Mundo de ficçãoIniciar sessãoA dor ainda pulsava em meu tornozelo quando ouvi o homem questionar, descrente.
— O que é isso, Lisa?
Descobri ali o nome dela, mas o homem, eu já sabia exatamente quem era. Daniel Savoia, a voz que pairava por trás do império da família mais rica do país. Ainda mais bonito do que na foto que eu havia visto na noite anterior.
Me virei um pouco, apoiando as mãos no chão, e meus olhos se fecharam no rosto atraente daquele homem que falava com a mulher ao seu lado como se não houvesse um ser humano caído diante deles. Os cabelos prateados se misturavam aos fios negros em uma dança que parecia perigosa demais, o tipo de beleza que não deveria existir. Imaginei os braços fortes embaixo do terno escuro que agora ele usava. Pensei, mas não podia, aquele seria o meu patrão.
Então fiquei em pé tentando não demonstrar a dor e me apresentei.
— Meu nome é Serena Bittencourt, eu vim para a... para a entrevista com o senhor Savoia.
Os olhos azuis encontraram os meus e desceram pelo meu corpo com uma lentidão estranha, me senti pateticamente nua. Será que ele já havia me descartado? Não sei quanto tempo aquilo durou, mas a resposta dissolveu minhas esperanças. Ele encarou a mulher ao seu lado e decretou frio:
— Ela não serve, procure outra!
Saiu em seguida e eu fiquei ali com a esperança escorrendo entre os dedos enquanto a mulher o seguia tentando argumentar.
— O currículo dela é ótimo, senhor, ao menos tente...
O barulho dos saltos da mulher foi a última coisa que ouvi antes das lágrimas escorrerem pelo meu rosto anunciando que eu havia estragado tudo. Mais uma vez o mundo me esmagou e a dor em meu corpo provava que eu não era suficiente para nada. Nem mesmo para ser a babá em uma casa como aquela.
Eu já estava saindo quando a voz feminina me chamou.
— Serena!
Olhei para trás sem conseguir disfarçar minha surpresa. O soluço cortou minha busca por dignidade, mas então veio a surpresa.
— O senhor Savoia vai recebê-la. Venha comigo.
A segui tentando não mancar, mas a cada passo que eu dava parecia que o barulho ficava mais estranho. Tentei caminhar com a ponta dos pés e ainda assim o ruído continuou.
Teck… xiii... teck… xiii
Olhei para trás e uma garotinha de cachinhos claros sorriu para mim. Ela também estava tentando se equilibrar em sapatos de salto, mas os que ela usava eram muito maiores do que os pezinhos delicados. Ela mudava o passo e arrastava o salto. Era dali que vinha o barulho e não dos meus passos errados.
Abaixei diante dela e falei sorrindo.
— Olá. Está muito bonita com esses sapatos vermelhos.
Ela não tinha mais do que cinco anos e as bochechas rosadas e os olhos claros gigantes me fisgaram naquele momento. A vozinha doce anunciou orgulhosa:
— São da minha mãe, ela não levou na viagem e são os sapatos favoritos dela. Minha mãe é a mulher mais bonita de tooooodo o mundo!
A mulher que havia me recebido empalideceu sem que eu soubesse a razão, mas me despedi da menininha com o coração apertado. Provavelmente aquela era a órfã da família Savoia e o peso de perder a mãe é grande demais para alguém tão jovem como ela.
— Agora preciso ir, você pode torcer por mim?
Clara respondeu afiada:
— Você veio para entrevista de babá, vai sair chorando como todas as outras, não adianta eu torcer. Meu pai fica bravo quando a mamãe está fora, mas se não chorar eu prometo te escolher.
A mulher nos interrompeu ainda nervosa.
— Já para o quarto, mocinha, e nada de brincar com os sapatos da sua mãe. Seu pai já disse que é perigoso.
Assisti impotente enquanto os olhinhos se encheram de lágrimas e a garotinha correu para longe, deixando os sapatos de salto para trás.
Não havia o que fazer, então segui a minha anfitriã e entrei pela porta que ela indicou. Me deparei com um escritório que era maior do que o apartamento de onde estava sendo despejada. No centro do espaço, a cadeira atrás da mesa de mogno se virou, revelando o rosto de Daniel.
Os olhos que antes me mediam com desdém agora, apesar da postura firme, pareciam carregar algo que eu reconhecia. Dor? Não sei, talvez fosse medo, mas era algo que não combinava com poder.
A mulher me anunciou e saiu logo depois de sussurrar um Boa sorte que soou como um aviso aos meus ouvidos.
Comecei tentando parecer firme.
— Senhor Savoia, eu...
Ele me interrompeu.
— Tem experiência com crianças?
Menti. O que mais eu poderia fazer diante daquela pergunta? Estava me condenando ao inferno, mas naquele instante eu só pensei no emprego.
— Não profissionalmente, mas ajudei como tutora das minhas sobrinhas. Conheci há pouco sua filha e ela é uma menina adorável e muito inteligente, acho que minha formação pode ajudar.
— Mesmo? E creio que também se ache adequada para me ajudar, não é mesmo, senhorita Bittencourt, mas não estou buscando alguém para aquecer a minha cama e, se estivesse...
Ele respirou antes de terminar a frase.
— Não seria uma adolescente de roupas sujas como você.
O golpe me fez esquecer onde estava e a resposta não foi a que ele esperava.







