Mundo de ficçãoIniciar sessãoVALENTINA
Os primeiros dias depois da traição foram um borrão de sobrevivência. Consegui um quarto minúsculo num cortiço no Brás. O lugar era apertado, úmido, com paredes descascadas e um banheiro que eu dividia com mais três pessoas. O aluguel era barato, mas ainda assim eu mal conseguia pagar. Não contei nada pros meus pais. Eles já tinham se sacrificado tanto para me mandar pra São Paulo… não ia adicionar mais preocupação. Mandava mensagens curtas dizendo que estava tudo bem, que o trabalho e a faculdade iam bem. Mentiras que pesavam no peito toda vez que eu apertava “enviar”. Sobrevivia com a ajuda que eles mandavam todo mês e o salário da lanchonete. Um salário que, agora, eu sabia que devia à Isabela. Lembrei-me de como tudo começou. Eu tinha acabado de ganhar a bolsa de estudos na federal depois de meses estudando feita louca lá em Itapira, no interior de Minas. Mas a bolsa só cobria a mensalidade. Eu precisava vir pra São Paulo e não tinha onde morar. Foi uma vizinha que comentou: — Minha sobrinha Isabela mora lá e está precisando de alguém pra rachar o aluguel. Ela é uma boa menina. Aceitei na hora. Cheguei com uma mala velha e um coração cheio de esperança. Isabela me recebeu com um sorriso largo, abraços e um “você vai adorar aqui, amiga”. Nos primeiros meses ela foi incrível: me ajudou a arrumar o quarto, me apresentou pros amigos, e foi ela que conseguiu a vaga de garçonete na lanchonete onde ela trabalhava no caixa. — Vai te ajudar bastante — disse ela na época, piscando. — Confia em mim. Eu confiei. Quase quatro meses morando juntas antes mesmo de conhecer o Theo. Quatro meses em que achei que tinha encontrado uma irmã na capital. Que idiota eu fui. Naquela manhã, depois de mais uma noite com... com Leon, acordei com a calcinha ensopada e o rosto em brasa. Levantei, fiz minha higiene. Leon nunca mais saiu dos meus pensamentos; era a única coisa que me dava prazer naqueles dias tenebrosos, suas lembranças. E elas ainda me acompanhavam quando cheguei à lanchonete para trabalhar. Como sempre, uniforme passado, pronta pra enfrentar o trabalho pesado. O dia estava calmo até o gerente me chamar na sala dos fundos. — Valentina, precisamos conversar. Meu estômago gelou. Ele foi direto: — Recebemos uma denúncia de furto no caixa. Faltou dinheiro ontem. A Isabela disse que viu você mexendo na gaveta quando ela foi ao banheiro. Fiquei sem ar. — O quê?! Eu nunca… — Ela tem imagens das câmeras — continuou ele, frio. — E o valor é considerável. Sinto muito, mas estamos te dispensando. Recolha suas coisas. Tentei me defender. Expliquei que nunca tinha tocado no caixa, que Isabela trabalhava lá e que isso não fazia sentido. Mas ela fez a coisa tão bem feita que, para qualquer um que visse as imagens, era impossível não pensar o pior de mim. Seu André Garcia me mostrou as malditas imagens manipuladas por Isabela e não quis mais me ouvir. — Não tente mais me enrolar, Valentina. Essas provas são mais que suficientes pra te mandar pra cadeia. Então se dê por satisfeita por eu não fazer isso. Vi o sorrisinho discreto dela atrás do balcão quando saí de lá. Nossos olhares se cruzaram. Ela não fingiu arrependimento dessa vez. Apenas ergueu levemente o queixo, como se dissesse: “Você perdeu de novo.” Saí da lanchonete com o peito apertado. Demitida injustamente. Sem emprego. Sem dinheiro. O pouco que tinha na conta mal daria para o aluguel daquele mês no quarto apertado. E a faculdade? As contas? Os boletos? Andei sem rumo pelas ruas do Brás atrás de um novo emprego. Eu precisava desesperadamente. Não podia perder tudo o que consegui com tanto esforço. A bolsa, o sonho, a independência… tudo ameaçado por causa de duas cobras. Pensei em ligar pra Ana, mas não queria arrastar mais ninguém pra minha desgraça. Pensei nos meus pais e quase chorei. Não. Eu não ia voltar pra Itapira derrotada. Não ia dar esse gostinho pra eles. Levantei do banco com as pernas fracas, mas com uma raiva nova queimando no peito. — Eu vou dar um jeito — murmurei pra mim mesma, apertando a alça da bolsa. — Eles não vão me destruir. Comecei a andar de novo, entrando em cada comércio que via: padarias, lojas, cafés. Perguntava por vaga de qualquer coisa — garçonete, faxineira, atendente. A maioria dizia que não precisava no momento. Alguns nem olhavam pra minha cara. No fim da tarde, com os pés destruídos e o estômago vazio, voltei pro quartinho apertado. Sentei na cama de solteiro que mal cabia no cômodo e olhei para a parede rachada. O dinheiro do mês estava acabando. Eu receberia a rescisão mesmo sendo demitida, mas nem com esse dinheiro seria suficiente. Eu teria no máximo um mês e não teria como pagar o aluguel. Pela primeira vez desde que cheguei em São Paulo, senti um medo real. Medo de voltar pro interior como mais uma que não aguentou. Medo de perder a bolsa. Medo de ter que contar a verdade pros meus pais. Mas junto com o medo veio outra coisa: uma determinação fria. Isabela e Theo tinham tirado quase tudo de mim. Minha confiança. Meu coração. Meu teto. Meu emprego. Eles não iam tirar o resto. Eu ia lutar. Ia bater de porta em porta, engolir o orgulho, trabalhar no que fosse preciso. Porque Valentina de Itapira não veio pra São Paulo pra desistir. Mesmo que doesse. Mesmo que sangrasse. Eu ia sobreviver.






