Capítulo 4

Adrian

Eu não confio em decisões tomadas rápido demais.

E aceitar Luna Azevedo foi exatamente isso.

Estou no escritório, mas não trabalho. A tela do computador está acesa há tempo demais no mesmo relatório, intocado. Minha atenção não está nos números, nem nos contratos, nem nas reuniões que cancelei sem explicação naquela noite.

Está nela.

No andar de cima. No quarto que preparei para ser temporário, mas que já não me soa como algo passageiro.

A casa mudou desde que Luna cruzou a porta.

Não de forma óbvia. Não há barulho excessivo, nem desordem, nem invasões. É algo mais sutil. Como se o ar estivesse diferente. Menos pesado. E isso me incomoda profundamente.

Mudanças costumam preceder perdas.

Apoio os cotovelos na mesa e pressiono os dedos contra as têmporas. Tenho um histórico impecável de controle. Pessoas entram e saem da minha vida conforme critérios claros. Funcionários são eficientes. Relações são úteis. Emoções são administradas.

Luna não se encaixa em nenhuma dessas categorias.

Ela não tenta agradar. Não exagera. Não se impõe. Apenas existe, com uma naturalidade que me obriga a notá-la. Isso é perigoso.

Desbloqueio a tela do celular e acesso o relatório que mandei levantar sobre ela antes mesmo da entrevista terminar. Faço isso com todos. Não é pessoal. É precaução.

Luna Azevedo. Vinte e seis anos. Formação sólida. Histórico profissional limpo. Nenhuma pendência financeira relevante. Nenhuma ligação suspeita. Vida simples. Simples demais.

Esse é o problema.

Pessoas simples geralmente querem algo. Estabilidade. Ascensão. Dinheiro. Segurança. Luna quer… silêncio. Presença. Tempo.

Coisas que não se compram.

Fecho o arquivo com mais força do que o necessário.

Ouço passos no corredor e meu corpo reage antes da mente. Reconheço o ritmo. Leve. Contido. Ela não anda como quem pede permissão, mas também não invade. Mantém uma distância precisa.

— Adrian? — a voz dela surge do outro lado da porta.

Respiro fundo antes de responder.

— Entre.

Ela abre a porta devagar. Usa roupas neutras, o cabelo preso de forma simples. Não tenta parecer profissional demais, nem casual demais. É como se tivesse entendido o código da casa sem que ninguém precisasse explicar.

— Clara já dormiu — ela diz. — Teve um pouco de dificuldade, mas… acabou cedendo.

— Obrigado — respondo. — Alguma crise?

— Não. Só saudade.

A palavra se instala entre nós como algo palpável.

— Ela perguntou da mãe? — pergunto.

Luna hesita por um segundo. Um detalhe pequeno. Importante.

— Não com palavras — responde. — Mas perguntou se as estrelas veem a gente quando dormimos.

Meu maxilar se contrai.

— E o que você disse?

— Que algumas pessoas acreditam que sim. Outras, que elas apenas iluminam o caminho.

Ela me observa enquanto fala, como se estivesse medindo o impacto de cada frase.

— Clara gostou da segunda opção — completa.

Assinto lentamente.

— Você não mente para ela.

— Não — Luna diz. — Mas também não digo tudo.

Inteligente.

— Isso pode ser perigoso — respondo. — Crianças interpretam o que não é dito.

— Adultos também — ela rebate, sem desafio, apenas constatação.

Nossos olhares se cruzam. Há algo ali. Não tensão física. Ainda não. É outra coisa. Um jogo silencioso de limites.

— Quero que saiba — digo — que esta casa tem regras claras.

— Eu sei.

— Não tolero surpresas.

— Eu também não gosto delas.

Cruzo os braços.

— Ainda assim, você entrou.

— Entrei — ela confirma. — Porque algumas coisas valem o risco calculado.

Risco.

A palavra ecoa de forma desconfortável.

— E eu? — pergunto. — Eu sou um risco aceitável?

Ela me encara por longos segundos. Pela primeira vez desde que chegou, não responde de imediato.

— O senhor é uma variável — ela diz por fim. — E variáveis exigem observação.

Uma resposta elegante. Precisa. Fria o suficiente para não se entregar.

Perigosa o suficiente para me interessar.

— Eu observo tudo que acontece sob este teto — digo.

— Eu sei — ela responde, e há algo em seu olhar que sugere que isso não a intimida tanto quanto deveria.

Quando Luna se vira para sair, percebo o impulso antes de controlá-lo.

— Luna.

Ela para.

— Sim?

— Não crie expectativas aqui.

Ela se vira devagar.

— Não se preocupe — diz. — Eu aprendi a viver sem elas.

A porta se fecha atrás dela, deixando um silêncio mais pesado do que antes.

Caminho até a janela e observo o jardim escuro. A fonte está desligada. As luzes baixas. Tudo exatamente como deveria estar.

E ainda assim, algo saiu do lugar.

Penso na forma como Clara relaxou ao ouvir a voz de Luna. No modo como segurou sua mão sem perceber. No jeito como Luna não tentou ocupar o espaço de mãe, nem o de salvadora.

Ela apenas permaneceu.

Permanência é uma ameaça para alguém como eu.

Porque pessoas que ficam criam raízes. E raízes quebram estruturas rígidas quando crescem onde não foram previstas.

Fecho os olhos por um instante.

Não posso permitir envolvimento. Não posso baixar a guarda. Não posso confundir gratidão com dependência. Muito menos interesse com necessidade.

Mas, ao me afastar da janela, percebo algo que me irrita ainda mais do que a dúvida.

Estou curioso.

Curioso para saber o que Luna não diz. O que ela esconde atrás da calma. O que a fez aceitar uma casa cheia de regras, um homem desconfiado e uma criança em luto.

Curiosidade leva à proximidade.

Proximidade leva a falhas.

E falhas… custam caro.

Apoio a mão na mesa, firme, como se pudesse ancorar a decisão no próprio corpo.

Luna Azevedo é temporária.

Ela precisa ser.

Mas, pela primeira vez desde a morte da minha irmã, percebo que não sou o único observando.

Ela também está me estudando.

E isso muda tudo.

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