Mundo de ficçãoIniciar sessãoO casamento aconteceu duas semanas depois, em uma cerimônia civil pequena e silenciosa. Não houve igreja, flores em excesso nem convidados emocionados. Apenas um juiz, duas testemunhas, alguns documentos e fotógrafos posicionados do lado de fora, prontos para transformar um acordo em notícia.
Marina usou um vestido branco simples. Rafael vestiu um terno claro, diferente dos escuros que costumava usar na empresa. Ele parecia menos inalcançável, mas não menos atento. Quando o juiz perguntou se ambos aceitavam aquela união, Marina sentiu a garganta secar. — Sim — respondeu Rafael, firme. Todos olharam para ela. A palavra era pequena. Cabia em qualquer boca. Mas, naquele instante, parecia carregar o peso de uma vida inteira. — Sim — disse Marina. A assinatura veio depois. Seu nome ao lado do dele: Marina Duarte Montenegro. Ela olhou para a caneta em sua mão e pensou que nunca imaginara ver seu futuro alterado por tinta sobre papel. Do lado de fora do cartório, os flashes começaram. — Senhor Montenegro, há quanto tempo estão juntos? — Marina, como se sente casada com um dos empresários mais influentes do país? — A família aprovou a união? Rafael colocou a mão nas costas dela, um gesto discreto, quase protetor. — Estamos felizes e pedimos respeito à nossa privacidade — disse ele. Marina sorriu como haviam combinado. Não muito. Apenas o suficiente. Mas quando um jornalista empurrou o microfone perto demais de seu rosto, Rafael deu um passo à frente. — Já respondemos o necessário. A firmeza de sua voz abriu caminho. No carro, Marina soltou o ar que estava prendendo. — Isso sempre é assim? — Às vezes é pior. — Que consolo admirável. Ele quase sorriu. — Você vai se mudar hoje. Marina virou o rosto para ele. — Hoje? — A imprensa já sabe do casamento. Se continuar morando no seu apartamento, levantarão suspeitas. Ela sabia que ele tinha razão, mas a rapidez a atingiu. — Minha mãe… — Já organizei uma equipe médica melhor para acompanhá-la em casa. Com sua autorização, claro. O apartamento continuará sendo dela pelo tempo que desejar. Marina apertou as mãos no colo. — Eu não gosto quando o senhor resolve minha vida sem me perguntar. — Tentei ajudar. — Ajuda sem escuta vira controle. Rafael ficou quieto. — Tem razão — disse por fim. — Eu deveria ter perguntado. A admissão a surpreendeu mais do que a atitude inicial. — Obrigada. — Quer que eu cancele? Marina pensou na mãe, nas consultas adiadas, nos remédios caros. — Não. Quero que me informe antes de tomar decisões que envolvam minha família. — Combinado. A cobertura de Rafael ficava no topo de um edifício elegante, em uma região nobre da cidade. O apartamento era amplo demais para uma pessoa só. Havia janelas do chão ao teto, móveis claros, obras de arte discretas e uma ordem quase clínica. — Parece um hotel de luxo — disse Marina. — Isso é ruim? — Depende. Hotéis são bonitos, mas ninguém pertence a eles. Rafael olhou ao redor como se nunca tivesse pensado nisso. Ele mostrou a ela o quarto de hóspedes, que agora seria seu. Era confortável, com uma pequena varanda e uma estante vazia. — Pode mudar o que quiser — disse ele. — Tem certeza? Talvez eu coloque livros, uma manta colorida e uma planta que sobreviva por teimosia. — Parece perigoso. — Muito. Na empresa, a notícia caiu como tempestade. Alguns colegas a parabenizaram com entusiasmo falso. Outros cochicharam nos corredores. Paula, sua supervisora, parecia dividida entre bajulação e ressentimento. — Você poderia ter contado — disse ela. — Foi tudo muito rápido. — Imagino. A palavra veio carregada de suspeita. Naquela tarde, Marina foi transferida para um novo cargo: analista de projetos estratégicos, com acesso direto à diretoria. A promoção, prevista no contrato, foi anunciada como resultado de mérito interno. Ainda assim, muitos preferiram acreditar em favorecimento. No elevador, duas funcionárias não perceberam sua presença. — Casou com o chefe e ganhou cargo. Fácil assim. — Queria ter essa sorte. Marina saiu antes do seu andar, apenas para respirar. Encontrou Rafael no corredor. — O que aconteceu? — perguntou ele. — Nada que o contrato possa resolver. — Marina. Ela odiou a forma como seu nome soou na voz dele, como se ele estivesse realmente interessado. — As pessoas acham que eu vendi minha dignidade por uma promoção. Rafael endureceu. — Diga quem foi. — Para quê? Para demitir todos que cochicham? Isso só provaria o que pensam. — Então o que quer que eu faça? — Nada. Eu quero fazer meu trabalho tão bem que eles fiquem sem argumento. Ele a observou por um longo instante. — O projeto Aurora terá uma nova fase. Quero você na equipe principal. — Porque sou sua esposa? — Porque você entende o contrato melhor do que qualquer pessoa naquele andar. Marina quis desconfiar. Mas, dessa vez, a resposta parecia limpa. Nas semanas seguintes, ela mergulhou no trabalho. Estudou relatórios, participou de reuniões, corrigiu falhas e, pouco a pouco, começou a ser ouvida. Rafael, para sua surpresa, não a protegia em excesso. Exigia dela como exigia dos outros. Talvez até mais. Em casa, a convivência seguia estranha. Eles jantavam juntos algumas noites, quase sempre discutindo trabalho. Marina descobriu que Rafael bebia café tarde demais, dormia pouco e guardava no escritório uma fotografia antiga de uma mulher sorridente. — Sua mãe? — perguntou ela certa noite, apontando para a foto. Rafael fechou a gaveta devagar. — Sim. — Ela faleceu? — Quando eu tinha dezesseis anos. Marina percebeu a porta se fechando no rosto dele, invisível e firme. — Sinto muito. — Foi há muito tempo. — Tempo não apaga tudo. Ele não respondeu. Na sexta-feira, receberam um convite para um baile beneficente organizado pela Fundação Montenegro. Seria o primeiro grande evento público do casal. Marina se preparou durante horas, com ajuda de uma consultora enviada por Rafael. O vestido verde-esmeralda era elegante sem ser exagerado. Ao vê-la, Rafael ficou parado por um instante a mais do que o necessário. — Ficou inadequado? — perguntou ela. — Não. Ficou perfeita. A palavra pairou entre os dois. No baile, Marina enfrentou olhares, cumprimentos e perguntas disfarçadas de elogios. Rafael permaneceu ao seu lado, apresentando-a com respeito. Quando a música começou, ele estendeu a mão. — Precisamos dançar. — Isso também está no contrato? — Em eventos formais, sim. — Que conveniente. Ela aceitou. No centro do salão, Rafael colocou a mão em sua cintura. Marina pousou a dela em seu ombro. A música era lenta, e a proximidade tornou difícil lembrar que tudo era encenação. — Você está tensa — disse ele. — Estou tentando não pisar no seu pé diante de duzentas pessoas. — Se pisar, direi que foi minha culpa. — Generoso. — Estratégico. Um marido apaixonado assumiria a culpa. Marina ergueu os olhos para ele. — E você sabe como age um marido apaixonado? Rafael demorou a responder. — Estou aprendendo. O mundo pareceu reduzir-se à música e ao calor da mão dele em sua cintura. Então Marina viu Beatriz do outro lado do salão, conversando com um homem que segurava uma câmera pequena demais para ser de convidado. A prima de Rafael entregou a ele um envelope. — Rafael — sussurrou Marina. — Acho que sua prima está fazendo algo. Ele seguiu seu olhar. — Fique aqui. — Nem pense nisso. Marina se afastou antes que ele a impedisse. Aproximou-se de Beatriz com um sorriso educado. — Que coincidência encontrá-la justamente perto da saída de serviço. Beatriz guardou o sorriso falso. — Você aprende rápido, Marina. — Necessidade. — Cuidado. Pessoas que entram em famílias poderosas sem pertencer a elas costumam sair machucadas. — E pessoas que subestimam outras por causa da origem costumam se arrepender. Beatriz se aproximou. — Você acha que Rafael confia em você? Ele não confia em ninguém. Marina sentiu a frase atingir um ponto sensível. — Talvez ele tenha motivos. — Ou talvez ele seja incapaz de amar. Antes que Marina respondesse, Rafael surgiu ao seu lado. — Beatriz, o fotógrafo que você contratou já foi retirado do evento. O rosto da prima perdeu a cor. — Não sei do que está falando. — Claro que sabe. E, se tentar expor Marina novamente, conversaremos com advogados. Beatriz se afastou, derrotada por enquanto. No carro, Marina permaneceu em silêncio. — Você foi corajosa — disse Rafael. — Fui imprudente. — Também. Ela olhou pela janela. — Beatriz disse que você não confia em ninguém. — Ela disse a verdade. A sinceridade dele doeu mais do que uma mentira. — Então por que me escolheu? Rafael encarou a cidade iluminada adiante. — Porque, no dia da reunião, você poderia ter ficado calada e se protegido. Em vez disso, escolheu a verdade. Marina sentiu o coração apertar. — Isso é confiança?. — É o mais perto que consigo chegar. Naquela noite, ao voltar para o quarto, Marina percebeu que ser esposa de mentira era simples no papel. Difícil era impedir que os gestos falsos começassem a parecer verdadeiros.






