.

Ele não precisava estar perto para ser sentido. Às vezes, eu sabia que ele me observava antes mesmo de vê-lo. Outras vezes, sua ausência parecia ainda mais pesada. Eu não entendia como alguém podia dominar um ambiente sem dizer quase nada.

Durante o dia, percebi que ele testava limites de maneira silenciosa. Pequenas observações. Ordens simples. Nenhuma grosseria. Nenhuma aproximação indevida. Ainda assim, tudo nele parecia carregado de intenção.

Quando ele disse “continue”, ao me ver organizando a sala, senti algo estranho. Não era elogio. Nem reprovação. Era malicia em sua voz — e isso me atingiu mais do que eu gostaria de admitir.

Aquilo me incomodava.

Eu não queria precisar da validação dele. Não queria me sentir observada daquela forma. Mas cada vez que nossos olhares se encontravam, meu corpo reagia antes da razão.

Nada aconteceu.

E talvez isso fosse o mais perturbador.

Ao colocar Mel para dormir naquela noite, ela me abraçou forte.

— Você fica amanhã também, né?

— Fico sim — respondi, sem hesitar.

Ao sair do quarto, encontrei Victor no corredor. Parado. Silencioso. O olhar fixo em mim por um segundo a mais do que o necessário.

— Está se adaptando — disse ele, sem emoção aparente.

— Estou tentando — respondi.

Ele assentiu, apenas isso. Mas quando passou por mim, senti o ar mudar. Meu coração acelerou sem motivo lógico.

Fui para meu quarto naquela noite com uma certeza incômoda:

eu ainda estava no controle das minhas escolhas…

mas aquela casa começava a me moldar.

E isso me assustava mais do que qualquer outra coisa, mais tarde fui à biblioteca distrair minha mente.

Victor

Ela estava deitada no sofá da biblioteca, o corpo relaxado demais para aquela casa. A luz baixa desenhava sombras suaves sobre sua pele, e a respiração lenta denunciava um cansaço profundo — físico e emocional.

Parei à porta.

Por um instante, apenas observei. O jeito como o vestido acompanhava suas curvas, o pescoço exposto, a boca levemente entreaberta. Emily parecia vulnerável de uma forma que não combinava com a rigidez da Mansão Rocha.

Aproximei-me em silêncio.

Inclinei-me ao lado dela, sentindo o calor do corpo dela antes mesmo de tocar. Meu dedo percorreu lentamente o dorso da mão dela, de leve, quase preguiçoso, como se estivesse apenas testando a textura da pele. Macia. Quente. Responsiva.

Ela se mexeu.

Não acordou de imediato. Apenas suspirou baixo, e isso foi o suficiente para fazer meu estômago se contrair. Deslizei os dedos um pouco mais, seguindo a linha delicada do pulso, sentindo o coração dela bater acelerado sob minha pele.

Emily estremeceu.

Seus dedos se fecharam lentamente, não para me afastar — mas como se reconhecessem o toque antes da consciência permitir. Foi nesse momento que ela abriu os olhos.

Nos encaramos.

Ela ainda estava entre o sono e a vigília, o olhar turvo, o corpo imóvel. Eu não me afastei de imediato. Mantive o toque. Intencional. Silencioso. Carregado.

— Está tudo bem? — perguntei, a voz baixa demais para ser casual.

Ela engoliu em seco.

— Eu… pensei que estivesse sonhando.

Afastei minha mão devagar, deixando o rastro do toque desaparecer aos poucos, como uma lembrança que insiste em ficar.

— Não estava — respondi, sem me explicar.

Emily se sentou lentamente, o peito subindo e descendo com mais força agora. Os olhos dela evitavam os meus, mas o corpo ainda reagia — tenso, alerta, desperto.

Afastei-me um passo.

— Não deveria dormir aqui — acrescentei. — A casa não perdoa distrações.

Ela assentiu, ainda sem conseguir falar direito.

Quando saí da sala, senti algo raro:

não arrependimento — mas expectativa.

Porque aquele toque não foi um erro.

Foi um aviso.

O toque dele não foi apenas na pele.

Foi dentro.

Emily

Assim que fiquei sozinha, senti meu corpo responder de um jeito que me deixou em pânico. O pulso onde os dedos dele haviam passado ardia, como se ainda estivesse sendo tocada. Minha respiração estava irregular, curta demais, e um calor intenso se espalhava lentamente, descendo, se instalando onde eu não queria admitir.

Eu fechei os olhos.

E foi pior.

A lembrança voltou com força: a proximidade, o silêncio pesado, a mão firme e lenta. Não havia pressa no gesto dele — e isso tornava tudo mais perturbador. Victor não tocou como alguém que perde o controle. Ele tocou como alguém que sabia exatamente o efeito que causaria.

Meu corpo respondeu antes da minha consciência permitir.

Senti um aperto no ventre, uma pulsação traiçoeira, uma necessidade confusa que me fez pressionar as coxas uma contra a outra, como se isso fosse suficiente para conter o que crescia dentro de mim. Não era só excitação. Era submissão involuntária. Era o reconhecimento instintivo de poder.

Eu odiava isso.

E desejava ao mesmo tempo.

A forma como ele me olhou quando acordei… não havia pedido desculpas reais ali. Havia posse silenciosa. Aviso. Promessa não dita. Ele me fez sentir vista — profundamente vista — de um jeito que nenhum homem jamais tinha feito.

Meu corpo estava quente. Sensível demais. Cada respiração parecia denunciar o que eu tentava negar.

Victor Rocha me despertava algo escuro.

Algo que não pedia permissão.

Algo que me fazia querer ceder — mesmo sabendo que não deveria.

Deitei-me na cama naquela noite com o corpo em alerta, a mente em conflito e uma verdade impossível de ignorar:

o toque dele tinha sido breve…

mas o efeito era duradouro.

E o mais perigoso de tudo?

Parte de mim esperava que ele tocasse de novo.

A constatação me fez prender a respiração, como se admitir aquilo fosse tão perigoso quanto senti-lo. Virei-me na cama, os lençóis roçando minha pele sensível demais, cada mínimo contato provocando arrepios que eu não conseguia controlar. Meu corpo estava acordado, atento, faminto por algo que eu não ousava nomear em voz alta.

Fechei os olhos.

E ele estava lá.

A presença dele não precisava do toque para existir. Bastava a lembrança do peso do olhar, da proximidade silenciosa, da forma como ele ocupava o espaço ao meu redor. Victor não invadia. Ele envolvia. E isso era ainda mais perturbador.

Minha respiração saiu irregular quando imaginei a mão dele demorando um pouco mais. O polegar pressionando com intenção. O corpo dele próximo o suficiente para me fazer esquecer onde terminava o perigo e começava o desejo. Meu ventre se contraiu novamente, um reflexo automático, traiçoeiro.

Era errado.

Eu sabia que era.

Mas o erro tinha gosto de verdade.

Passei a mão lentamente pelo próprio braço, tentando substituir a memória do toque dele pelo meu, mas não funcionou. Não era sobre a pele. Era sobre o que ele despertava em mim — essa sensação incômoda de ser vista, medida, desejada de forma silenciosa e dominante.

Victor Rocha não me queria de forma descontrolada.

Ele me queria consciente.

E isso me deixava fraca.

Um suspiro escapou dos meus lábios quando percebi o quanto meu corpo reagia à simples ideia de estar sob o olhar dele outra vez. A excitação não vinha em ondas violentas, mas em um calor constante, profundo, que se espalhava devagar, exigindo atenção.

Exigindo rendição.

Virei o rosto contra o travesseiro, tentando afastar os pensamentos. Amanhã eu o veria novamente. Amanhã ele pisaria na mesma casa, falaria comigo como se nada tivesse acontecido — e isso, eu sabia, seria ainda mais cruel.

Porque agora eu entendera.

O jogo não estava no que ele fazia.

Estava no que ele me fazia sentir.

E, apesar do medo, apesar do bom senso, apesar de tudo o que eu deveria evitar…

meu corpo já havia escolhido um lado.

E ele aguardava.

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