Mundo de ficçãoIniciar sessãoLuna
Clara demora a adormecer. Eu já esperava por isso. O quarto dela é delicado demais para alguém que perdeu tanto. Tons claros, brinquedos organizados, livros alinhados por cor. Tudo parece tentar compensar algo que não pode ser devolvido. A luz do abajur projeta sombras suaves nas paredes, e ela está deitada de lado, abraçando um coelho de pelúcia com força excessiva. — Luna? — ela chama baixinho, como se tivesse medo de quebrar o silêncio. — Sim? Estou aqui — respondo, sentando na beira da cama. — Não vou embora. Ela relaxa um pouco ao ouvir isso. Não muito. Só o suficiente para respirar mais fundo. Fico em silêncio por alguns segundos. Aprendi que crianças dizem mais quando não são pressionadas. Passo a mão devagar por seus cabelos, respeitando o espaço que ela me permite. — Você vai dormir aqui pra sempre? — ela pergunta de repente. A pergunta me atravessa. — Não sei — respondo com honestidade cuidadosa. — Mas hoje eu estou aqui. E amanhã também. Ela parece pensar sobre isso. — Minha mãe dizia que amanhã sempre chega — Clara diz, olhando para o teto. Engulo em seco. — Ela estava certa. — Mas às vezes ele demora — Clara continua. — Às vezes fica escuro antes. — Fica — concordo. — E tudo bem ter medo no escuro. Ela vira o rosto para mim. — Você tem medo? Sorrio de leve. — Tenho. — De quê? Penso por um instante. — De perder pessoas que eu gosto. Ela aperta o coelho com mais força. — Eu perdi minha mãe. — Eu sei — digo suavemente. O silêncio que se segue é pesado, mas não desconfortável. É um silêncio que pede cuidado, não fuga. — Ela e o tio brigavam às vezes — Clara diz, a voz quase um sussurro. — Mas ele gostava dela. Muito. — Eu sei disso também. — Ele fica triste quando acha que ninguém vê — ela continua. — Ele pensa que eu não percebo. Meu peito aperta. — Crianças percebem mais do que os adultos imaginam. — Você percebe — Clara diz. Não é uma pergunta. — Percebo. Ela se mexe na cama, virando-se de frente para mim. — Você vai contar para o tio? — O quê? — Que ele fica triste. — Não — respondo imediatamente. — Isso é algo que ele precisa dizer quando estiver pronto. Ela parece satisfeita com a resposta. — A mamãe dizia que segredos não são sempre ruins — Clara diz. — Só quando machucam. — Sua mãe era sábia. Clara sorri pela primeira vez desde que entramos no quarto. É um sorriso pequeno, mas real. Sinto algo se apertar dentro de mim, como se aquela expressão carregasse uma responsabilidade silenciosa. — Luna? — Sim? — A mamãe consegue ver a gente? A pergunta vem de repente, simples demais para o peso que carrega. Respiro fundo, com cuidado. — O que você acha? Ela pensa. — Às vezes acho que sim. Porque eu sonho com ela. E às vezes acho que não, porque ela não responde quando eu falo. — Sonhos são uma forma de lembrar — digo. — E lembrar é uma maneira de manter alguém perto. — Mas ela vê? — insiste. Olho para o teto, onde pequenas estrelas fluorescentes estão coladas, formando constelações infantis. — Algumas pessoas acreditam que quem a gente ama vira estrela — digo. — Que não falam mais, mas iluminam caminhos. Especialmente quando está escuro. — Elas veem a gente dormir? — Talvez não como pessoas veem — respondo. — Mas talvez como luz vê. Ela franze a testa. — Como assim? — A luz não precisa de olhos pra saber onde está — explico. — Ela só… está. Aquece. Mostra o caminho. Clara fica em silêncio por um tempo longo. Tão longo que penso que ela dormiu. Então, ela fala: — Eu gosto dessa ideia. Sorrio. — Eu também. — Então quando eu fico com medo… — ela começa. — Você pode olhar pra cima — completo. — E lembrar que alguém quis muito que você estivesse segura. Ela se aproxima um pouco mais, estendendo a mão pequena até tocar meus dedos. — Você também quer isso? A pergunta me pega desprevenida. — Quero — digo, com a voz firme apesar do nó na garganta. — Muito. Ela solta minha mão e se ajeita no travesseiro. — Boa noite, Luna. — Boa noite, Clara. Levanto devagar, mas antes de chegar à porta, ouço: — Luna? — Sim? — Obrigada por não ir embora quando fica silencioso. Paro. — Obrigada por me deixar ficar — respondo. Apago a luz principal, deixando apenas o abajur aceso, e fecho a porta com cuidado. No corredor, apoio a mão na parede por um instante. Meu coração b**e forte demais para algo que deveria ser apenas profissional. Mas não é só isso. Nunca foi. Clara não precisa de promessas eternas. Precisa de presença real. E, sem perceber, eu ofereci exatamente isso. Quando chego ao meu quarto, demoro a deitar. Fico olhando pela janela, as estrelas reais agora, espalhadas pelo céu escuro. Penso em Adrian. No jeito como ele carrega o luto como uma armadura pesada demais. No modo como observa tudo para não sentir. Ele perguntou se eu me sentia segura aqui. A verdade é que ainda não sei. Mas sei que Clara se sentiu. E, por enquanto, isso basta. Porque algumas decisões não são feitas com a cabeça. São feitas com o cuidado de quem escolhe ficar mesmo quando o silêncio pesa.






