Mundo de ficçãoIniciar sessãoLuna
O quarto é grande demais para mim. É a primeira coisa que penso quando a porta se fecha atrás de Helena e o silêncio toma conta do espaço. As paredes são claras, a cama parece nunca ter sido usada e a janela dá para os jardins que vi ao entrar na mansão. Tudo é impecável, organizado, impessoal. Como se ninguém tivesse dormido ali de verdade. Passo os dedos pela colcha, sentindo o tecido macio sob a pele, e inspiro fundo. O ar aqui tem cheiro de limpeza e algo mais… distante. Seguro. Controlado. — Você pediu tempo para pensar, Luna — murmuro para mim mesma. Mas a verdade é que meu corpo inteiro já reagiu antes da minha mente. Desde o momento em que entrei naquela casa, algo em mim ficou alerta. Não exatamente com medo. Atenta, como eu disse a ele. Adrian Valmont. O nome ecoa na minha cabeça com uma presença incômoda. Ele não se parece com ninguém que já conheci. Não é apenas a postura, o dinheiro evidente ou a casa que parece uma fortaleza. É o olhar. Sempre atento. Sempre medindo. Como se o mundo fosse um tabuleiro e as pessoas, peças. Inclusive eu. Sento na beira da cama e encaro minhas mãos. Elas ainda têm resquícios de giz colorido nas unhas. Um sorriso involuntário surge quando penso em Clara. Ela não falou muito. Não precisou. Crianças dizem tudo com o corpo, com os silêncios, com os pequenos gestos. Quando ela segurou a barra da minha blusa, mesmo que por poucos segundos, senti algo se encaixar dentro de mim. Um reconhecimento. Mas junto com isso veio o peso. A responsabilidade. A consciência de que aquela criança carrega uma perda grande demais para alguém tão pequeno. E o tio dela também. Fecho os olhos por um instante, e a imagem de Adrian me vem à mente sem pedir permissão. A forma como ele observava tudo. Como não se afastou um segundo sequer. Como sua voz mudou ao falar da irmã. Há dor ali. Muita. E controle demais para tentar mantê-la contida. Levanto e caminho pelo quarto, abrindo o armário. Há roupas neutras, simples, claramente separadas para uma funcionária. Nada pessoal. Nada que indique permanência. É como se tudo aqui dissesse: você pode ficar, mas não pertença. Meu peito aperta. Já estive em lugares assim antes. Não mansões, não com bilionários. Mas relações onde eu era tolerada, nunca escolhida. Onde o afeto vinha com condições. Onde eu precisava caber em espaços que não eram feitos para mim. Prometi a mim mesma que não faria isso de novo. Uma batida leve na porta me faz virar rapidamente. — Pode entrar — digo. Helena aparece, com a mesma postura elegante e olhar atento. — O senhor Valmont pediu que a avisasse que o jantar será servido em uma hora — ela diz. — Caso decida ficar. Caso. — Obrigada — respondo. — Eu aviso. Ela assente e sai. Fico sozinha outra vez. Caminho até a janela e observo o jardim lá embaixo. Vejo Clara sentada em um banco, balançando as pernas, acompanhada por uma das funcionárias. Ela parece menor vista de cima. Mais frágil. Mais real. — Droga — sussurro. Não posso negar que quero ficar. Não só pelo emprego, pelo salário ou pela estabilidade que isso traria. Quero ficar porque aquela criança precisa de alguém que não vá embora. E porque, por algum motivo que ainda não entendo completamente, sinto que se eu sair agora, algo importante ficará inacabado. Mas também sinto o aviso silencioso pulsando dentro de mim. Adrian Valmont não é um homem simples. Ele não oferece nada sem esperar algo em troca. Talvez não conscientemente, talvez não de forma cruel. Mas ele ocupa espaços. Domina ambientes. E pessoas como ele não gostam de perder o controle. E eu não sei se estou preparada para viver sob vigilância. Troco de roupa devagar, escolhendo algo confortável, discreto. Quando desço as escadas para o jantar, meu coração b**e mais rápido do que deveria. Tento ignorar. A sala de jantar é grande, mas só há três lugares à mesa. Clara já está sentada, mexendo na comida com pouco interesse. Adrian está em pé, ao lado da mesa, olhando o celular. Quando me vê, guarda o aparelho imediatamente. — Luna — ele diz. Meu nome soa diferente na voz dele. Mais grave. Mais presente. — Senhor Valmont. — Adrian — ele corrige. — Aqui dentro, pelo menos. Assinto, um pouco desconcertada. O jantar transcorre em um silêncio quase respeitoso. Clara come pouco, mas não é forçada. Percebo que Adrian observa cada gesto meu quando falo com ela, quando a incentivo sem pressionar. Não é disfarçado. — Você sempre age assim com crianças? — ele pergunta em determinado momento. — Assim como? — pergunto. — Como se tivesse todo o tempo do mundo. Dou de ombros. — Para elas, o tempo funciona diferente. Ele me encara por alguns segundos. — E para você? A pergunta me pega desprevenida. — Para mim… — penso por um instante. — O tempo costuma cobrar caro quando é ignorado. Algo passa pelo rosto dele. Não sei definir o quê. Após o jantar, Clara é levada para o quarto. Fico sozinha com Adrian na sala ampla, iluminada apenas por luzes indiretas. O silêncio entre nós é denso. — Já decidiu? — ele pergunta. Respiro fundo. — Ainda estou decidindo se este lugar é seguro para mim. Ele não parece ofendido. Pelo contrário. Um canto quase imperceptível de sua boca se move. — Segurança é uma preocupação constante aqui — ele diz. — Para todos. — Inclusive para o senhor? — arrisco. — Principalmente para mim. O olhar dele se fixa no meu com intensidade suficiente para me fazer prender a respiração. — Se ficar — ele continua —, não será fácil. Haverá regras. Limites. Expectativas. — Eu não tenho problema com regras — respondo. — Tenho problema com prisões. O silêncio se estende. — Não pretendo prendê-la — ele diz por fim. Mas algo em seu tom diz que ele mesmo não acredita totalmente nisso. Engulo em seco. — Eu fico — digo. A palavra parece ecoar no espaço entre nós. Adrian me observa como se estivesse confirmando algo que já sabia. — Então seja bem-vinda, Luna. E naquele instante, mesmo sem saber exatamente no que estou me metendo, sinto que cruzei um limite invisível. Não apenas profissional. Algo dentro de mim se fecha com um clique suave. Como uma porta. E, pela primeira vez desde que cheguei, tenho certeza de uma coisa: sair dessa casa será muito mais difícil do que entrar.






