Maria Clara passou o dia inteiro com o coração apertado, como se cada revelação trazida por Doralice tivesse se alojado em seu peito, sem encontrar saída. Tentou, por diversas vezes, concentrar-se no planejamento das aulas de Helena e Thomas, revisou cadernos, alinhou horários, fez anotações, mas as palavras pareciam embaralhadas, e os pensamentos insistiam em retornar à mesma imagem dolorosa.Mentalmente, revivia a cena narrada por Doralice com uma nitidez cruel. Via Helena ainda tão pequena, os olhos atentos demais para a idade, testemunhando o que nenhuma criança deveria ver. E, ao mesmo tempo, enxergava Álvaro, endurecido pela culpa, consumindo-se aos poucos, prisioneiro de um passado que não podia ser desfeito.Quando se deu conta, seus passos a haviam conduzido até a porta de folhas duplas do salão de música. Sabia que estava trancada, mas ainda assim levou a mão e testou a maçaneta. Depois encostou a testa e o rosto na madeira. Fechou os olhos, como se tentasse ouvir algum ec
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