Capítulo 5 - Vinícius

Me joguei na cadeira, desejando que ela me sugasse pra qualquer realidade que não fosse a minha.

Fechei os olhos e massageei as têmporas.

Como diabos eu tinha chegado até ali? Achava que estava com tudo sob controle. Foi quando ouvi a porta do escritório se abrir.

— Cara, que susto do caralho! — era Márcio, meu amigo de infância e um dos acionistas da Lótus. — Você precisa colocar um alerta de gatilho na porta da sua casa.

Virei a cadeira para encará-lo, sem entender:

— Do que você tá falando?

Márcio estava com a mão no peito, ofegante, os olhos arregalados de uma forma exagerada.

— O que é aquilo na sua sala?

— Aquilo? Olha, Márcio, meu dia não tá bom. É melhor parar de falar merda e ir direto ao ponto.

Meu amigo notou o sangue na minha mão, e eu rapidamente tentei escondê-la debaixo da mesa.

— Porra, eu sei que ela é feia, mas não precisava se autoflagelar.

Ah. Ele estava falando da Isabela.

— O nome dela é Isabela, e ela é a babá nova do Thales.

— Ela é babá nova?! — Márcio riu, balançando a cabeça. — Meu Deus do céu, de onde você tirou aquela criatura? É tipo a Betty, a Feia... só que mais feia.

— Cala a boca... foi a única que apareceu. Esqueceu que o Thales bota todas pra correr?

— Cara... — Márcio fez uma pausa dramática. — Eu sei que você tava desesperado, mas existem limites. Não tem nada simétrico naquela figura.

Até os óculos são tortos! E quando tentou me cumprimentar, soltou uma risada que parecia um ganso engasgado. Tipo, literalmente um ganso.

— Ela riu? — perguntei, estranhando. — Comigo não fez isso.

— Sorte a sua. Foi o som mais perturbador que eu já ouvi.

Eu ri. Ele continuou:

— A mulher redefiniu o conceito de feiura pra mim. E aquela roupa? Parece que se vestiu no escuro, em um brechó pra idosas.

— Tá. Ela é feia. E daí? Não preciso que seja bonita, só que faça o trabalho dela.

— Como você conseguiu olhar pra ela e pensar "essa é a pessoa ideal pra cuidar do meu filho"? Eu sei que o moleque tá te dando trabalho, mas não acha que pegou pesado?

Revirei os olhos.

— Já são onze babás que desistiram... não é como se eu tivesse muitas opções.

— E você achou que contratar a versão brasileira da Betty, a Feia, ia resolver o problema? Vai deixar o Thales ainda mais traumatizado, irmão.

— Márcio, pelo amor de Deus... — tentei parecer ofendido, mas ainda tava rindo. — Você é um babaca.

— Sou, mas um babaca que se preocupa com você — Márcio se inclinou para mais perto de mim, fingindo seriedade. — Das onze babás, você foi pra cama com quantas? Doze?

— Nenhuma, Márcio. Eu não sou degenerado igual a você.

Meu amigo não parecia convencido.

— Tem certeza? Porque todas elas mais pareciam modelos do que babás, e nós dois sabemos o que você faz com modelos...

Levantei da cadeira e fui até a janela, mais pra evitar o olhar dele do que qualquer outra coisa.

Sim, eu era mulherengo, mas nunca transaria com uma das babás.

Até eu tinha meus limites.

— Eu não transo com babás. É a minha regra número um.

— Desde quando você tem regra número um?

— Desde que comecei a cuidar do Thales. E o que isso tem a ver com a conversa, afinal?

Márcio se aproximou da janela e colocou a mão no meu ombro.

— Acho que tá bem claro, não tá? Feinha do jeito que é, provavelmente é virgem e inocente. Não vai demorar muito pra se apaixonar por você.

— Quê?! Do que você tá falando?

— Tá vendo? Por isso você precisa de mim! Sem mim, você não é nada. Só um herdeiro milionário vulnerável ao ataque de feias sedentas e apaixonadas. Cara, ela vai querer transar com você. Quando você menos esperar, ela vai pular no seu pescoço e vrau! Aí já era, irmão!

Olhei pela janela e a cena me fez ignorar todo o caminhão de merda sem sentido que o Márcio tinha acabado de despejar em mim.

Thales e Isabela estavam no jardim. Meu filho prestava atenção no que ela dizia e, pela primeira vez em semanas, parecia realmente interessado em alguma coisa.

— O Thales tá quieto... comportado. E ela ainda não começou a chorar...

— Talvez seja por medo... o moleque nunca deve ter visto alguém tão feio de perto.

— Você é um filho da puta.

— Vamos parar de ofensa e me conta logo como foi a reunião hoje cedo.

— Reunião que você não compareceu, por sinal — falei, voltando a me sentar.

— Eu tive um imprevisto — ele respondeu com um sorriso tão sacana que deu pra saber na hora o tipo de imprevisto. Alguma mulher que o manteve na cama até mais tarde.

Respirei fundo e tentei organizar minha mente antes de dar uma versão resumida da reunião.

— Não sei, cara. Não tenho a menor ideia de como me conectar com o público alvo que eu mesmo propus… É como se eu falasse uma língua completamente diferente da delas. Beleza Verdadeira… Mulheres reais.

— Bom, pelo menos agora você tem um exemplo de mulher surreal — Márcio apontou pra janela.

— Você não existe — dessa vez eu ri de verdade.

— Imagina só se você usasse essa monstrenga como modelo da Lótus. Uma mulher como ela espantaria todo o seu público em cinco minutos. A empresa que seu pai levou trinta anos pra construir teria que fechar as portas.

Assenti enquanto desmanchava o nó da gravata que ainda apertava minha garganta. Márcio estava certo. Uma mulher como ela definitivamente não era o público-alvo da Lótus nem de nenhuma outra marca do mercado.

Ela era o completo oposto de todos os valores que a minha família tinha construído para a empresa até então.

Mas então, por que essa ideia não me causava tanto repúdio?

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