Mundo de ficçãoIniciar sessãoMinha casa sempre despertava em silêncio. Eu gosto disso. O silêncio obedecia. Controlava. Naquela manhã, porém, havia algo diferente no ar. Emily Carter retornaria para seu primeiro dia oficial, e eu já sentia o impacto disso antes mesmo de vê-la cruzar o portão.
Observei pelas câmeras quando o carro dela se aproximou. Pontual. Nada de excessos. Nada de hesitação exagerada. Um detalhe simples, mas importante. Pessoas revelam muito na forma como chegam a um lugar que não dominam. Pedi a Clara que a recebesse. Queria vê-la primeiro à distância, entender como reagiria ao ambiente, às pessoas, à estrutura da casa. A Mansão Rocha não acolhe — ela testa. Quando Emily entrou, percebi imediatamente a tensão em seus ombros. Não medo. Consciência. Ela olhava tudo com atenção, como quem entende que está sendo observada, mesmo sem saber de onde. Gostei disso. Os empregados a analisavam em silêncio. Todos ali sabiam como aquela casa funcionava. Regras claras. Pouca conversa. Muito respeito. E, acima de tudo, obediência. Desci as escadas no momento exato em que ela terminava de ouvir as instruções de Clara. Seus olhos encontraram os meus e vi ali algo que me interessou: firmeza misturada à vulnerabilidade. Uma combinação rara… e perigosa. — Bom dia, Emily — cumprimentei, medindo cada reação. Ela respondeu corretamente. Respeitosa. Controlada. Mas o corpo não mente. O leve enrijecer, o cuidado com as palavras, o esforço para parecer calma. Eu sentia o efeito que causava nela — e isso despertava algo profundo em mim. Então Mel apareceu. Minha filha correu até ela como se a conhecesse há anos. Emily se abaixou imediatamente, ficou à altura da menina, sorriu de um jeito que não era ensaiado. Aquilo não passou despercebido. Pessoas fingem cuidado. Emily não fingia. Observei em silêncio enquanto as duas interagiam. Emily tocava Mel com delicadeza, falava baixo, explicava tudo com paciência. Aquilo confirmava o que eu suspeitava: ela era exatamente o tipo de mulher que se prende… sem perceber... Emily Chegar à Mansão Rocha naquela manhã foi diferente da primeira vez. Não era mais uma entrevista. Era um compromisso. Mesmo assim, meu corpo reagia como se eu estivesse entrando em território proibido. A governanta, Clara, me recebeu com formalidade. Explicou a rotina, os espaços permitidos, os horários. Tudo era organizado demais. Controlado demais. Os outros empregados me observaram com curiosidade contida, como se tentassem entender quem eu era… e quanto tempo ficaria. Quando Victor apareceu, senti imediatamente a mudança no ambiente. Ele não precisava falar alto. Nem se aproximar demais. Sua presença bastava. O olhar firme, calculado, parecia atravessar qualquer tentativa minha de parecer tranquila. Eu me sentia avaliada — não apenas como profissional, mas como mulher. E isso me desconcertava. Mel surgiu logo depois, e foi como respirar novamente. A alegria dela me ancorava. Ao segurá-la pela mão, lembrei do motivo real de estar ali. Ela precisava de mim. E eu… precisava acreditar que isso bastava. Mas não bastava. Durante o dia, senti os olhos dele sobre mim várias vezes. Não constantes — o que seria mais fácil — mas precisos. Como se ele escolhesse o momento certo para me observar. Isso me deixava alerta. E estranhamente consciente do meu próprio corpo, das minhas reações, da minha respiração. Victor não tocava. Não se aproximava demais. Mas sua presença era intensa. Cada instrução dele carregava algo além das palavras. Controle. Autoridade. E algo mais difícil de admitir: atração. Isso me assustava. Eu sabia que ele era perigoso. Sabia que aquela casa tinha regras que iam além do que estava escrito no contrato. Mesmo assim, quando ele me desejava boa noite, com a voz baixa e firme, senti um arrepio que não consegui esconder, me senti excitada. Ao entrar no meu quarto sentir que meu coração estava pesado. Pela responsabilidade com Mel. Pelo impacto de Victor sobre mim. Pela sensação incômoda — e inegável — de que eu havia cruzado um limite invisível. E, no fundo, eu sabia: aquele havia sido apenas o primeiro dia.






