Capítulo 7 - Bela

Nunca tinha visto uma mansão de perto e meu Deus, essa daqui parecia não ter fim. Minha oferta de paz (um bolo de brigadeiro) foi o suficiente para que Thales fosse meu guia, ainda que a contragosto. Percebi que o menino começou a baixar um pouquinho a guarda comigo. Já não fingia que eu não existia, nem bufava a cada frase que eu dizia.

Iria considerar como uma vitória.

Passamos pela sala de jogos, pela biblioteca e por mais banheiros do que uma família comum possivelmente poderia precisar. 

Eu tentava puxar assunto, fazer perguntas sobre a casa, sobre a escola, sobre qualquer coisa. Thales respondia com “sim” ou “não” ou simplesmente dava de ombros. 

Até chegarmos no jardim. Thales correu, empolgado, até chegar mais próximo das flores.

Fiquei impressionada de verdade.

Aquele lugar parecia o paraíso.

Sempre gostei de flores. Ler sobre elas virou meu hiperfoco na infância, depois que papai comentou, bem casualmente, que mamãe amava flores. Lembro de ter perguntado quais ela mais gostava, e ele não soube responder. Então, decidi que, se soubesse muito sobre muitas (possivelmente quase todas), acabaria descobrindo quais eram as suas favoritas; eu conheceria uma parte dela.

Hoje, com 27 anos, parece uma grande besteira. Mas, aos nove, fazia todo o sentido do mundo.

O jardim parecia ter sido feito naqueles jogos de celular. Tudo milimetricamente organizado, nada fora do lugar. Não que não fosse lindo, era perfeito! Mas tudo estava tão alinhado, que não parecia natural.

Talvez fosse uma tendência entre os ricos… contratar jardineiro e nunca sujar as próprias mãos.

— Você mora aqui faz muito tempo? — perguntei, tentando puxar assunto de novo.

— Não. — Thales chutou uma pedrinha no caminho. — Só vim morar aqui depois que minha mãe morreu.

— E antes você morava onde?

— Com minha mãe e minha vó.

Ele não olhou pra mim quando disse isso. Continuou andando, as mãos enfiadas nos bolsos.

— Você visitava seu pai nos fins de semana?

Thales deu de ombros.

— Às vezes. Não muito.

Foi quando senti o calor das mãozinhas de Thales me puxando pra um canteiro mais afastado. Algumas daquelas flores eu ainda não tinha visto.

— Eu gosto dessas daqui.

Quando olhei, sorri de imediato. Eram flores-de-maio. Na minha cabeça, as favoritas da mamãe. Pela simples razão de serem as minhas.

— Flor-de-maio — respondi, passando os dedos pelas pétalas finas e notando como a luz do sol atravessava a cor rosa através da textura delicada e tocava levemente minha pele. O toque aveludado sempre me acalmou.

— Eu não sabia que elas tinham um nome.

— Todas as flores têm nome — respondi, ainda distraída com a beleza delas. — Se quiser, posso te contar mais sobre elas.

Thales não respondeu, mas o olhar dele me disse tudo. Olhinhos apertados de sorriso. O primeiro que vi dele. O primeiro verdadeiro que recebi no dia.

— Minha mãe tinha essas flores — ele disse, depois de alguns segundos. A voz saiu mais baixa. — Na varanda da casa dela. Ela sempre regava de manhã antes de me levar pra escola.

Meu peito apertou.

— Seu pai sabe que você gosta dessas flores?

Thales soltou uma risada sem graça.

— Meu pai não sabe nada sobre mim.

A naturalidade com que ele falou aquela frase me surpreendeu. Era como se estivesse apenas constatando um fato. 

— Ele nunca perguntou o que você gosta?

— Ele nunca tá em casa. — Thales deu de ombros de novo, como se não fosse grande coisa. — Quando tá, fica no escritório. Ou no celular.

Concordei com a cabeça. 

Então ele era aquele típico CEO babaca. Nada novo sob o sol mesmo

Mudei de assunto.

— Essas flores aqui são chamadas de flor-de-maio porque florescem em maio — expliquei, tentando não deixar a tristeza transparecer. — Mas tem gente que chama de schlumbergera. É difícil de pronunciar, então todo mundo prefere flor-de-maio mesmo.

Thales se abaixou, observando as pétalas de perto.

— Se eu quisesse procurar uma flor específica... tipo, se eu soubesse o nome mas não soubesse onde ela tá... você conseguiria me ajudar?

— Claro. Por quê? Tá procurando alguma?

Thales hesitou. 

— Só curiosidade.

Eu sabia que era mais do que curiosidade, mas não iria pressionar o menino. Já tive sorte suficiente de não ser torturada pelo Terrível Thales, o Grande Exterminador de Babás.

Achei graça ao me lembrar da fama de malvado dele.

Até agora ele não parecia nada ruim. Só precisava ser ouvido.

— Bom, se quiser procurar flores pelo condomínio, me avisa — falei, passando a mão nos cabelos dele num gesto que saiu mais natural do que eu esperava. — A gente pode fazer tipo uma caçada. Eu te ensino os nomes.

Os olhos dele brilharam.

— Sério?

— Sério.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App