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Capítulo 4 — Entre Máscaras e Verdades

O casamento de Rafael e Marina tornou-se assunto de revistas, portais e conversas discretas em restaurantes caros. Alguns chamavam a história de conto de fadas moderno. Outros insinuavam interesse, ambição ou escândalo escondido. Marina aprendeu a não ler comentários. Aprendeu também que a vida ao lado de Rafael era feita de portas. Algumas ele abria com educação. Outras mantinha trancadas com uma frieza quase perfeita.

No trabalho, o projeto Aurora avançava. Marina conquistava espaço pela competência, mas cada vitória vinha acompanhada de suspeitas. Se falava bem em uma reunião, era porque Rafael a favorecia. Se apresentava uma boa ideia, alguém dizia que certamente recebera ajuda. Se cometesse um erro, porém, seria a prova de que nunca deveria estar ali. Ela precisava ser duas vezes melhor para ser considerada suficiente. Rafael percebia, mas Marina não permitia interferências.

— Você não precisa enfrentar tudo sozinha — disse ele certa noite, ao encontrá-la revisando relatórios na sala de jantar.

— Preciso enfrentar do meu jeito.

— Seu jeito inclui dormir quatro horas por noite?

— Aprendi com você.

Ele ficou calado, aceitando a crítica.

— Marina, eu posso convocar a equipe e deixar claro que sua posição é legítima.

— Se fizer isso, eles ouvirão por medo. Eu quero que ouçam por respeito.

Rafael se sentou à frente dela.

— Respeito também pode ser exigido.

— Pode. Mas o respeito que permanece é o que nasce quando ninguém está obrigado a oferecer.

Ele a observou com uma atenção que a fazia perder a firmeza.

— Você fala como sua mãe.

Marina sorriu de leve.

— Ela é mais sábia.

— Gostaria de conhecê-la melhor.

A frase a surpreendeu.

— Rafael Montenegro quer jantar em um apartamento pequeno e comer sopa feita em casa?

— Se for um convite.

— Talvez seja.

Dois dias depois, Rafael visitou Dona Helena. Marina estava nervosa como se a mentira inteira pudesse desmoronar naquela sala simples. Mas Rafael, para sua surpresa, não chegou com arrogância. Levou flores, ouviu mais do que falou e tratou Helena com uma gentileza tranquila.

— Minha filha sempre foi responsável demais — disse Helena, servindo chá.

— Percebi.

— Isso não é apenas elogio. Pessoas responsáveis demais esquecem que também precisam ser cuidadas.

Rafael olhou para Marina.

— Estou tentando aprender isso.

Marina baixou os olhos. Helena, que enxergava mais do que deveria, sorriu em silêncio.

Na volta, Rafael estava diferente.

— Sua mãe gosta de você — disse Marina.

— Isso parece óbvio.

— Nem sempre é.

Ele segurou o volante com mais força.

— Minha mãe também gostava de mim.

Marina percebeu que ele havia aberto uma fresta.

— Como ela era?

— Alegre. Impulsiva. Tocava piano mal, mas com entusiasmo. Meu pai dizia que ela transformava qualquer sala em casa.

— E o que aconteceu?

A fresta quase se fechou.

— Um acidente de carro. Meu pai dirigia. Havia discutido com ela naquela noite. Depois disso, ele se afundou em culpa e bebida. Morreu seis anos depois. Meu avô assumiu tudo, inclusive minha vida.

Marina sentiu a dor por trás da voz controlada.

— Você perdeu sua mãe, depois seu pai, e ainda precisou se tornar herdeiro.

— Precisava manter a empresa.

— Você tinha dezesseis anos.

— Idade suficiente para entender dever.

— Não para carregar luto sozinho.

Rafael estacionou diante do prédio, mas não saiu do carro.

— Sentimentos tornam as pessoas descuidadas.

— Não. Feridas não cuidadas são as que fazem isso.

Ele olhou para ela, e Marina teve a sensação de que havia tocado em algo profundo demais.

— Você sempre fala como si pudesse consertar o mundo.

— Não posso. Mas também não finjo que ele não está quebrado.

Naquela noite, Rafael tocou piano pela primeira vez desde a morte da mãe. Marina ouviu do corredor. A melodia era hesitante, com erros claros, mas havia nela uma ternura que ele jamais mostrava em público. Quando ele percebeu sua presença, parou.

— Desculpe — disse ela. — Não quis interromper.

— Era a música preferida dela.

— Continue.

— Toco mal.

— Talvez seja tradição de família.

Rafael riu. Foi breve, baixo, mas real. Ele continuou. Marina sentou-se no sofá e ouviu até o fim.

A partir daquele dia, algo mudou entre eles. Não de forma declarada. Não havia confissões nem promessas. Mas Rafael passou a chegar mais cedo para o jantar. Marina deixou uma planta na sala, depois outra. Ele reclamou que o apartamento começava a parecer habitado. Ela respondeu que esse era justamente o objetivo.

No entanto, quanto mais a mentira se tornava confortável, mais perigosa ficava. Beatriz não havia desistido. Certa manhã, Marina encontrou um envelope sobre sua mesa. Dentro havia fotografias dela entrando em uma clínica com a mãe, cópias de documentos da dívida hospitalar e uma mensagem digitada: "Quanto vale o amor da esposa perfeita?"

Marina sentiu o chão desaparecer. Guardou tudo rapidamente, mas Rafael apareceu na porta antes que ela conseguisse disfarçar.

— O que é isso?

— Nada.

Ele se aproximou.

— Marina.

Ela odiou estar tremendo.

— Alguém sabe. Sobre minha mãe. Sobre as dívidas. Pode usar isso para dizer que me casei por dinheiro.

Rafael pegou o envelope, leu a mensagem e seu rosto se fechou.

— Beatriz.

— Não temos prova.

— Eu consigo provas.

— E se ela revelar o contrato?

O silêncio que se seguiu confirmou seu medo.

— Rafael, se isso vier à tona, não será apenas um escândalo para você. Minha mãe vai descobrir. Seu avô vai descobrir. Todos vão dizer que eu fui comprada.

— Eu não deixarei.

— Você não controla tudo.

Ele passou a mão pelos cabelos, gesto raro de desordem.

— Eu deveria ter previsto.

— Não sou um risco corporativo, Rafael.

— Eu sei.

— Sabe? Porque às vezes parece que você tenta resolver minha vida como se eu fosse parte de uma operação.

Ele se aproximou, mas parou antes de tocá-la.

— Eu tento proteger você.

— Proteção sem verdade também machuca.

A frase ficou entre os dois como uma porta fechada. Naquela noite, Marina não jantou com ele. Ficou no quarto, olhando para a cidade e tentando entender por que a ameaça de perder aquela mentira doía tanto. O contrato deveria ser uma solução temporária. Um acordo frio. Um papel. Mas, em algum ponto entre bailes, silêncios, jantares e músicas tocadas com tristeza, Marina havia começado a desejar que Rafael olhasse para ela sem precisar fingir. E esse desejo era o primeiro sinal de perigo.

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