03. O DESPERTA SOB O OLHAR DO REI

Capítulo 3: O despertar sob o olhar do rei

​A luz do sol invadiu o quarto de Pérola de forma mansa e intrusiva, denunciando que a noite de insônia havia terminado.

Ela acordou com o coração ainda agitado pelas lembranças do encontro na sala. Os pensamentos que ele pareceu escutar

— chamando-o de atraente

— ecoavam em sua mente como um martelo. “O que ele deve estar pensando de mim?”, ela se perguntava, sentindo o rosto esquentar sob o lençol de seda. Aquele homem trazia uma intensidade que ela nunca tinha experimentado antes, algo que a assustava e a fascinava ao mesmo tempo.

​Pérola levantou-se e caminhou até o armário, sentindo o chão frio de madeira sob seus pés descalços. Ela ignorou as peças mais sofisticadas e pegou o vestido vermelho que ele havia mencionado. Não era um vestido de gala; era um modelo simples, de algodão macio que ia até os joelhos, com mangas curtas e um corte que se ajustava ao seu corpo sem ser vulgar. Era a cor que incomodava sua timidez; o vermelho era vibrante, vivo, algo que ela nunca usaria em sua vida comum na pensão. Enquanto vestia a peça, sentiu como se estivesse se despindo de quem era e assumindo uma nova identidade, uma que Alessandro parecia querer moldar.

​Após prender o cabelo em um coque simples, deixando apenas alguns fios soltos para moldar o rosto, ela desceu. Pérola não precisava de maquiagem; sua beleza vinha daquela pureza que Alessandro tanto notara. Ao passar pelo corredor, ela se olhou rapidamente em um espelho antigo e sentiu um calafrio. O vermelho do vestido destacava sua pele clara, tornando-a impossível de ignorar.

​Ao chegar à sala de jantar, a cena era digna de um comercial de família perfeita, se não fosse pela energia densa que emanava da cabeceira da mesa. O ambiente era amplo, com janelas do chão ao teto que revelavam um jardim impecável lá fora, mas Pérola sentia como se estivesse entrando em uma gaiola dourada. Alessandro estava lá, impecável em uma camisa social azul-marinho, lendo o jornal enquanto tomava café. Ao seu lado, as crianças, Enzo e Maya, comiam frutas e cereais em silêncio, intimidatos pela presença imponente do pai.

​Quando os sapatos de Pérola tocaram o assoalho de mármore, Alessandro baixou o jornal lentamente.

​Seu olhar não foi um simples cumprimento. Foi como se ele a estivesse fuzilando. Ele percorreu cada centímetro do vestido vermelho, subindo pelas curvas sutis de Pérola até parar em seus lábios e, finalmente, em seus olhos tímidos. Ele não disse "bom dia". Ele apenas a observou com uma intensidade sombria, um desejo que brilhava no fundo de suas pupilas como brasas escondidas. O ar na sala pareceu rarefeito, e Pérola sentiu um nó na garganta. Ele não via apenas uma babá; ele via algo que ele desejava possuir.

​— Bom dia...

— Pérola disse, com a voz quase sumindo. Ela se sentia pequena sob aquele escrutínio, como se estivesse despida diante dele.

— Desculpem o atraso.

​— Sente-se, Pérola

— Alessandro ordenou. Sua voz estava mais rouca do que o normal, profunda e vibrante. Ele não desviou o olhar nem por um segundo, mesmo quando ela caminhou até a cadeira oposta a ele.

​Pérola sentou-se à mesa, sentindo-se estranhamente desconfortável, como se estivesse sob os holofotes de um palco, sem saber o roteiro. Ela não entendia por que ele a olhava daquela forma tão fixa, quase agressiva. “Será que o vestido está feio? Será que estou agindo errado?”, pensou ela, confusa. Na sua inocência, ela achava que ele talvez estivesse julgando sua aparência simples ou procurando algum erro em sua postura. Ela não captava a "maldade"

— ou melhor, a fome

— que havia naquela observação. Ela era humilde demais para entender que, para Alessandro, ela não era apenas a babá; ela era o novo objeto de sua obsessão.

​— Você fica... adequada de vermelho

— ele disse finalmente, as palavras saindo devagar, como se ele estivesse saboreando cada sílaba, testando o efeito delas sobre ela.

​— Obrigada, Sr. Alessandro. Eu não costumo usar cores assim, mas o senhor me ordenou...

— ela respondeu, baixando os olhos para o prato, tentando fugir daquele magnetismo perigoso. Suas mãos tremiam levemente enquanto ela segurava a colher.

​— Papai, a Pérola parece uma princesa de morango!

— Maya exclamou, quebrando a tensão e arrancando Pérola de seus pensamentos caóticos.

​Alessandro finalmente desviou o olhar para a filha, e a mudança foi instantânea. O brilho predatório deu lugar a um carinho profundo. Ele acariciou o rosto da pequena com uma doçura que fez o coração de Pérola saltar. Era assustador o quão rápido ele podia alternar entre o monstro e o homem amoroso.

​— Sim, meu amor. Ela parece

— ele respondeu, mas logo voltou a fuzilar Pérola com os olhos.

— Mas lembre-se, Maya, princesas precisam seguir regras para não perderem a coroa.

​O café da manhã seguiu com Alessandro alternando entre o pai superprotetor, que limpava o canto da boca do filho e perguntava sobre os desenhos de Maya, e o homem obcecado que, a cada vez que Pérola levava a xícara aos lábios, parecia querer devorá-la com os olhos. Cada gesto dela parecia ser monitorado. Ela mal conseguia comer, sentindo que a qualquer momento ele poderia dizer algo que a deixaria ainda mais sem jeito. O medo misturava-se com uma curiosidade insaciável sobre o que ele realmente sentia.

​— Depois do café, vamos levar as crianças à escola

— Alessandro disse, levantando-se e caminhando até ela. Ele parou atrás da cadeira de Pérola e inclinou-se, apoiando as mãos no encosto, invadindo o espaço pessoal dela. O perfume caro dele a envolveu, fazendo sua cabeça girar.

— E não mude de roupa. Eu quero poder te enxergar de longe entre as crianças e pais em frente à escola. O vermelho facilita o meu trabalho de... vigiar o que é meu.

​Ele saiu da sala sem esperar resposta, deixando Pérola ali, paralisada, com o rosto ardendo e o coração disparado, tentando entender o que ele quis dizer com "o que é meu". Para ela, ele estava apenas sendo um patrão rigoroso e controlador. Mal sabia ela que a rede de Alessandro já estava se fechando ao seu redor, e que o vermelho que ela vestia era, na verdade, um sinal de alerta que ela não conseguia ler.

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