04. O SACRIFÍCIO E A FUGA

Capítulo 4: O Sacrifício e a Fuga

​O trajeto até a escola de elite onde Enzo e Maya estudavam era feito em um silêncio confortável, quebrado apenas pelas perguntas curiosas das crianças. O Sr. Alessandro fazia questão de levá-los pessoalmente, um hábito que mostrava seu lado pai zeloso. Pérola ia no banco de trás, ainda sentindo o peso do olhar dele pelo retrovisor. O vestido vermelho simples que ela usava parecia vibrar contra o couro escuro do carro luxuoso.

​Ao pararem em frente ao imenso portão da escola, o celular de Alessandro tocou. Ele franziu o cenho ao ver o nome na tela. Era uma ligação de negócios que ele não poderia ignorar.

​- Pérola, leve-os até a sala, por favor. Eu preciso atender isto. Volto em um minuto - ele ordenou, com o tom de autoridade habitual.

​- Sim, senhor - Pérola respondeu prontamente.

​Ela abriu a porta e ajudou as crianças a descerem. Maya, empolgada por ver uma amiguinha do outro lado da rua, soltou a mão de Pérola com uma rapidez impressionante. A pequena travessa avistou algo e saiu correndo em direção à faixa de pedestres, mas sua empolgação a fez não notar um carro preto que vinha em alta velocidade, dobrando a esquina sem sinalizar.

​O coração de Pérola parou por um segundo. O tempo pareceu congelar.

​- MAYA, NÃO! - o grito rasgou a garganta de Pérola.

​Sem pensar duas vezes, sem avaliar o risco ou a própria vida, Pérola se lançou no asfalto. Ela sentiu o impacto do vento do carro e, com um empurrão desesperado, jogou o corpo pequeno de Maya para a calçada segura. No segundo seguinte, o som metálico do impacto e a dor excruciante tomaram conta de tudo. O mundo girou em um borrão de asfalto quente e céu azul, até que a escuridão total a acolhesse.

​...

​O cheiro de antisséptico foi a primeira coisa que Pérola sentiu ao recobrar os sentidos. Seus olhos se abriram devagar, lutando contra a claridade excessiva do quarto de hospital. A primeira imagem que se formou foi a silhueta imponente de Alessandro. Ele estava de pé, parado junto à janela, observando o movimento lá fora. Seus ombros estavam tensos, e a camisa social estava desalinhada, algo raro para ele.

​- Maya... - a voz de Pérola saiu como um sussurro seco.

​Ao ouvir a voz dela, Alessandro virou-se instantaneamente. Seu olhar estava sombrio, carregado de uma mistura de fúria e uma gratidão que ele parecia não saber como expressar.

​- Ela está bem, Pérola. Graças a você - ele disse, caminhando até a beira da cama. - Apenas alguns arranhões superficiais no braço. Mas você... você foi imprudente.

​Pérola, movida pelo instinto e pela preocupação, tentou se levantar rapidamente.

- Eu preciso ver ela, eu... - Mas assim que tentou colocar os pés no chão, a dor em sua perna direita foi como uma facada.

​O equilíbrio falhou e ela começou a cair em direção ao piso frio. Antes que pudesse atingir o chão, os braços fortes de Alessandro a envolveram. Ele a pegou no colo com uma facilidade desconcertante, como se ela não pesasse absolutamente nada. Por um momento, o rosto dela ficou colado ao peito dele, e ela pôde ouvir o bater acelerado do coração do bilionário.

​Ele a colocou de volta na cama com uma delicadeza possessiva e segurou seus ombros.

- Fique parada! Você quebrou a perna e terá que usar muletas por semanas. O médico exigiu repouso absoluto. Você quase morreu para salvar minha filha... não se atreva a se machucar mais tentando levantar dessa cama.

​- Senhor, eu sinto muito... as despesas... eu não posso pagar por este hospital - ela murmurou, a timidez e a preocupação financeira falando mais alto.

​- Não fale de dinheiro. Eu já cuidei de tudo. Você salvou o que eu tenho de mais precioso. Agora, descanse. Tenho negócios urgentes para resolver, mas voltarei para buscar você - ele disse, dando um beijo casto e demorado na testa dela, um gesto que a deixou paralisada.

​Dois dias se passaram. Alessandro não voltou. Pérola recebia notícias pelas enfermeiras de que ele estava em reuniões de crise na empresa, mas que tudo estava pago. No entanto, o peso da dívida moral e financeira esmagava a alma simples de Pérola. Ela se sentia um fardo. Como trabalharia como babá usando muletas? Como retribuiria tamanha despesa hospitalar sendo apenas uma moça sem nada?

​Na tarde do terceiro dia, ao receber alta, o medo falou mais alto que a razão. Ela sabia que não pertencia àquele mundo de mármore e cuidados caros. Pérola pegou sua sacola de pertences humildes, assinou os papéis de saída e, mancando com o auxílio das muletas que o hospital forneceu, pegou um táxi para o único lugar que conhecia: a velha pensão onde morava antes. Ela deixou apenas um bilhete curto na recepção, dizendo que não poderia aceitar tanta caridade e que voltaria para sua vida simples.

​Algumas horas depois, a porta do quarto de hospital se abriu com estrondo. Alessandro entrou, trazendo flores frescas e uma determinação no olhar. Ele vinha buscá-la para levá-la de volta à mansão, para cuidar dela pessoalmente.

​Mas o quarto estava vazio. A cama estava impecavelmente arrumada.

​- Onde ela está? - ele perguntou à enfermeira que passava, sua voz subindo de tom, tornando-se perigosa.

​- A Srta. Pérola recebeu alta e foi embora faz duas horas, senhor. Ela só nos deixou este bilhete para o Senhor.

​Alessandro sentiu uma fúria fria subir pelo seu peito. Seus dedos se fecharam em punho, amassando o papel do prontuário e o bilhete que ela deixou.

Que estava sobre a mesa. Ela tinha fugido. Ela tinha recusado sua proteção.

​- Você acha que pode simplesmente sumir de mim, Pérola? - ele sussurrou para o quarto vazio, os olhos brilhando com uma obsessão renovada. - Eu te daria o mundo por ter salvo minha filha... mas agora que você fugiu, eu vou te caçar até o fim do mundo. E quando eu te encontrar, você vai descobrir que minha gratidão pode ser tão implacável quanto a minha fúria.

​Ele pegou o celular e discou para seu chefe de segurança.

- Encontre-a. Agora. E não me importa o que tenha que fazer... tragam-na de volta para casa. Ela pertence a mim.

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