Mundo de ficçãoIniciar sessãoLEON
Acordei com a luz do sol invadindo o quarto. Estiquei o braço automaticamente para o lado, procurando o calor dela. A cama estava vazia. — Valentina? Só o silêncio respondeu. Sentei-me devagar, ainda nu, e vi o bilhete sobre o travesseiro. Peguei o papel com cuidado, como se pudesse se desfazer. Li cada palavra duas vezes. “Obrigada por tudo. Você foi incrível quando eu mais precisava esquecer. Foi a noite mais intensa da minha vida. Desculpa por ir embora assim. Valentina.” Senti um aperto forte no peito. Virei o lençol e vi a pequena mancha de sangue seco. Fiquei olhando para ela por longos segundos. — Caralho… — murmurei, passando a mão pelo rosto. Ela era realmente virgem. Tinha me dado sua primeira vez numa noite de dor e desespero, sem pedir nada em troca. Uma onda estranha de responsabilidade, desejo e algo mais profundo me acertou em cheio. Eu queria vê-la novamente. Precisava. Quando entrei naquele bar, jamais imaginei encontrar alguém como ela. Seu perfil era perfeito, mas foram seus olhos — cheios de uma dor profunda — que me prenderam antes mesmo que ela me notasse. Quando nossos olhares se cruzaram, senti algo magnético, quase inevitável. Eu sabia que não deveria me aproximar. A garota parecia destruída, precisando de ajuda, não de alguém como eu. Mas quando ela sorriu, mesmo triste, algo dentro de mim se desestruturou. Naquele momento, eu soube que queria aquela mulher. Fui um idiota. Não perguntei sobrenome, não peguei telefone, nada. Só o nome: Valentina. E a memória intensa do gosto da pele dela, do som dos gemidos e da forma como seu corpo tremia sob o meu. Levantei, tomei um banho longo e quente, mas a imagem dela não saía da minha cabeça. Quando me vesti, sentei na beira da cama e reli o bilhete. Foi então que vi os óculos de grau esquecidos na mesinha de cabeceira. Peguei-os. Eram simples, delicados. Imaginei ela usando-os e sorri sem querer. Linda mesmo de óculos. Guardei-os no bolso interno do paletó, como um talismã. Desci até o Lumina Lounge. O barman me reconheceu imediatamente. — Deixa meu número com qualquer garota que perguntar por mim. E se uma morena chamada Valentina aparecer… me liga na hora. — Coloquei uma boa gorjeta sobre o balcão. — É importante. Nos dias seguintes, a obsessão só cresceu. Dirigia sem rumo pelas ruas próximas ao bar, procurando uma garota linda, jovem, morena, com olhos tristes que pareciam azul-cinza. Parecia loucura, mas eu não conseguia parar. Contratei um detetive particular. Dois dias se passaram sem nenhuma notícia. Eu voltava ao Lumina Lounge todas as noites, sentava no mesmo lugar onde a conheci e bebia devagar, revivendo cada segundo daquela noite. Sonhava com ela. Acordava no meio da madrugada duro, excitado, o corpo queimando com a lembrança do jeito como ela gemia meu nome, como cravava as unhas nas minhas costas, como se entregava completamente apesar da dor e do medo. Valentina havia deixado uma marca que eu não sentia há anos. Desde a morte de Anya, nenhuma mulher havia mexido comigo dessa forma. Eu me fechara para relacionamentos. Só relações casuais, sem envolvimento, sem promessas. Era mais seguro. Mais fácil. Mas ela… era diferente. Vulnerável e forte ao mesmo tempo. Entregou-se como se o mundo estivesse acabando, e eu quis ser o porto dela naquela noite. Agora não conseguia pensar em mais nada. Eu, que nunca corria atrás de mulher nenhuma, estava completamente obcecado. Queria protegê-la. Queria saber o que tinha acontecido para ela chegar tão destruída naquele bar. Queria ouvir sua voz novamente, ver aqueles olhos tristes brilharem de prazer em vez de dor. No quarto dia, o detetive ainda não tinha nada concreto. Sentei na varanda do apartamento, girando os óculos dela entre os dedos, olhando a cidade lá embaixo. — Eu vou te encontrar, Valentina — falei em voz baixa, para o vento. — Custe o que custar. Pela primeira vez em muito tempo, eu sentia algo verdadeiro novamente. Uma fome. Uma necessidade. Uma obsessão que não iria embora. E eu nunca desisti do que eu queria.






