Alexia Clark
Mott Haven, bairro no sul do Bronx
Termino de comer uma fatia de torrada e pego uma maçã para comer no caminho para o trabalho.
Ao sair, verifico se tranquei mesmo a porta do meu cubículo.
Se roubarem as poucas coisas que tenho, vou demorar uma eternidade para comprar outras. Estou mergulhada na pindaíba.
Caminho durante sete minutos e chego à lanchonete do Bob.
Ele não paga uma fortuna, mas o salário e as gorjetas ajudam a não deixar a gente morrer de fome.
O que realmente me preocupa é não ter dinheiro para pagar o tratamento da minha tia, que foi diagnosticada com câncer no fígado há cinco meses. Estamos dependendo de doações de estranhos.
Vou para a pequena área feminina e visto meu uniforme horrível laranja e verde, com um chapéu verde na cabeça.
Me sinto uma garçonete dos anos 70.
— Bom dia, flor. Quando vai dar uma chance pro nosso amor?
Sorrio. Jonathan, o cozinheiro, sempre brinca que é apaixonado por mim.
— Esqueceu que da fruta que eu gosto você come até o caroço?
— Vamos dar um jeito, linda...
— Vá cozinhar, palhaço. Bob é boa gente, mas sabe que ele não gosta que a gente fique de papo na hora do trabalho.
Ajeito meu uniforme e planto um sorriso nos lábios.
Contudo, quando vejo tio Fernando, o sorriso morre.
Vou até ele.
— O que veio fazer aqui?
Ele toca no bigode. É uma mania que o traste tem quando está tramando algo.
— É assim que trata os clientes, sobrinha?
— Fernando, eu preciso desse emprego para pagar as contas. Por favor, se não vai me ajudar, não atrapalhe.
— Eu vou ajudar, Alexia. Não sou um monstro.
Tento acreditar.
Puxo uma cadeira e me sento.
— Você tem dez minutos.
— Tenho um amigo que tem uma boate. Ele vai pagar 100 mil dólares se você dormir com um cliente que quer muito uma virgem.
Faço um grande esforço para não socar seu rosto e arrancar o bigode nojento.
— Enlouqueceu de vez? Eu não vou transar com um velho pervertido por dinheiro.
— Deixa de ser burra, garota. Aquela velha está doente. Sei que está apertada com as contas. 50 mil pra você e 50 pra mim.
Me levanto.
— Coloca uma coisa na sua cabeça: eu não me vendo por valor nenhum. Pode ser 200 mil dólares, 900 ou 10 milhões. Meu corpo não está à venda! Entendeu? Some da minha frente.
— Boa sorte, vadia. Vai precisar!
Diz e sai.
Solto um suspiro cansado.
Meu pai morreu quando eu era só um bebê. Minha mãe era uma mulher linda que não tinha nenhuma vocação para a maternidade.
No dia do meu aniversário de sete anos, ela foi presa pelo assassinato de uma mulher importante da alta sociedade.
Morreu dois meses depois por conta de um incêndio que teve no presídio.
Desde então, somos só eu e minha tia Margareth. Tio Fernando nunca nos ajudou com nenhum centavo.
E ainda tinha a cara de pau de pedir dinheiro.
Fernando não tem coração!
Paro de pensar na minha vida e vou servir os clientes.
— Ei, garçonete, meu bife está cru.
Forço uma expressão simpática e vou atender o cliente mais chato que já vi.
— Eu vou trocar. Sinto muito pelo erro.
Se não fosse por minha tia, eu já teria pedido demissão e sumido no mundo.
Quando chega a hora do almoço, como o meu macarrão com almôndegas.
Meu celular vibra.
Reviro os olhos só de ver a foto de Tomás, meu ex-namorado.
Nem chegou a ser um namoro.
Eu estava muito abalada após descobrir o câncer de tia Margareth e o canalha se aproveitou da situação.
Me entreguei e, no dia seguinte, ele me deu um belo chute na bunda.
Atendo.
— O que porra quer comigo, Tomás?
— Quero os 300 dólares que te emprestei.
— Você me deu!
— Me dê logo a merda do meu dinheiro, Alex.
— Não me chame pelo meu apelido, babaca. Não vou devolver merda nenhuma. Você me deu. Vá arrumar um emprego, vagabundo.
Uma semana depois...
Minha tia não pode continuar naquele hospital caindo aos pedaços!
Limpo as lágrimas e encaro a dura verdade.
A mulher que me ensinou tudo, infelizmente, não vai escapar do abraço da morte.
O que eu posso fazer é garantir que ela sofra um pouco menos.
É só por isso que estou em um café esperando ouvir a proposta irrecusável de Fernando.
— Olha, eu não vou me prostituir!
— A proposta é outra, bem melhor, querida.
— Também não vou transportar drogas no meu estômago.
Ele revira os olhos.
— Quer calar a boca e me ouvir?
— Pode falar.
— Meu chefe é um homem poderoso, você sabe, né?
Ele faz o serviço sujo para um homem rico.
— Ele é o quê? Um chefe de uma máfia?
— Não, ele é só um homem que tem bastante inimigos. É o seguinte: ele quer um herdeiro e você foi a escolhida para realizar o sonho dele.
— É o quê? Você está querendo que eu vá pra cama com seu chefe e engravide? Proposta recusada.
Me levanto e saio do estabelecimento.
— Alexia, você não vai transar com ninguém. Ele quer um neto. Você vai ser inseminada com o sêmen do neto dele. O velho vai pagar dois milhões. Esse dinheiro vai mudar nossa vida.
Liberto meu braço das mãos dele.
— Você é doente. Não vou vender um filho meu!
Me viro e me afasto.
— Eu mato sua tia.
Paro e me aproximo.
— Não teria coragem de matar sua irmã.
Digo, mas o seu sorriso cruel me faz ter certeza de que é capaz, sim.
— Ela vai morrer de qualquer jeito mesmo. E aí?
Solto um suspiro derrotado.
— Ok, você venceu. Eu aceito!
— Ótimo. Vai ser amanhã mesmo. Não vai se arrepender.
Pela minha tia, eu faço o que for preciso.