Mundo de ficçãoIniciar sessão“Algumas linhas não são cruzadas com passos, mas com a consciência de que já não há retorno.”
O corredor pareceu encolher de vez.
Eu sentia o frio da parede atravessar o tecido da camisola, contrastando com o calor que vinha dele, uma presença tão próxima que alterava o ar, a temperatura e o ritmo do meu próprio corpo. O mundo parecia ter se reduzido àquele espaço estreito, àquela distância perigosa demais para ser confortável e curta demais para ser ignorada.
O silêncio entre nós permanecia, mas não era um silêncio desagradável, era como se qualquer palavra errada pudesse quebrar aquele momento que não deveria nunca acontecer.
Ele não avançou mais, mas também não se afastou.
Os olhos de Ethan subiram lentamente, encontrando os meus outra vez, e ali não havia autoridade, nem frieza. Havia um conflito exposto sem defesas, como se aquela proximidade tivesse arrancado dele todas as camadas que usava para se proteger do mundo.
Eu conseguia ouvir a respiração dele. Controlada demais para ser natural e tinha certeza de que ele também podia ouvir a minha.
Meu coração batia rápido, descompassado, denunciando uma vulnerabilidade que eu não queria admitir nem para mim mesma. Não tinha medo do homem à minha frente. Tinha medo do que aquele momento despertava em mim, da facilidade assustadora com que eu deixava de lembrar quem ele era, e quem eu deveria ser ali.
Ele inclinou levemente a cabeça, não o bastante para tocar, mas o suficiente para que seu perfume me envolvesse por completo. Podia sentir o hálito quente no meu rosto e por uma fração de segundos, quase fechei os olhos.
— Ele se apega fácil — murmurou, como se continuasse um pensamento que vinha sendo guardado há tempo demais. — E sofre em silêncio. Igual…
Ele interrompeu a própria frase, fechando os lábios num gesto contido, e eu soube que aquele “igual” não era sobre Noah, era sobre ele.
Houve um segundo em que meu corpo esqueceu como reagir. Ao mesmo tempo, senti uma pontada incômoda no peito. Uma mistura de empatia e alerta. Porque havia algo perigosamente íntimo naquele instante, algo que não deveria existir entre um homem como ele e uma mulher na minha posição.
— Eu jamais faria algo que o machucasse — respondi, com a voz mais baixa do que pretendia. — Nem ele… nem a você.
A frase escapou antes que eu pudesse segurá-la.
Os olhos dele se estreitaram por um breve instante, como se ele tivesse entendido que eu enxergava mais do que ele gostaria e foi quando ele se aproximou mais um centímetro, o suficiente para que eu prendesse a respiração.
— Por favor, Amélia… cuide bem do meu filho. — ele disse, baixo.
O pedido veio baixo demais para ser uma ordem, e ainda assim pesado o suficiente para me atravessar.
Ele não levantou a voz. Havia algo no jeito como Ethan mantinha o corpo imóvel, que transformava aquela súplica em um limite claro demais para ser ignorado.
Seus olhos não se afastaram dos meus.
E a sua frase ecoou dentro de mim com um peso inesperado. Não porque fosse injusta, mas porque revelava algo que ele jamais colocaria em palavras de outro modo: a fragilidade absoluta daquele pedido. Ethan Harrington não pedia. Ele controlava. Ele decidia. E ainda assim, ali, diante de mim, havia um homem que não tinha poder algum sobre o que mais temia perder.
Minha garganta se fechou por um instante, antes de responder. Senti o coração acelerar de um jeito desconfortável, como se meu corpo entendesse a gravidade da situação antes mesmo da minha mente organizar uma resposta adequada.
— Eu só entrei para trabalhar… — comecei, escolhendo as palavras com cuidado, como quem caminha por um terreno instável.
Ele respirou fundo, e por um instante tive a impressão de que lutava contra algo que queria emergir, como raiva, desespero, talvez os dois. Quando falou novamente, sua voz veio mais firme, mas os olhos continuavam presos aos meus, intensos demais para mentirem.
— Não…. — ele corrigiu, com os olhos presos nos meus. — Você entrou onde ninguém entra mais. E o coração do meu filho, é um lugar sagrado.
A palavra sagrado ficou suspensa entre nós, carregada de significado. Não era exagero, muito menos drama. Noah não era apenas uma criança sob seus cuidados, era o último território onde Ethan ainda acreditava que algo podia permanecer intacto.
O coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele podia ouvir.
Levei a mão ao próprio peito num gesto quase involuntário, tentando controlar a respiração, tentando ancorar meu corpo naquele corredor estreito que parecia ter diminuído de tamanho desde que ele havia se aproximado. O espaço entre nós era mínimo demais para ser confortável, grande demais para ser seguro.
— Senhor Harrington… — chamei, buscando apoio na formalidade, como se ela pudesse me proteger do que estava acontecendo ali.
— Ethan.
O nome caiu entre nós como um deslocamento silencioso. Um instante em que a distância hierárquica cedeu espaço a algo mais perigoso, como a proximidade humana.
Ele desviou os olhos até os meus lábios e naquele pequeno instante, eu desejei que ele me beijasse. Mas então ele piscou, recuando um passo, como quem volta de um lugar escuro. Endireitou a postura e vestiu novamente a sua armadura.
— Volte para o seu quarto, senhorita Clark — disse, já distante. — Amanhã começa cedo.
Ele se virou e foi embora.
Fiquei encostada na parede, tentando lembrar como se respirava. Porque naquele instante eu tive certeza de que aquela casa não dormia, nem aquele homem. E, pela primeira vez desde que aceitei aquele emprego, soube que não seria o silêncio que me colocaria em perigo, seria a minha incapacidade de fingir, a partir do dia seguinte, que nada havia acontecido.







