Seis meses antes…
Meu dia começa como qualquer outro.
Sem grandes emoções. Sem surpresas. Sem saber que, em poucas horas, tudo o que eu conhecia como vida estava prestes a mudar.
Eu acordo ainda com o som distante da cidade despertando. O sol invade o quarto de forma tímida, aquecendo levemente minha pele. Fico alguns segundos olhando para o teto, reunindo energia para levantar.
Rotina.
É nisso que minha vida se resume.
Levanto, sigo para o banheiro e tomo um banho demorado. A água quente desliza pelo meu corpo, relaxando meus músculos, preparando-me para mais um dia comum.
Depois, me visto.
Minha calça legging preta se ajusta perfeitamente ao meu corpo. O all star confortável já gasto pelo uso constante. A baby look branca modelo polo, com o logo bordado do café onde trabalho.
Passione Dolce Caffè.
Só de ler o nome, um leve sorriso surge nos meus lábios.
Eu gosto de lá.
Arrumo meu cabelo com cuidado, prendendo em um coque alto, deixando alguns fios soltos propositalmente. Um toque despojado, mas ainda assim elegante.
Uma maquiagem leve.
Natural.
Impecável.
A Sra. Germana sempre diz:
— Aparência vende, minha querida. E beleza atrai cliente.
E ela não está errada.
Respiro fundo, pego minha bolsa e saio.
O caminho até o café é curto. Apenas três quadras. Eu poderia ir de carro, mas gosto de caminhar. Me ajuda a pensar. A organizar a cabeça.
Ou pelo menos… ajudava.
Estou distraída, olhando vitrines, sentindo o vento leve tocar meu rosto, quando tudo acontece.
Rápido demais.
Uma bicicleta surge em alta velocidade na minha direção.
Eu me assusto.
Dou um passo para trás, tentando desviar.
Mas erro.
Meu pé escorrega da calçada… e eu vou parar direto na rua.
E é aí que eu vejo.
Um carro.
Vindo.
Rápido.
Meu coração dispara.
O barulho do freio ecoa alto demais, estridente, cortando o ar.
Por um segundo… eu acho que é o fim.
Mas o carro para.
A centímetros de mim.
O impacto não vem.
Só o susto.
Minhas pernas falham e eu acabo sentada no chão, completamente sem reação.
O mundo parece girar devagar.
O carro desliga.
A porta se abre.
E alguém desce.
— Você está bem?
A voz masculina me alcança antes mesmo de eu conseguir reagir.
Eu levanto o rosto lentamente.
E então…
Eu vejo.
Meu fôlego some.
Não é exagero.
Não é impressão.
É como se… toda a beleza do mundo tivesse sido concentrada em uma única pessoa.
Alto.
Imponente.
Traços marcantes.
Olhos verdes escuros que parecem me atravessar.
Ele me encara em silêncio por alguns segundos, tão surpreso quanto eu.
Então ele pisca, como se voltasse à realidade.
Estende a mão para mim.
Mas eu não consigo reagir.
Só fico olhando.
Paralisada.
Ele suspira, claramente perdendo a paciência com meu estado.
Então se abaixa.
E me pega no colo.
Sem esforço.
Como se eu não pesasse nada.
Meu corpo reage antes da minha mente.
Um arrepio percorre minha pele inteira.
— Você está bem… anjo?
A forma como ele fala…
Baixa.
Rouca.
Íntima demais para um estranho.
Eu apenas balanço a cabeça, confirmando.
Ele me leva até o carro, abre a porta do passageiro e me coloca no banco com cuidado. Puxa o cinto de segurança e prende em mim.
Eu acompanho cada movimento.
Cada detalhe.
Cada gesto.
Ainda sem conseguir processar nada.
Ele dá a volta e entra no carro.
É aí que minha mente finalmente desperta.
Eu tento destravar o cinto.
— O que você está fazendo, anjo?
A voz dele me faz parar.
— Eu… eu não posso entrar no seu carro assim — digo, ainda tensa — eu nem te conheço.
Ele me observa.
Intensamente.
Seus olhos passam pelo meu rosto devagar.
Olhos.
Boca.
Como se estivesse me estudando.
Memorizando.
— Você tem duas opções — ele diz, sério — me deixa te levar para o hospital… ou fica por aí sangrando.
— Sangrando?
A palavra ecoa na minha cabeça.
Então olho para o meu braço.
E vejo.
O sangue.
Descendo devagar.
— Meu Deus…
Minha visão começa a falhar.
— Eu… eu—
Eu ia avisar que ia desmaiar.
Mas não deu tempo.
A escuridão me levou antes.
Quando acordo, estou deitada.
Em uma cama.
Branca.
Limpa.
Cheiro de hospital.
Levo alguns segundos para entender onde estou.
Então eu o vejo.
De costas.
Parado em frente à janela.
Ao telefone.
Mesmo assim… impossível não reparar.
Alto.
Muito alto.
O terno perfeitamente ajustado ao corpo, marcando a largura das costas, a firmeza das pernas.
Ele é… absurdo.
— Imprevisto — ele diz ao telefone.
A voz é firme. Autoritária.
Alguém responde do outro lado.
Ele fica em silêncio por um momento.
E então completa:
— Essa merda vai acontecer em seis meses. Tem tempo. Resolve isso. Eu estou ocupado.
Ele desliga.
E nesse momento… eu me mexo.
O colchão faz um leve som.
Ele se vira.
E quando nossos olhares se encontram…
Eu prendo a respiração.
Os olhos verdes escuros me encaram de novo.
Agora mais intensos.
Mais atentos.
— Você acordou — ele diz, aproximando-se. — Está bem, Lizy?
— Como você sabe meu nome?
— Sua identidade estava na sua bolsa — ele responde naturalmente. — Eu precisava te identificar.
Eu apenas balanço a cabeça.
Ainda tentando entender tudo.
— Obrigada… por me ajudar.
Ele dá de ombros.
— Você precisa tomar mais cuidado. A bicicleta bateu no seu braço. Você levou cinco pontos.
— Eu nem senti…
Ele me observa.
Como se estivesse analisando cada reação minha.
— Como você se chama? — pergunto.
Ele hesita.
Por um segundo.
Como se dizer o nome fosse… revelar demais.
— Dante.
O nome escapa dos lábios dele.
E parece… perigoso.
— Dante… — repito, quase em um sussurro.
Ele continua me olhando.
Sem desviar.
— Se você estiver bem, já podemos ir — ele diz.
— Não precisa se incomodar, eu posso ir sozinha…
Ele sorri de canto.
Um sorriso pequeno.
Mas carregado de algo que eu não sei explicar.
— Eu não faço nada pela metade, anjo.
Ele me ajuda a levantar.
E quando me toca…
Meu corpo inteiro reage.
Um arrepio sobe pela minha coluna, lento, intenso.
Perigoso.
Nós saímos do hospital.
Entramos no carro novamente.
O silêncio entre nós não é desconfortável.
É… carregado.
— Seu endereço, Lizy?
Eu passo.
Ele dirige.
Seguro.
Confiante.
Como se tivesse controle absoluto de tudo.
Quando chegamos, ele para em frente ao meu prédio.
Eu me preparo para descer.
Mas ele fala antes.
— Você tem namorado?
Eu travo.
— O quê?
— Tem ou não?
A forma direta me desarma.
— Não…
Ele se inclina na minha direção.
Meu coração dispara.
Ele alcança o cinto… destrava.
Mas não se afasta.
Pelo contrário.
Se aproxima ainda mais.
Eu sinto a respiração dele perto do meu rosto.
O cheiro.
A presença.
Tudo.
— Porque eu quero você… — ele sussurra, no meu ouvido.
Minha pele arrepia inteira.
— Mas você não pode se apaixonar.