O sonho vinha em fragmentos.Marcelo nunca sonhava de forma linear. Eram imagens quebradas, sensações soltas, pedaços de memória que surgiam sem aviso e desapareciam antes que ele pudesse organizá-los. Naquela noite, porém, algo foi diferente. O sonho não se dissolveu ao acordar. Ficou.Ele estava de novo no pátio da escola.O chão era áspero, o sol forte demais, o barulho alto demais. Crianças corriam, gritavam, riam. Marcelo estava ali, pequeno, magro, com o estômago doendo de fome. Reconhecia aquela dor. Não era novidade. Era rotina.E então ele via Raquel.Não a Raquel adulta. A menina.Ela sentava-se no banco de sempre, abrindo a lancheira com calma. Dentro, coisas que para Marcelo pareciam luxo: pão macio, recheios generosos, frutas cortadas com cuidado, às vezes um doce embrulhado em papel colorido. Tudo tinha cheiro. Tudo parecia quente, vivo, abundante.Marcelo sentia o ódio subir — mas, no sonho, ele
Ler mais