Capítulo 5

. Foi como se as comportas de um tsunami de sentimentos reprimidos e de pura dor rompessem dentro de mim de uma vez só. Minha voz sumiu no peito; eu só conseguia soluçar, encolhendo-me na cama.Vendo o meu desespero, Christian deu um passo à frente, estendendo os braços para tentar me abraçar. Mas, antes mesmo que seus dedos me tocassem, meu corpo reagiu por puro instinto de sobrevivência. Recuei abruptamente até bater as costas contra a cabeceira, tremendo da cabeça aos pés. Eu não queria ninguém me tocando. Nem ele, nem ninguém. Nunca mais.Christian congelou no lugar. Seus braços caíram ao lado do corpo enquanto ele olhava fixamente nos meus olhos. Naquele silêncio sufocante, a ficha dele começou a cair e ele finalmente entendeu o horror do que realmente havia acontecido. O olhar dele desceu, analítico, para o hematoma que manchava o meu rosto e, em seguida, focou nas marcas roxas e mordidas violentas que escapavam da gola da minha camiseta larga, marcando o meu pescoço.

— Eliza... o que eles fizeram com você? — a voz dele saiu como um sopro, carregada de horror.Eu não queria verbalizar o pesadelo que vivi.

Destrancar aquelas memórias e transformá-las em palavras doía demais. Era mais fácil mostrar. Com as mãos trêmulas, deixei o cobertor escorregar pelos meus ombros e puxei a gola da camiseta larga, revelando meu colo. Fiquei ali, exposta e vulnerável, permitindo que ele visse a extensão da minha destruição.Christian me encarou com um misto de sentimentos que eu não sabia decifrar — talvez fosse pena, talvez culpa —, mas, à medida que seus olhos absorviam cada marca, corte e hematoma, a humanidade sumiu dele. Suas pupilas foram ficando vermelhas, brilhando com a pura raiva da sua natureza lupina.— Eles te obrigaram...? — perguntou, os punhos cerrados ao lado do corpo.Eu apenas balancei a cabeça, confirmando em um silêncio doloroso.— Eu deveria ter te trazido para casa! — Christian começou a andar de um lado para o outro no quarto de forma frenética, puxando os próprios cabelos, completamente desesperado. — Aquela maldita me enganou... O Alpha nunca me chamou! A Kelly queria que eu fizesse um pedido formal de casamento para o pai dela na frente de todos. Quando eu recusei, dizendo que estávamos saindo há apenas duas semanas, ela começou a surtar. Disse que eu não queria ficar com ela por sua causa. Eu deveria ter voltado para te procurar na fonte... Me perdoa, Eliza! Eu... eu vou atrás do Alpha! Vou contar o que os filhos dele fizeram, eu vou...

— Não, Christian! Você não vai fazer nada — interrompi, reunindo uma calma gélida que eu nem sabia que possuía. — O Alpha não vai acreditar em você, muito menos em mim. Ele vai te punir, ou até te matar. Nesta alcateia, o Alpha nunca permite que ninguém fale mal dos filhos dele. Além disso... os gêmeos me ameaçaram. Eles disseram que têm imagens minhas daquela tarde.Abracei o meu próprio corpo com mais força, tentando conter as lágrimas que voltavam a queimar meus olhos.— Mas e o seu pai? — Christian insistiu, caindo de joelhos perto da beirada da cama para buscar meu olhar. — Ele pode falar com o Alpha, exigir uma investigação real. Se apontarem as provas contra os gêmeos, talvez a gente tenha uma chance...— Meu pai sabe de tudo — cortei-o, minha voz saindo completamente opaca, sem vida. — O Beta está fingindo que investiga, mas já avisou que não vai encontrar nada. Os gêmeos disseram que me "resgataram" na floresta, e usaram essa mentira como desculpa para o cheiro deles estar impregnado em mim. Eles tomaram cuidado para não deixar vestígios. Mesmo que o Beta e o médico saibam a verdade, eles vão acobertar tudo para proteger a elite. Meu pai simplesmente mandou eu esquecer o assunto... como se apagar o pior dia da minha vida fosse a coisa mais fácil do mundo.

Encolhi-me na cama, colando os joelhos no peito e olhando para o chão. Eu simplesmente não sabia mais o que fazer.Christian estava desolado, perturbado e irado. A ficha caía para nós dois com o peso de uma bigorna: estávamos de mãos atadas, sem poder pedir socorro a ninguém. Como o nosso mundo pôde virar de cabeça para baixo em uma única tarde? O que era para ser apenas o início de um romance ou um sonho bobo de adolescente havia se transformado no pior dos meus pesadelos. E o pior de tudo: sem qualquer rastro de justiça.Quanto mais pensávamos, mais cruel a realidade se desenhava. Naquela alcateia corrupta, nós estávamos entregues à nossa própria sorte. Em um movimento brusco, Christian se levantou, os punhos cerrados e o peito subindo e descendo com força.— Eu tenho que fazer alguma coisa! — ele esbravejou, a voz embargada de fúria. — Mesmo que eu morra tentando, eu vou fazer! Isso não é justo! O que fizeram com você é repugnante... está tudo errado! Você não fez nada de errado, Eliza! E aqueles monstros se acharam no direito de te tomar à força, de forjar um ataque de renegados e ainda saírem desfilando como os heróis que te salvaram!— Christian, não... Você não pode fazer nada. Eu já desisti — murmurei, sentindo o peso esmagador da derrota me afundar no colchão. — Talvez se outro Alpha liderasse a alcateia, um líder verdadeiramente justo, nós tivéssemos uma chance. Mas do jeito que as coisas estão hoje, ninguém do Conselho vai acreditar em dois adolescentes acusando os futuros herdeiros da região.Christian apenas balançava a cabeça negativamente, recusando-se a aceitar a derrota. No fundo dos seus olhos, eu conseguia ver que ele ainda procurava desesperadamente por uma saída. Ele acreditava que deveria haver uma maneira, por menor que fosse, de fazê-los pagar pelo que fizeram.

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