104. Quando a tranquilidade se parte
A cozinha estava tomada por uma quietude confortável, daquelas que não exigem palavras para serem preenchidas. Eu estava sentada sobre a bancada de mármore, com o notebook aberto à minha frente, embora minha atenção estivesse dividida entre a tela e os movimentos precisos de Kairos diante do fogão. Ele preparava o jantar com uma naturalidade que sempre me surpreendia, como se cada gesto tivesse sido ensaiado pela própria vida para se encaixar naquele instante específico. Observá-lo era um exercício involuntário. Kairos cortava os ingredientes com concentração absoluta, os dedos firmes segurando a faca, o pulso seguro, a postura ereta. Não havia pressa em seus movimentos, tampouco descuido. Cada alimento era tratado com respeito, como se até o preparo de um simples macarrão ao molho branco merecesse atenção total. Ele parecia dominar tudo o que fazia — não apenas no trabalho, não apenas nos grandes negócios que o cercavam, mas também ali, naquele espaço íntimo, doméstico, silencioso.
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