Capítulo 6 - Bela

Tá tudo bem, respira, Bela.

Tudo, nesta situação, faz parecer que eu tô entrando no covil de um psicopata.

Um cara podre de rico, poderoso, frio, meticuloso, lindo, que do nada decide que eu devo ser a babá do filho dele. Sendo que nunca me viu na vida! Super normal, nada de estranho mesmo. Não preciso me preocupar.

O fato de, quando mencionei isso, ele ter respondido que quem deveria se preocupar era eu, também não era motivo nenhum de alarme.

Não queria dizer que ele ou o filho eram psicopatas, muito menos que eu era a isca para um deles se divertir com instintos assassinos e depois me descartar numa vala qualquer.

Eu poderia citar uns dez filmes de terror em que a protagonista se meteu em situações bem menos perigosas e, ainda assim, acabou morta.

Meus pensamentos foram interrompidos quando o carro dele parou e… uau. Uau. Que casa enorme. Uma mansão daquelas que a gente só vê na televisão.

De repente, toda a concentração que eu vinha fazendo pra acreditar que não era tão esquisito assim o que estava acontecendo foi por água abaixo. Definitivamente eu iria ser morta naquela casa. Ou coisa pior.

Eu, de todas as pessoas, não deveria estar ali.

— Você vem? — meu recém-chefe me perguntava, com a porta do meu lado aberta, já quase revirando os olhos, claramente sem paciência. Na dúvida, achei melhor não irritar o meu possível futuro torturador e me apressei em sair do veículo.

Segui seus passos até uma porta gigantesca se abrir quando ele digitou uma senha e colocou a digital para autorizar o desbloqueio.

Droga.

Alerta vermelho.

Como eu sairia dali se ele resolvesse me trancar?

E se já tivesse tudo planejado desde sempre?

Pegar a primeira desesperada por dinheiro, fazer uma proposta absurda e, quem fosse maluca o suficiente para aceitar, seria a vítima da vez?

Minha mente fervia em mil cenários, todos com o mesmo final: Eu. Morta. E posso dizer que o vislumbre que minha mente me ofereceu deixou claro; se viva eu não sou bonita, morta ia ser bem pior.

Nem percebi quando já estávamos na sala. Bom, era apenas um menino. Comecei a respirar um pouco mais aliviada.

Embora o meu chefe, esse homem hostil que parecia não ter medo de nada nem de ninguém, claramente não sabia lidar muito bem com a criança. O próprio filho de dez anos.

Era um menino rude, sem dúvida. Mas tirando a aparência de sujo e a cara de ódio, não parecia capaz de me torturar num sótão escuro.

Ufa.

Assim que entrei, me examinou de cima a baixo com desprezo. Nada que eu já não tivesse vivido antes. Então, sinto informar, mas foi fraco. Nível iniciante de julgamento e bullying.

Estou acostumada a humilhações, objetos fedorentos voando na minha direção ou até sinal da cruz. Ser feia não era tarefa fácil, e não ia ser um garotinho que me faria sair correndo e chorando.

Me ofereci para cuidar de tudo quando percebi que Vinícius já estava perdendo a paciência com o garoto e, agora, aqui estávamos, só eu e Thales, numa sala de estar imensa.

O videogame ligado, ele jogado no sofá, cheirando azedo por não tomar banho.

Não sou especialista, mas aquele fedor de gambazinho dava fortes indícios de pelo menos três dias sem encostar num sabonete.

— Por que você é assim? — o menino perguntou, mexendo no controle do videogame sem nenhum compromisso, enquanto os personagens gritavam e soltavam magias na tela.

Demorei alguns segundos antes de responder.

— Assim como? — retruquei, já esperando a resposta maldosa que viria.

— Tão feia... você não tem vergonha?

Ah, então era isso mesmo.

— Thales, eu sei que você não quer que eu seja sua babá. Pelo jeito, não quer que ninguém seja. Mas se quer que eu saia correndo e chorando como as outras, vai ter que se esforçar um pouquinho mais.

Ele me olhou espantado, largando o controle pela primeira vez, o que matou seu personagem.

Continuei:

— Eu nunca fui babá. Quando fui até a empresa do seu pai hoje, achei que estava disputando uma vaga no meu ramo. Mas aqui estou eu, por ironia do destino, e preciso do dinheiro. Então é o seguinte: eu não vou embora. Seus insultos, apesar de todo esforço, não vão me atingir. Sinto te informar, você se acha bem malvado e, pra sua idade, estou realmente impressionada, mas o mundo lá fora é mil vezes pior. Quase ninguém se importa com os seus problemas e se o seu dia foi uma porcaria ou se sua vida tá de ponta cabeças. Mas eu me importo. Quero me importar com você. Que tal a gente tentar fazer desse tempo juntos algo mais agradável?

Thales ficou de boca aberta. Imagino que eu tenha sido a primeira a não me abalar com as tentativas de maldade dele. Talvez porque eu entenda que pode ser fachada.

Já conheci gente realmente cruel. E, sendo assim, era impossível acreditar que um garoto de dez anos pudesse ser páreo para as situações humilhantes que já vivi. Essa firmeza em enfrentá-lo o desarmou, pelo menos nesse primeiro momento.

Dava pra ver as engrenagens da cabecinha dele girando, procurando a fala mais maldosa em seu arsenal limitado de uma década de vida.

— Não importa. Você vai embora. Mais cedo ou mais tarde.

— Vou? — confrontei meu arquinimigo unilateral.

— Vai.

— Acho que não.

— Acho que vai.

— Não vou, não.

Ele insistiu por algumas vezes, depois bufou, cruzando os braços e fechando a cara.

— Boa tarde — uma voz masculina nos interrompeu.

Olhei para trás e vi um homem com idade próxima à do meu chefe, uns trinta e poucos anos, de terno e gravata, cabelos loiros e olhos claros.

Bonito. Não tanto quanto o doutor Vinícius, mas bonito. Pelo sorriso sarcástico que me lançou, soube que ele devia estar achando graça de uma feia como eu destoando da decoração da sala.

— Boa tarde, tudo bem com o senhor? — respondi, tentando ser educada.

Ele apenas assentiu, balançando a cabeça, e seguiu em direção ao que só podia ser o escritório do meu chefe.

— Por que você não me mostra a casa?

— Pra quê? Você não vai ficar muito tempo — respondeu Thales, dando de ombros.

— Tudo bem, acho que vou pedir pra Inês me mostrar, então. Pena você não me acompanhar, porque, quando eu descobrir onde fica a cozinha, vou fazer um bolo de brigadeiro que até quem me acha feia começa a enxergat minha beleza interior.

Apostei alto na tática do bolo, e, como imaginei, Thales não resistiu. O som dos passos dele atrás de mim foi a prova de que eu tinha razão.

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