Capítulo 5

Luna

Clara demora a adormecer.

Eu já esperava por isso.

O quarto dela é delicado demais para alguém que perdeu tanto. Tons claros, brinquedos organizados, livros alinhados por cor. Tudo parece tentar compensar algo que não pode ser devolvido. A luz do abajur projeta sombras suaves nas paredes, e ela está deitada de lado, abraçando um coelho de pelúcia com força excessiva.

— Luna? — ela chama baixinho, como se tivesse medo de quebrar o silêncio.

— Sim? Estou aqui — respondo, sentando na beira da cama. — Não vou embora.

Ela relaxa um pouco ao ouvir isso. Não muito. Só o suficiente para respirar mais fundo.

Fico em silêncio por alguns segundos. Aprendi que crianças dizem mais quando não são pressionadas. Passo a mão devagar por seus cabelos, respeitando o espaço que ela me permite.

— Você vai dormir aqui pra sempre? — ela pergunta de repente.

A pergunta me atravessa.

— Não sei — respondo com honestidade cuidadosa. — Mas hoje eu estou aqui. E amanhã também.

Ela parece pensar sobre isso.

— Minha mãe dizia que amanhã sempre chega — Clara diz, olhando para o teto.

Engulo em seco.

— Ela estava certa.

— Mas às vezes ele demora — Clara continua. — Às vezes fica escuro antes.

— Fica — concordo. — E tudo bem ter medo no escuro.

Ela vira o rosto para mim.

— Você tem medo?

Sorrio de leve.

— Tenho.

— De quê?

Penso por um instante.

— De perder pessoas que eu gosto.

Ela aperta o coelho com mais força.

— Eu perdi minha mãe.

— Eu sei — digo suavemente.

O silêncio que se segue é pesado, mas não desconfortável. É um silêncio que pede cuidado, não fuga.

— Ela e o tio brigavam às vezes — Clara diz, a voz quase um sussurro. — Mas ele gostava dela. Muito.

— Eu sei disso também.

— Ele fica triste quando acha que ninguém vê — ela continua. — Ele pensa que eu não percebo.

Meu peito aperta.

— Crianças percebem mais do que os adultos imaginam.

— Você percebe — Clara diz.

Não é uma pergunta.

— Percebo.

Ela se mexe na cama, virando-se de frente para mim.

— Você vai contar para o tio?

— O quê?

— Que ele fica triste.

— Não — respondo imediatamente. — Isso é algo que ele precisa dizer quando estiver pronto.

Ela parece satisfeita com a resposta.

— A mamãe dizia que segredos não são sempre ruins — Clara diz. — Só quando machucam.

— Sua mãe era sábia.

Clara sorri pela primeira vez desde que entramos no quarto. É um sorriso pequeno, mas real. Sinto algo se apertar dentro de mim, como se aquela expressão carregasse uma responsabilidade silenciosa.

— Luna?

— Sim?

— A mamãe consegue ver a gente?

A pergunta vem de repente, simples demais para o peso que carrega.

Respiro fundo, com cuidado.

— O que você acha?

Ela pensa.

— Às vezes acho que sim. Porque eu sonho com ela. E às vezes acho que não, porque ela não responde quando eu falo.

— Sonhos são uma forma de lembrar — digo. — E lembrar é uma maneira de manter alguém perto.

— Mas ela vê? — insiste.

Olho para o teto, onde pequenas estrelas fluorescentes estão coladas, formando constelações infantis.

— Algumas pessoas acreditam que quem a gente ama vira estrela — digo. — Que não falam mais, mas iluminam caminhos. Especialmente quando está escuro.

— Elas veem a gente dormir?

— Talvez não como pessoas veem — respondo. — Mas talvez como luz vê.

Ela franze a testa.

— Como assim?

— A luz não precisa de olhos pra saber onde está — explico. — Ela só… está. Aquece. Mostra o caminho.

Clara fica em silêncio por um tempo longo. Tão longo que penso que ela dormiu. Então, ela fala:

— Eu gosto dessa ideia.

Sorrio.

— Eu também.

— Então quando eu fico com medo… — ela começa.

— Você pode olhar pra cima — completo. — E lembrar que alguém quis muito que você estivesse segura.

Ela se aproxima um pouco mais, estendendo a mão pequena até tocar meus dedos.

— Você também quer isso?

A pergunta me pega desprevenida.

— Quero — digo, com a voz firme apesar do nó na garganta. — Muito.

Ela solta minha mão e se ajeita no travesseiro.

— Boa noite, Luna.

— Boa noite, Clara.

Levanto devagar, mas antes de chegar à porta, ouço:

— Luna?

— Sim?

— Obrigada por não ir embora quando fica silencioso.

Paro.

— Obrigada por me deixar ficar — respondo.

Apago a luz principal, deixando apenas o abajur aceso, e fecho a porta com cuidado.

No corredor, apoio a mão na parede por um instante. Meu coração b**e forte demais para algo que deveria ser apenas profissional. Mas não é só isso. Nunca foi.

Clara não precisa de promessas eternas. Precisa de presença real.

E, sem perceber, eu ofereci exatamente isso.

Quando chego ao meu quarto, demoro a deitar. Fico olhando pela janela, as estrelas reais agora, espalhadas pelo céu escuro. Penso em Adrian. No jeito como ele carrega o luto como uma armadura pesada demais. No modo como observa tudo para não sentir.

Ele perguntou se eu me sentia segura aqui.

A verdade é que ainda não sei.

Mas sei que Clara se sentiu.

E, por enquanto, isso basta.

Porque algumas decisões não são feitas com a cabeça.

São feitas com o cuidado de quem escolhe ficar mesmo quando o silêncio pesa.

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