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Capítulo 2 — Cláusulas do Coração

Marina passou a noite lendo o contrato. Havia cláusulas sobre confidencialidade, eventos sociais, residência temporária, separação de bens, entrevistas, fotografias e até distância mínima em público para evitar rumores de crise conjugal. Rafael Montenegro não deixava nada ao acaso. O documento era frio, preciso e quase ofensivo em sua organização.

Na cláusula 14, Marina encontrou a parte que mais a incomodou: “As partes reconhecem que não haverá envolvimento emocional real, sendo a relação limitada ao cumprimento dos objetivos previstos neste acordo.”

Ela leu a frase várias vezes.

Não haverá envolvimento emocional real.

Como se o coração obedecesse a contratos.

Pela manhã, sua mãe percebeu o cansaço em seus olhos.

— Dormiu mal, filha?

Dona Helena estava sentada à mesa da cozinha, enrolada em um xale claro. A doença a deixara mais frágil, mas não havia tirado a doçura de sua voz.

— Um pouco — respondeu Marina, preparando café.

— Problemas no trabalho?

Marina hesitou. Não podia contar a verdade. Não ainda. Talvez nunca.

— Surgiu uma oportunidade. Grande. Mas complicada.

Helena a observou com atenção.

— Oportunidades grandes quase sempre assustam. A pergunta é se elas ferem quem você é.

Marina desviou os olhos.

— E se ajudarem a salvar alguém que você ama?

A mãe ficou em silêncio por um momento.

— Então é preciso ter ainda mais cuidado. Amor não deve exigir que você se perca.

Essas palavras acompanharam Marina durante todo o caminho até a empresa. Às nove horas, ela voltou ao gabinete de Rafael. Dessa vez, não se sentou até que ele a convidasse.

— Leu tudo? — perguntou ele.

— Sim.

— E encontrou problemas?

— Vários.

Rafael indicou a cadeira.

— Estou ouvindo.

Marina abriu a pasta com firmeza.

— Primeiro: a compensação financeira não será paga como favor. Será registrada como parte de um acordo civil com respaldo jurídico. Segundo: minha mãe não será citada em nenhum documento. Terceiro: eu continuarei trabalhando, mas não como enfeite da sua imagem. Quero função real, com responsabilidades reais.

Rafael a estudou como se ela tivesse se tornado mais interessante.

— Continue.

— Quarto: não aceitarei ser tratada com desrespeito por sua família, seus amigos ou sua equipe. Se eu tiver que parecer sua esposa, o senhor terá que parecer meu marido.

— O que isso significa?

— Que não vou ficar parada em eventos enquanto todos me olham como uma intrusa. O senhor me incluirá nas conversas, me apresentará corretamente e não permitirá humilhações públicas.

— Justo.

— Quinto: a cláusula sobre ausência de envolvimento emocional é inútil.

Rafael franziu levemente a testa.

— Inútil?

— Sim. Não se controla sentimento por assinatura. Podemos prometer conduta, não emoção. Troque por uma cláusula de respeito aos limites pessoais.

Por um instante, ele não respondeu.

— Você negocia melhor do que muitos executivos que conheço.

— Talvez porque eu não tenha o luxo de assinar algo sem entender.

Rafael pegou uma caneta.

— Aceito as alterações.

Marina não esperava tanta facilidade.

— Assim? Sem discutir?

— Você pediu respeito, não vantagem. Há diferença.

A frase a desarmou por um segundo. Ela fechou a pasta.

— Então eu aceito.

Rafael estendeu a mão. Marina olhou para ela antes de apertá-la. A pele dele era quente, a firmeza exata. Um cumprimento profissional, nada mais. Ainda assim, algo naquele toque pareceu grave demais para ser apenas o início de uma mentira.

— A partir de agora — disse ele — precisamos criar uma história.

— Que história?

— Como nos apaixonamos.

Marina quase riu.

— O senhor pretende inventar amor como inventa estratégia de mercado?

— Estratégias funcionam quando são coerentes.

— Amor não costuma ser coerente.

— Por isso preciso da sua ajuda.

Eles passaram a manhã construindo a narrativa. Teriam se aproximado durante um projeto interno. A admiração teria crescido de forma discreta. O pedido de casamento teria sido íntimo, sem anúncio prévio, para evitar exposição.

— Ninguém vai acreditar que eu, assistente administrativa, conquistei o CEO da empresa — disse Marina. — Por quê?

— Porque pessoas como o senhor costumam se casar com herdeiras, modelos ou diretoras de grandes empresas.

— Pessoas como eu costumam cometer erros justamente por fazer o esperado.

Marina não soube se aquilo era elogio ou análise. No fim do dia, Rafael informou que ela precisaria acompanhá-lo a um jantar de família naquela mesma semana. Seria a primeira apresentação oficial.

— Sua família sabe do contrato?

— Não. E não saberá.

— Nem seu avô?

— Principalmente ele.

Marina sentiu um peso no peito.

— Ele está doente e o senhor pretende mentir para ele.

A expressão de Rafael endureceu.

— Meu avô passou a vida tomando decisões por todos ao redor. Esta é apenas a minha resposta.

— Parece mais uma guerra.

— Em famílias como a minha, quase tudo é.

Na quinta-feira, Marina foi levada por um motorista até a mansão dos Montenegro. O vestido que Rafael havia enviado era azul-escuro, elegante e simples. Ela pensou em recusar, mas o contrato previa adequação aos eventos. Ainda assim, escolheu usar seus próprios brincos de pérola, herdados da avó, como pequena lembrança de quem era.

Rafael a esperava na entrada.

— Você está bonita — disse ele.

Marina ergueu o queixo.

— Isso faz parte do papel?.

— Não. Foi uma observação.

Antes que ela respondesse, a porta se abriu. A mansão era iluminada, cheia de obras de arte e silêncios caros. Na sala principal, três pessoas aguardavam: Augusto Montenegro, o avô; Celeste, tia de Rafael; e Beatriz, prima dele, com um sorriso tão perfeito quanto falso.

Augusto estava em uma poltrona, magro, mas ainda imponente. Seus olhos pousaram em Marina com curiosidade.

— Então esta é a mulher que fez meu neto desafiar a tradição.

Marina se aproximou.

— É um prazer conhecê-lo, senhor Montenegro.

— Chame-me de Augusto. Se vai entrar nesta família, precisa sobreviver aos nomes próprios.

Ela sorriu, surpresa. Celeste, porém, não demonstrou simpatia.

— Rafael sempre foi reservado. Curioso que tenha escondido um relacionamento tão importante de todos nós.

— Algumas coisas são melhores quando protegidas — respondeu Rafael.

Beatriz inclinou a cabeça.

— E onde exatamente vocês se conheceram? No elevador?

A pergunta tinha veneno. Marina sentiu Rafael se mover ao seu lado, mas respondeu antes dele.

— No trabalho. Onde as pessoas costumam mostrar quem são quando ninguém está prestando atenção.

Augusto riu baixo.

— Gostei dela.

Durante o jantar, Marina foi testada de várias formas. Perguntaram sobre sua família, sua formação, seus planos, seu conhecimento sobre a empresa. Ela respondeu com educação, sem se diminuir. Quando Celeste insinuou que casamentos repentinos podiam esconder interesses, Marina colocou os talheres sobre o prato.

— A senhora tem razão em desconfiar do que não conhece. Eu também desconfiaria. Mas caráter não se mede por sobrenome. E interesse, às vezes, se esconde melhor em famílias antigas do que em pessoas simples.

O silêncio caiu sobre a mesa. Rafael olhou para ela. Dessa vez, havia algo próximo de admiração em seus olhos.

Augusto bateu de leve na mesa.

— Excelente. Finalmente alguém respondeu à altura.

Mais tarde, ao saírem para o jardim, Marina respirou fundo.

— Acho que sua tia me odeia.

— Celeste odeia qualquer pessoa que não possa controlar.

— E sua prima?

— Beatriz queria o cargo que hoje é meu.

— Então eu acabei de entrar em um campo de batalha.

— Eu avisei que minha família era complicada.

— Não. O senhor disse guerra. Eu deveria ter prestado mais atenção.

Rafael ficou em silêncio por um momento.

— Você se saiu bem.

— Eu estava com medo.

— Não pareceu.

— Coragem não é ausência de medo, senhor Montenegro.

— Rafael — corrigiu ele.

Marina olhou para ele.

— O quê?

— Em público, e talvez em privado, é melhor que me chame de Rafael.

O nome dele pareceu diferente em sua boca antes mesmo de ser dito.

— Certo. Rafael.

Ele desviou o olhar para o jardim iluminado. Naquela noite, quando Marina voltou para casa, percebeu que havia decorado não apenas as cláusulas do contrato, mas também a forma como Rafael a observara quando ela enfrentou sua família.

E isso, sim, não estava previsto em nenhuma página.

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