Capítulo 2

Duas semanas se passaram desde que Marina começou a trabalhar como babá. A mãe não aceitou de primeira, mas, depois de muita conversa, acabou sendo convencida pela filha. O pai da menina ligava duas vezes por dia; falava com Sofia por alguns minutos ou fazia uma videochamada. Marina ainda não tivera a chance de falar com o patrão. Rafael sabia que a filha tinha uma nova babá, mas não se interessou em saber quem ela era.

Sofia, nos dois primeiros dias, ficou desconfiada com a presença da nova babá, mas depois acabou aceitando a jovem. O pai da menina continuava viajando, e Francesca comentou que as negociações com os clientes alemães estavam demorando bem mais do que o previsto.

O pai de Rafael, o senhor Luciano Albuquerque, era um homem agradável, que gostava de contar histórias para as duas todas as noites depois do jantar. Ele havia construído tudo do zero, depois de desfazer a sociedade com um antigo amigo, mas Marina não sabia os detalhes. Sofia tinha uma avó chamada Catarina e uma prima da mãe chamada Giulia.

Lúcia, a empregada da casa, confidenciou à jovem que Dona Francesca não aceitava nenhuma das duas na vida da neta e nunca aprovara a mãe de Sofia.

Marina e Sofia montavam um quebra-cabeça na sala quando a babá percebeu que já estava quase na hora do jantar.

— Sofia, vamos. Já está na hora do banho. Daqui a pouco você precisa jantar e descansar cedo.

— Tia Marina, será que amanhã podemos dar comida aos pombos? Meu papai não está aqui e todo sábado ele me leva para brincar na grama e alimentar os bichos.

— Preciso pensar… — Marina fez uma expressão pensativa e pegou a menina pela mão. As duas subiram juntas até o quarto. Em poucos dias, haviam se tornado amigas, e Marina sabia que Sofia tentava distraí-la para continuar brincando.

Marina ajudou Sofia a tirar o vestido, e as duas seguiram para o banheiro. Vinte minutos depois, Sofia, já vestida com seu pijama, desceu para o jantar.

— Boa noite! — as duas cumprimentaram Luciano e Francesca, que as aguardavam à mesa.

Marina ajudou Sofia a se acomodar na cadeira e serviu o prato da menina.

— Querido, Rafael deve voltar de viagem em breve. Ele me ligou ontem e disse que, se tudo correr bem, no domingo estará em casa.

Luciano tocou a mão da esposa em demonstração de carinho. Marina notou, em poucos dias, como a família era unida e como os patrões eram pessoas de bom coração.

— Filha, o que está achando desses primeiros dias? Minha neta está dando muito trabalho? — questionou Luciano, curioso.

— Não, vovô. Eu obedeço a tudo o que tia Marina fala. Estou me comportando muito bem.

Todos riram à mesa, e Marina concordou com Sofia.

— Senhor Luciano, além de ser uma boa menina, obediente e estudiosa, ela não me dá trabalho algum — disse Marina, aproveitando para pedir permissão. — Gostaria de saber se posso levá-la amanhã até a orla para dar comida aos pombos. Ela me contou que o pai costuma fazer isso todo fim de semana e, se os senhores não se importarem, posso levá-la.

— Acho uma ótima ideia, minha querida. Rafael deve retornar apenas no domingo, e no fim de semana passado Sofia ficou em casa com você por ter sido seu primeiro conosco. Pedirei ao José que leve vocês amanhã após o café.

O jantar seguiu tranquilo, com Sofia contando sobre a semana na escola e fazendo planos animados para o passeio do dia seguinte.

Já passava das nove da noite quando Marina colocou Sofia na cama, depois de a menina escovar os dentes e fazer sua oração antes de dormir. Sofia ainda tentou enrolar a amiga por alguns minutos, mas acabou vencida pelo próprio cansaço.

Em seu quarto, Marina estava sem sono. Decidiu ler um pouco, mas, quando olhou no relógio, já era quase meia-noite. Resolveu preparar um leite quente com canela; talvez assim o sono chegasse logo — ou acordaria com olheiras, parecendo um urso panda.

Saiu do quarto com cuidado e caminhou até a cozinha. Todos já estavam dormindo, e a moça preferiu não acender todas as luzes, ligando apenas uma luminária fraca. Com a ajuda da lanterna do celular, preparou o leite quente. Ficou alguns minutos pensando em como a vida havia mudado em tão pouco tempo. Sua irmã achara uma loucura renunciar à juventude por causa de um alto salário, mas Marina não pensava em se casar; não guardava boas lembranças do casamento dos pais.

Depois de tomar o leite, organizou tudo, pegou um copo de água e decidiu voltar para o quarto.

Quando estava fechando a geladeira, assustou-se com uma sombra parada na cozinha, observando-a. Pela silhueta, era um homem bem mais alto que ela. Como estava escuro, não conseguia enxergar o rosto e, com o susto, acabou deixando o copo cair.

Ao se abaixar para recolher os cacos, as luzes se acenderam, e ela se cortou com um pedaço de vidro. Quando ficou cara a cara com o estranho, reconheceu o patrão das fotos.

Rafael observava a garota desconhecida agachada no meio da cozinha da mansão. Quem seria aquela menina? Sua filha não tinha amizade com garotas mais velhas — ao menos, era o que ele sabia.

Quando Marina levantou o rosto corado, percebeu de perto como o patrão era ainda mais bonito e atraente do que nas fotos. Os cabelos negros, como os da filha, traziam alguns fios grisalhos nas têmporas. A barba bem aparada lhe dava um ar rude. Seus rostos estavam próximos, o que deixou Marina sem reação. Rafael tirou um lenço do bolso do terno e o colocou delicadamente no dedo dela, pressionando o ferimento.

Depois de alguns segundos, ainda segurando o lenço, Rafael questionou sua presença, deixando a jovem sem saber o que dizer:

— Quem é você e o que está fazendo na cozinha da minha casa?

Marina fechou os olhos e soltou um suspiro de apreensão. Pela expressão do chefe, tinha certeza de que seria despedida na manhã seguinte.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App