Raquel sempre acreditou que conhecia o próprio reflexo. Durante anos, aprendera a se observar com rigor: corrigir excessos, domar impulsos, afiar estratégias. Tudo nela fora moldado para sobreviver em um mundo que a rejeitara primeiro e só depois aprendera a respeitá-la. Ainda assim, naquela fase da guerra silenciosa com Marcelo, algo começou a incomodá-la — não nele, mas nela mesma. A percepção veio aos poucos. Não foi em uma reunião, nem em uma manchete. Foi num momento banal, quase invisível. Raquel estava sozinha no escritório, revisando relatórios de auditoria, quando percebeu a própria postura: ombros tensos, mandíbula travada, olhar calculista. Havia ali uma frieza funcional, necessária. Ela reconhecia aquela mulher — fora assim que sobrevivera à infância, à humilhação, às portas fechadas. Fora assim que construíra tudo. E, de repente, percebeu: Marcelo também. A semelhança a perturbou. Ela sempre o colocara no lugar do inimigo externo, do agressor, do homem que sabotava
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