Capítulo 4

NO DIA SEGUINTE

Despertei com o corpo inteiramente dolorido, cada fibra do meu ser clamando pelo trauma e pelas marcas da violência sofrida no dia anterior. Antes mesmo que minha mente pudesse processar a realidade, a porta do quarto se abriu, trazendo meu pior pesadelo para dentro do meu refúgio: Alex e Felipe entraram primeiro.Tentei gritar, mas o pânico travou minhas cordas vocais; a voz simplesmente não saía. Fixando seus olhos frios em mim, Alex levou o dedo indicador aos lábios num gesto lento, ordenando meu silêncio com uma promessa implícita de mais dor se eu abrisse a boca.Logo atrás deles, a atmosfera do quarto pesou ainda mais com a entrada do meu pai, do Beta da alcateia e do médico da matilha.— Bom dia, Eliza. Sou o doutor Mauro — o médico aproximou-se da cama com passos calmos, segurando uma prancheta.

— Eu sei que você deve estar em choque, mas preciso que colabore comigo. Você se lembra de algo que aconteceu ontem? Os filhos do Alpha, Alex e Felipe, encontraram você desacordada perto do rio. O diagnóstico inicial mostra que você sofreu uma agressão brutal e foi violentada.

O médico suspirou, anotando algo na prancheta com o cenho franzido.— Algum lobo desgarrado deve ter capturado você perto da floresta — continuou o doutor Mauro. — Estamos patrulhando a região para descobrir quem fez isso, mas não encontramos nenhum rastro de cheiro ou material genético para DNA. Quem a atacou sabia exatamente como não ser pego. Talvez não tenha sido um caso aleatório, mas sim um ataque planejado... Vou deixar que você descanse. E não se preocupe: ninguém na alcateia saberá o que aconteceu, a pedido do seu pai.Lutei contra as lágrimas e olhei para o meu pai, buscando desesperadamente um vislumbre de preocupação, um traço de acolhimento ou dor em suas feições. Não encontrei nada. Havia apenas uma expressão vazia, o mesmo olhar gélido que ele sempre me direcionava — tão dolorosamente diferente do carinho e do orgulho que transbordava quando olhava para as minhas irmãs.— Eliza, amanhã você terá alta desse hospital — meu pai decretou, a voz dura e cortante como navalha. — E eu não quero ouvir nem mais uma palavra sobre o que aconteceu. Quando você completar dezoito anos e encontrar o seu companheiro de alma, diga a ele que você se envolveu com alguém no passado e deitou-se com ele por vontade própria. Se alguém me perguntar, essa será a história. Prefiro que a alcateia pense que tenho uma filha sem-vergonha do que uma vítima.

— Pai... eu não tive culpa... eu... eu não queria isso — supliquei, as lágrimas finalmente vencendo meus olhos.Mas as minhas palavras de nada adiantaram. Ele apenas me deu as costas e saiu do quarto, fechando a porta para a própria filha.Alex e Felipe, que assistiram a absolutamente tudo da entrada, caminharam calmamente até as laterais da minha cama. Eles se inclinaram em minha direção, cercando-me, e seus hálitos quentes trouxeram de volta os sussurros de puro sadismo diretamente no meu ouvido.— Não fica assim não, princesa... — ironizou Alex, com uma risadinha abafada que me fez querer vomitar. — Adorei ver como você era inocente. Quem sabe a gente não repete mais vezes?— Nem o seu próprio pai quer procurar quem fez isso com você — completou Felipe, exibindo um sorriso cruel e vitorioso. — Nem tente abrir a boca para nos dedurar para o Alpha. Ele jamais vai acreditar na garota gordinha e rejeitada da matilha, e ainda vai expulsar você e toda a sua linda família daqui por calúnia. Se você ousar falar qualquer coisa, nós temos um vídeo seu daquela tarde... Uma gravação que vai acabar com o resto da dignidade que sobrou em você. Hahaha!

Felipe falava enquanto afastava uma mecha de cabelo de trás da minha orelha com a ponta dos dedos frios, fazendo meu corpo inteiro se arrepiar de puro nojo.Eu queria morrer. Queria sumir da face da terra. Virei-me para o outro lado da maca do hospital, puxando a coberta até cobrir completamente a cabeça. Eu não queria mais escutá-los, não queria ver ninguém. Só queria, com todas as minhas forças, que tudo aquilo fosse apenas um terrível pesadelo.

Assim que saí do hospital, fui direto para casa. Meu pai já havia espalhado a mentira de que eu estava apenas gravemente doente. No segundo em que pisei para dentro, caminhei em silêncio até o meu quarto e tranquei a porta; não queria falar com ninguém, só precisava de distância de todo o mundo.Depois de conseguir apagar por algumas horas em um sono agitado, resolvi tomar um banho. Aquela foi a primeira vez que me encarei no espelho após o ataque. Meu reflexo me devolveu uma imagem devastadora: meu corpo estava coberto de hematomas, mordidas e marcas roxas. Só de olhar, um pavor gélido arrepiou minha pele. O que deveria ter sido uma experiência sagrada e especial no meu futuro havia se transformado no pior pesadelo da minha vida. Eu me sentia completamente imunda.Entrei debaixo do chuveiro e abri a água quente. Comecei a esfregar a minha pele com força, com a bucha áspera, como se de alguma forma eu pudesse arrancá-la dali. Queria apagar cada lembrança, cada toque nojento. Desejei com todas as minhas forças perder a memória, esquecer tudo e voltar a ser a garota que eu era antes... mas a realidade batia no meu peito junto com a água. Era impossível. Eu jamais conseguiria arrancar aquela tarde da minha mente.

Vesti uma calça de moletom velha e uma camiseta larga, tentando esconder cada marca sob os tecidos pesados. Fiquei ali, sentada na beirada da cama, simplesmente encarando a parede vazia. Minha mente flutuava em um vazio anestesiado, até que três batidas suaves na madeira quebraram o silêncio.— Eliza? Sou eu, o Christian... Posso entrar?O som da voz dele causou um nó violento no meu estômago. Um gosto amargo subiu pela minha garganta. Tudo... absolutamente tudo de ruim havia começado por causa dele. Se ele não tivesse vindo para esta alcateia, se não tivesse se aproximado de mim, eu nunca teria ido àquela fonte maldita. Mas, acima de tudo, o que mais me machucava era a traição: se ele tivesse me protegido como jurou que faria, nada disso teria acontecido.Puxei um cobertor pequeno e cobri meus ombros, como se criasse uma armadura contra o mundo. Cambaleei até a porta, destranquei-a e voltei a me sentar na cama de imediato. Christian empurrou a madeira e entrou. Seus ombros estavam caídos e o olhar, cabisbaixo.— Eu esperei você nesses dias para te acompanhar até o trabalho, mas sua mãe me disse que você estava no hospital porque tinha ficado doente... — ele começou, a voz falhando enquanto mexia nas mãos de forma nervosa. — Mas no dia do piquenique você estava ótima. Eliza... os gêmeos fizeram alguma coisa com você?

As palavras travaram na minha garganta. Eu não consegui responder; apenas abaixei a cabeça e desabei a chorar

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