Mundo de ficçãoIniciar sessãoO padre repete a pergunta.
A voz dele ecoa pela igreja, mas para mim soa distante, como se estivesse submersa em água. Tudo ao meu redor desacelera, os olhares, os sussurros, até mesmo minha própria respiração. — Dante Ferraro, você aceita receber Stella De Lucca como sua esposa? Dessa vez… ele responde.E continua olhando para mim.
Eu não desvio. Não consigo. Os olhos dele estão presos nos meus como se o resto do mundo tivesse deixado de existir. E ali, naquele instante, eu vejo tudo o que ele tenta esconder. Raiva. Dor. E algo que parece… desespero. Mas então ele fala. — Eu aceito! É como um tiro.Silencioso.
Fatal. Meu coração falha uma batida, depois outra… e então simplesmente continua, como se nada tivesse acontecido. Mas eu sei que aconteceu. Eu fecho os olhos por um breve momento, como se isso pudesse conter o impacto. Não contém. Quando abro novamente, ergo o queixo, reúno o pouco de dignidade que ainda me resta… e dou meia-volta. Sem olhar para trás. Sem hesitar. Eu saio da igreja. Deixando para trás o homem que arranca meu fôlego. O homem que eu amo. Do lado de fora, o ar fresco me atinge como um choque. Eu paro. Levo alguns segundos para respirar. Um. Dois. Três. Mas o ar não entra direito. Meu peito está pesado, apertado, como se algo estivesse esmagando tudo por dentro. Estou a alguns metros da entrada da igreja, quando sinto uma presença. Um homem se aproxima. Alto. Bem vestido. Atraente. Mas há algo nele que me incomoda… algo no olhar. — Você está bem? A voz é... Cuidadosa demais. Eu apenas faço que sim com a cabeça. Não confio na minha voz naquele momento. Ele me observa. Por tempo demais. E quando percebe que eu vou recuar, vou me afastar… ele fala novamente: — Eu sinto muito, Lizy… mas você não sabe em que mundo se meteu! Meu corpo trava. — Como você... Não tenho tempo para terminar. Tudo acontece rápido demais. Ele me puxa. Uma mão forte cobre minha boca, abafando qualquer tentativa de grito. Eu me debato. Tento lutar. Mas ele é mais forte. Muito mais. Sinto algo pressionando meu nariz. Um cheiro estranho. Químico. Meu corpo começa a fraquejar. Minha visão escurece nas bordas. E a última coisa que eu sinto… é o pânico. Então tudo fica preto. Quando acordo, minha cabeça lateja. Minha boca está seca. E meu corpo… pesado. Eu demoro alguns segundos para entender onde estou. Estou deitada. Em uma cama. O quarto é estranho. Grande, elegante, mas frio. Então eu tento me mexer. E percebo. Meus braços estão presos. Algemados na cabeceira da cama. O pânico volta com tudo. — Socorro! — minha voz sai rouca, desesperada. — Socorro! Eu me debato. Chuto. Tento soltar os pulsos. Mas é inútil. A porta se abre. E ele entra. O mesmo homem. Calmo. Como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. — Quem é você? — minha voz treme. — Por que eu estou aqui? Ele não responde de imediato. Apenas me observa. De cima a baixo. Eu sigo o olhar dele e percebo. Meu vestido subiu. Está preso nas minhas coxas, alto demais. A exposição me faz sentir vulnerável. Exposta. Pequena. Ele demora alguns segundos a mais do que deveria olhando… e então sorri. Um sorriso frio. Calculado. — Eu queria tanto ver a reação do Dante… quando ele visse o anjo dele amarrado na minha cama. Meu estômago está embrulhado. — Eu não tenho nada a ver com ele! — digo rapidamente, a voz saindo mais alta do que eu pretendia. — Você pegou a pessoa errada… ele se casou! Ele ri. Uma risada baixa, divertida. — Se eu sequestrasse a esposa dele… estaria fazendo um favor. Meu coração acelera.— Mas você…
Ele continua, inclinando levemente a cabeça.
— Você vai fazer ele perder a mente.
Eu fico em silêncio. Não sei o que dizer. Não sei o que fazer. — Quer saber? — eu solto de uma vez, engolindo o medo. — Tanto faz. Você vai fazer o quê? Me machucar? Minha voz falha na última palavra. Mas eu continuo. — Vai me estuprar? O olhar dele muda. Não fica mais suave. Mas fica… diferente. — Eu tenho esposa — ele diz, sério. — E uma irmã. Ele dá um passo mais perto. — Eu não machuco mulheres. Eu não sei se isso me alivia. Ou se me assusta ainda mais. — Você vai ser só uma isca — ele completa. — Para atrair o Dante. Ele se afasta um pouco, como se a conversa tivesse terminado. — Então se comporte. — E coopere comigo. Ele fala algo em italiano. A porta se abre novamente. Outro homem entra. Segurando um celular. — Pronto pra filmar?O primeiro pergunta.
— Sim !O outro responde.
Meu coração dispara. — Aliás… — o homem volta a olhar para mim — meu nome é Matteo. Matteo se senta ao meu lado na cama. Perto demais. O outro homem levanta o celular. E começa a gravar. — Oi, Dante… — Matteo fala, com um sorriso irônico. — Olha só com quem eu estou. Ele segura meu rosto, me obrigando a olhar para a câmera. — Lizy. Eu viro o rosto, tentando escapar. — Você tem bom gosto, Dante… A mão dele desce pela minha lateral, me prendendo no lugar. — Não me toque!Eu digo, me debatendo.
Ele ignora. Aperta minha perna com força, me impedindo de me mexer. Eu sinto o desespero crescendo dentro de mim. — Sabe o que, Dante?Ele continua, olhando para a câmera .
— Eu vou adorar foder ela!
A ameaça está ali.
Clara. Pesada. Mas ele não vai além. Não naquele momento. Ele apenas riu. E faz um gesto para o outro homem encerrar a gravação. O celular abaixa. O quarto volta ao silêncio. As lágrimas começam a cair. Lentas. Quentes. Sem controle. — Tá tudo bem, Lizy — Matteo diz, como se aquilo fosse verdade. — Eu não vou te machucar. Eu não acredito. Não consigo. De repente, um barulho do lado de fora. Vozes. Um tumulto. — Senhora, não entre aí! — alguém grita. Mas é tarde demais. A porta se abre com força. E ela entra. Uma mulher. Linda. Morena. Os olhos cheios de fogo. Ela me vê. Depois olha para Matteo. E tudo explode. — Seu filho da puta! Ela avança sobre ele sem hesitar. Começa a bater no peito dele, empurrá-lo, completamente fora de controle. — Amor, calma — Matteo segura os braços dela, tentando contê-la. Amor. A palavra ecoa na minha cabeça. Então ela é a esposa.Ela continua se debatendo, tentando se soltar.
— Você enlouqueceu?! — ela grita. — Tira ela daqui — Matteo ordena, já sem paciência. Dois homens entram rapidamente e puxam a mulher para fora. Ela ainda tenta resistir. Ainda tenta voltar. Mas desaparece pelo corredor. A oferta se fecha. O silêncio volta. Mais pesado do que antes. Matteo passa a mão no rosto, irritado. E então sai. Como se eu não fosse nada. Como se eu fosse só… um objeto.E nesse momento sou.
E então eu vejo. O celular. Ele ficou na cama. Ao meu lado. A tela acende. E começa a tocar. Uma vez. Duas. Três. Insistente. Eu viro o rosto. E leio o nome no visor. Dante. Meu coração dispara.Mais forte do que nunca.
Ele recebeu o vídeo. Ele viu. Ele sabe. E agora.. Ele está ligando. O telefone continua tocando...






