Mundo de ficçãoIniciar sessãoRafael iniciou uma investigação interna sem consultar Marina.
Ela descobriu por acaso, ao ver no escritório dele uma lista com nomes de funcionários, horários de acesso e registros de câmeras. No topo da página, estava escrito: "vazamento — material contra Marina". — Você prometeu me informar antes de tomar decisões que me envolvessem — disse ela. Rafael fechou o arquivo lentamente. — Eu pretendia contar quando tivesse algo concreto. — Isso é exatamente o que pessoas controladoras dizem quando querem parecer razoáveis. Ele respirou fundo. — Marina, alguém está tentando destruir você. — E você acha que isso lhe dá o direito de decidir tudo sozinho? — Acho que me dá o dever de agir. — Agir comigo, não por mim. Rafael não respondeu. A tensão entre eles era diferente das primeiras discussões. Antes, havia distância. Agora, havia mágoa. Nos dias seguintes, Marina voltou a dormir no apartamento da mãe, usando a desculpa de acompanhá-la após uma consulta. Rafael não a impediu. Apenas enviou uma mensagem curta: "Avise quando chegar." Ela respondeu apenas: "Cheguei." Dona Helena percebeu a tristeza, mas não pressionou. Preparou chá e sentou-se ao lado da filha. — Casamentos, mesmo os mais bonitos, têm dias difíceis. Marina quase contou tudo. A mentira pressionava sua garganta como uma pedra. — E se o casamento não for bonito como parece? — Nenhum é bonito o tempo todo. — E se começou errado? Helena segurou sua mão. — Algumas coisas começam por necessidade e se tornam escolha. Outras começam por escolha e se perdem por orgulho. O importante é saber em que ponto você está. Marina fechou os olhos. Ela não sabia. Enquanto isso, Beatriz avançava. Uma matéria anônima surgiu em um blog de negócios: "A esposa secreta do CEO e a promoção relâmpago dentro da Verdan Group". O texto não citava o contrato, mas insinuava favorecimento, interesse financeiro e manipulação familiar. A notícia se espalhou rápido. Na empresa, Marina sentiu os olhares pesarem ainda mais. Durante uma reunião do projeto Aurora, um gerente chamado Vinícius questionou abertamente sua presença. — Com todo respeito, precisamos de critérios técnicos aqui, não de decisões afetivas. A sala ficou imóvel. Marina poderia ter se calado. Rafael estava na cabeceira da mesa, pronto para intervir. Mas ela abriu seu relatório. — Concordo. Por isso trouxe uma análise comparativa dos riscos financeiros das três propostas. Se encontrar uma falha técnica, terei prazer em revisar. Se sua objeção for apenas ao meu sobrenome atual, sugiro que a deixe fora da ata. Alguns desviaram o olhar. Vinícius ficou vermelho. Rafael manteve o rosto sério, mas seus olhos diziam algo que Marina não quis interpretar. Após a reunião, ele a chamou em sua sala. — Você foi brilhante. — Eu estava cansada. — Também. Eles ficaram em silêncio. — Marina, sinto muito por ter agido sem você. Ela cruzou os braços. — Você sente muito porque eu descobri ou porque entendeu? — Porque entendi. Tarde, mas entendi. — A sinceridade dele a alcançou, apesar de sua resistência. — Eu passei a vida acreditando que, se controlasse tudo, ninguém que eu amo se machucaria. Marina prendeu a respiração. Ninguém que eu amo. Rafael percebeu o que havia dito. O silêncio se tornou mais intenso. — Eu não quis dizer… — Quis — disse ela, antes que ele recuasse. — Só não sabe o que fazer com isso. Ele se aproximou. — E você sabe? Marina deveria responder que não. Deveria lembrar do contrato, da cláusula de limites, da data final marcada para dali a meses. Mas a verdade era mais simples e mais assustadora. — Não. Rafael tocou seu rosto com cuidado, como se pedisse permissão a cada centímetro. Marina não se afastou. O beijo aconteceu sem planejamento. Não foi parte de um evento público. Não havia câmeras, família, jornalistas nem testemunhas. Foi um beijo silencioso, contido no início, depois cheio de tudo que ambos haviam evitado dizer. Quando se separaram, Marina sentiu medo. — Isso complica tudo — sussurrou. Rafael encostou a testa na dela. — Eu sei. — O contrato… — Pela primeira vez, eu gostaria de esquecê-lo. Mas contratos, como mentiras, não desaparecem porque o coração deseja. Naquela mesma noite, Augusto passou mal e foi internado. A família Montenegro se reuniu no hospital. Celeste caminhava de um lado para outro. Beatriz chorava lágrimas calculadas. Rafael permaneceu firme, mas Marina percebeu suas mãos fechadas com força. Quando o médico informou que Augusto estava consciente, avisou que ele havia pedido para ver especificamente Rafael e Marina. No quarto, o velho Montenegro parecia menor, mas seus olhos continuavam atentos. — Vocês dois — disse ele, com a voz fraca —, acham que sou tolo? Marina gelou. Rafael deu um passo à frente. — Vovô, descanse. — Eu sei reconhecer segredos. Passei a vida fazendo os meus. Marina sentiu as pernas falharem. — Senhor Augusto… — Você não precisa se explicar agora, menina. Mas preciso saber uma coisa. — Ele olhou para Rafael. — Você a respeita? — Sim. — E você, Marina? Está aqui por medo, por dinheiro ou por escolha? A pergunta atravessou todas as defesas. Ela poderia mentir. Era isso que o contrato exigia. Mas havia algo no olhar de Augusto que tornava a mentira impossível. — No começo, por necessidade — respondeu ela, com a voz trêmula. — Agora, já não sei mais separar tudo. Rafael virou-se para ela, surpreso. Augusto fechou os olhos por um instante. — Pelo menos alguém nesta família ainda sabe dizer a verdade. Quando saíram do quarto, Rafael parecia abalado. — Ele sabe — disse Marina. — Talvez não tudo. — Sabe o suficiente. No corredor, Beatriz surgiu com um sorriso frio. — Que cena comovente. A esposa dedicada, o neto preocupado, o patriarca à beira de uma decisão bilionária. Rafael encarou-a. — Não agora. — Agora é o momento perfeito. Afinal, todos merecem saber a verdade. — Ela ergueu o celular. Na tela, havia uma foto do contrato assinado. Marina sentiu o mundo parar. — Você invadiu meu escritório — disse Rafael, com a voz perigosa. — Prove. — Beatriz olhou fixamente para Marina. — Quanto tempo acha que o amor de vocês sobrevive quando todos souberem que começou com pagamento? Marina não conseguiu responder. Porque, pela primeira vez, temeu que a resposta fosse: tempo nenhum.






