Mundo ficciónIniciar sesión— Eu… eu… — a voz falhou antes que ela respirasse fundo. — Sou Marina, a nova babá da Sofia.
Rafael a analisou em silêncio, com aquele olhar calculista que fazia qualquer um se sentir avaliado além da superfície. Algo estava errado. Muito errado. Quando sua mãe avisara que a nova funcionária havia começado, omitira um detalhe essencial: ela era jovem demais. Jovem a ponto de parecer deslocada naquela mansão silenciosa, cercada por responsabilidades grandes demais para alguém com aparência tão frágil.
Dezesseis? Dezessete anos?
Não. Impossível.Ainda assim, o desconforto se instalou em seu peito.
— Senhorita Marina — disse por fim, a voz controlada, mas fria —, creio que houve um equívoco.
Ela franziu o cenho, confusa.
— Acreditei ter contratado uma babá — continuou —, não uma amiguinha para a minha filha.
As palavras atingiram Marina como um golpe. O rosto corou instantaneamente, misto de indignação e constrangimento. Só então ela percebeu o quanto sua aparência jogava contra si: pijama simples, cabelos soltos caindo pelos ombros, nenhum traço que denunciasse os vinte e três anos que realmente tinha.
Parecia uma menina.
E odiou isso.— Senhor Rafael — respondeu, reunindo o pouco de firmeza que lhe restava —, tudo o que sua mãe lhe disse é verdade. Posso não ser o que o senhor esperava, mas estou cuidando muito bem da sua filha.
Houve um silêncio pesado.
Rafael ergueu a mão, encerrando a conversa.
— Amanhã falamos melhor. Acabei de chegar de viagem, estou com uma enxaqueca terrível. Prefiro ficar sozinho.
Marina assentiu, engolindo o orgulho. Juntou os cacos do copo quebrado, jogou-os no lixo e pegou o celular sobre o balcão. Antes de sair, porém, voltou-se para ele.
— O senhor precisa de algo?
Rafael a encarou por um segundo a mais do que pretendia. Não respondeu de imediato.
— Não. Obrigado. Pode descansar. Amanhã conversamos.
Quando a porta se fechou atrás dela, o silêncio voltou a tomar a casa. Rafael caminhou até o escritório, serviu-se de uísque e deixou-se cair na poltrona, encarando o jardim escuro através da vidraça.
Dias intermináveis. Reuniões, conflitos, fusos horários. A exaustão não era apenas física — era emocional. Tudo o que queria naquele momento era ver a filha.
Foi até o quarto de Sofia com passos cautelosos. A menina dormia profundamente, o rosto sereno, alheia ao peso do mundo. Rafael sentiu o nó familiar apertar o peito.
Desde a morte de Giuliana, carregava culpas que nunca aprendera a nomear.
O casamento fora rápido, impulsivo, bonito por fora. Por dentro, uma sucessão de silêncios, brigas e desconfianças. O amor não sobrevivera. Apenas a filha.
— Papai, você chegou…
A voz sonolenta o trouxe de volta. Sofia sentou-se na cama, os olhos ainda pesados de sono.
— Cheguei, princesa — disse, deitando-se ao seu lado. — Mas agora é hora de dormir. Amanhã conversamos.
— Mas eu tenho tanta coisa pra contar… a irmã Marina…
— Shhh… depois — murmurou, beijando-lhe a testa.
Sofia voltou a dormir, e Rafael acabou fechando os olhos também, vencido pelo cansaço.
Marina acordou sobressaltada com o alarme do celular.
Quase sete horas.
O coração disparou.
“Ele vai me demitir.”
Tomou banho às pressas, escolheu um vestido florido abaixo do joelho, fez uma trança simples e uma maquiagem discreta. Precisava parecer o que era: uma mulher responsável. Não uma garota perdida.
Apressada foi para cozinha e encontrou Lúcia cantando, deu um beijo no rosto da amiga, conferiu tudo o que Sofia precisava e avisou que iria ao quarto da criança. Acabou esquecendo de contar a Lúcia sobre o péssimo encontro da noite anterior.
Entrou sem bater, cantando a canção favorita de Sofia, sem perceber que pai e filha dormiam abraçados na cama. Calou-se, mas já era tarde: Rafael despertou com o barulho, e seu rosto demonstrava irritação.
Só podia ser sinal do destino. Aquele trabalho, com certeza, não seria dela.
— Bom dia... — Senhor Rafael, me perdoe. — Eu não sabia que o senhor estava no quarto da Sofia. — Eu... eu... vim aqui para…
Sofia se mexeu na cama e logo depois acordou.
—Tia Marina, você está aqui! Olha quem dormiu comigo. Meu pai voltou e ele vai nos levar para alimentar os bichinhos!
A menina estava tão alegre que Marina não soube o que responder.
— Calma, mocinha. É melhor a senhorita se arrumar primeiro. Eu vou tomar um banho, e a babá vai te ajudar. Senhorita Marina, daqui a vinte minutos espero as duas na mesa do café.
Rafael beijou a testa da filha e saiu do quarto, deixando Marina desesperada com o que poderia acontecer.
— Tia Marina, hoje nós três vamos passear!
— Vem, pequena, vamos escolher uma roupa bem bonita para você.
Francesca e Rafael conversavam no escritório sobre Marina e o trabalho dela na mansão. O arquiteto andava de um lado para o outro, nervoso, tentando convencer a mãe de que era melhor mandar a babá embora.
— Filho, a moça é dedicada, trata bem sua filha. Não entendo tanta desconfiança. Marina é uma jovem esforçada, educada e, acima de tudo, profissional. Não tem pretensão de se casar pelos próximos anos.
— A babá é perfeita para nossa pequena. O que mais você quer? Que ela seja mais velha? Ou acha que pode se apaixonar pela babá da sua filha?
Francesca riu da expressão assustada do filho.
— Claro que isso nunca vai acontecer, mamãe. Só acho aquela moça nova demais para ocupar uma função importante nesta casa.
— Nova? — Francesca perguntou, sem entender. — Filho, nossa Marina já é adulta o suficiente para cuidar da sua filha.
Rafael percebeu que não adiantava discutir. Pelo jeito, a mãe havia se encantado pela nova funcionária.
— Tudo bem. Já que a senhora diz que ela é competente, então ela fica. Mas escute bem: no primeiro erro que cometer aqui dentro, será imediatamente demitida.
Rafael saiu com passos largos, enquanto Francesca observava o filho. Conhecia bem seu menino. Mesmo aos quarenta anos, sabia quando algo o afetava.
Quando contratou Marina, sentiu, no fundo do coração, que aquela jovem faria bem não apenas à neta, mas também ao filho.
Rafael conversava com o pai enquanto Lúcia servia o café. Logo depois, Francesca apareceu com a neta e Marina.
A patroa pediu para conversar com Marina primeiro, pois sabia que a jovem devia ter ficado assustada com o jeito rude do filho. Queria garantir que a babá tivesse certeza de que continuaria trabalhando na mansão.
Sofia correu até o pai, enchendo-o de beijos e abraços, depois foi até o avô, e Marina pediu que a menina se sentasse para tomar o café.
— Minha querida, você conheceu Rafael ontem. Espero que ele não tenha te assustado.
— Luciano e eu não queremos que você nos abandone tão cedo. Meu filho tem esse jeito, mas, no fundo, é um homem bom, não é mesmo, Rafael?
Rafael se engasgou com o café e apenas balançou a cabeça em sinal positivo.
Sofia conversava animadamente com Marina e a avó até tocar no assunto do passeio.
— Papai, a tia Marina vai conosco, não é?
Rafael já tinha pensado na desculpa perfeita para evitar aquela companhia. Explicou à filha que daria folga para Marina e que ela só voltaria no domingo. Assim, evitaria uma presença indesejada ao seu lado, e o fim de semana seria tranquilo com a filha e os pais.
Não estava acostumado a estranhos rondando a mansão nos dias de descanso.
Marina sentiu-se aliviada ao ouvir que teria dois dias de folga. Quase se ajoelhou no meio da sala em agradecimento por escapar de ficar ao lado daquele homem por dois dias.
Pediu licença, organizou as coisas de Sofia para o fim de semana, arrumou a bolsa e se despediu da menina e de Francesca, aproveitando que o patrão mal-humorado estava em uma ligação.
Enfim, teria dois dias com a mãe e a irmã. Tempo suficiente para pensar em como lidar com o chefe.







