Clarice O dia seguiu com uma normalidade quase enganosa — daquelas que parecem simples demais para serem verdadeiras. Trabalhei até o início da tarde, mantendo as mãos ocupadas numa tentativa consciente de acalmar a mente. Examinei bezerros, ajustei medicações, revisei anotações antigas da fazenda. Cada tarefa era um ponto de ancoragem, algo concreto para me impedir de pensar demais. John respeitou meu silêncio, e isso dizia muito sobre ele. Não se afastou, mas também não invadiu. Circulava por perto, atento, como quem vigia sem sufocar, como quem cuida sem prender. Aurora passou boa parte do tempo comigo. Em certo momento, sentou-se na cerca enquanto eu cuidava de uma ovelha arisca, balançando as pernas no ar. O sol iluminava o rosto dela de um jeito quase irreal, e, de repente, veio a pergunta — simples, direta, séria demais para alguém tão pequena. — Você já teve uma casa antes daqui? — quis saber, inclinando a cabeça, curiosa. Minhas mãos continuaram trabalhando, mas por dentr
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