O tempo não passou. Ele estagnou, transformando-se em uma sucessão de momentos cinzentos e mecânicos.Eu não chorava mais. As lágrimas tinham secado na noite em que o mundo acabou, deixando apenas uma crosta de sal e uma secura eterna na minha garganta. O enterro foi um borrão de terra úmida, flores brancas que pareciam artificiais e o som oco da pá atingindo o caixão. Eu estava lá, de preto, com o rosto impassível, cumprindo os rituais que a sociedade exigia, mas minha alma não estava presente. Ela tinha ficado presa na sala de estar, naquela cadeira de balanço, para sempre.A burocracia pós-morte foi o que me manteve funcionando. Certidões, papéis, repartições públicas, filas. Eu me movia como um autômato. Minhas mãos assinavam documentos, meus pés me levavam de um lado para o outro, minha boca respondia o necessário com uma voz monocórdica que eu não reconhecia. Era uma catatonia funcional. Eu era um espectro vivendo entre os vivos.Ninguém me procurou. Nenhum telefonema, nenhuma m
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