Mundo de ficçãoIniciar sessãoO casamento de Rafael e Marina tornou-se assunto de revistas, portais e conversas discretas em restaurantes caros. Alguns chamavam a história de conto de fadas moderno. Outros insinuavam interesse, ambição ou escândalo escondido. Marina aprendeu a não ler comentários. Aprendeu também que a vida ao lado de Rafael era feita de portas. Algumas ele abria com educação. Outras mantinha trancadas com uma frieza quase perfeita.
No trabalho, o projeto Aurora avançava. Marina conquistava espaço pela competência, mas cada vitória vinha acompanhada de suspeitas. Se falava bem em uma reunião, era porque Rafael a favorecia. Se apresentava uma boa ideia, alguém dizia que certamente recebera ajuda. Se cometesse um erro, porém, seria a prova de que nunca deveria estar ali. Ela precisava ser duas vezes melhor para ser considerada suficiente. Rafael percebia, mas Marina não permitia interferências. — Você não precisa enfrentar tudo sozinha — disse ele certa noite, ao encontrá-la revisando relatórios na sala de jantar. — Preciso enfrentar do meu jeito. — Seu jeito inclui dormir quatro horas por noite? — Aprendi com você. Ele ficou calado, aceitando a crítica. — Marina, eu posso convocar a equipe e deixar claro que sua posição é legítima. — Se fizer isso, eles ouvirão por medo. Eu quero que ouçam por respeito. Rafael se sentou à frente dela. — Respeito também pode ser exigido. — Pode. Mas o respeito que permanece é o que nasce quando ninguém está obrigado a oferecer. Ele a observou com uma atenção que a fazia perder a firmeza. — Você fala como sua mãe. Marina sorriu de leve. — Ela é mais sábia. — Gostaria de conhecê-la melhor. A frase a surpreendeu. — Rafael Montenegro quer jantar em um apartamento pequeno e comer sopa feita em casa? — Se for um convite. — Talvez seja. Dois dias depois, Rafael visitou Dona Helena. Marina estava nervosa como se a mentira inteira pudesse desmoronar naquela sala simples. Mas Rafael, para sua surpresa, não chegou com arrogância. Levou flores, ouviu mais do que falou e tratou Helena com uma gentileza tranquila. — Minha filha sempre foi responsável demais — disse Helena, servindo chá. — Percebi. — Isso não é apenas elogio. Pessoas responsáveis demais esquecem que também precisam ser cuidadas. Rafael olhou para Marina. — Estou tentando aprender isso. Marina baixou os olhos. Helena, que enxergava mais do que deveria, sorriu em silêncio. Na volta, Rafael estava diferente. — Sua mãe gosta de você — disse Marina. — Isso parece óbvio. — Nem sempre é. Ele segurou o volante com mais força. — Minha mãe também gostava de mim. Marina percebeu que ele havia aberto uma fresta. — Como ela era? — Alegre. Impulsiva. Tocava piano mal, mas com entusiasmo. Meu pai dizia que ela transformava qualquer sala em casa. — E o que aconteceu? A fresta quase se fechou. — Um acidente de carro. Meu pai dirigia. Havia discutido com ela naquela noite. Depois disso, ele se afundou em culpa e bebida. Morreu seis anos depois. Meu avô assumiu tudo, inclusive minha vida. Marina sentiu a dor por trás da voz controlada. — Você perdeu sua mãe, depois seu pai, e ainda precisou se tornar herdeiro. — Precisava manter a empresa. — Você tinha dezesseis anos. — Idade suficiente para entender dever. — Não para carregar luto sozinho. Rafael estacionou diante do prédio, mas não saiu do carro. — Sentimentos tornam as pessoas descuidadas. — Não. Feridas não cuidadas são as que fazem isso. Ele olhou para ela, e Marina teve a sensação de que havia tocado em algo profundo demais. — Você sempre fala como si pudesse consertar o mundo. — Não posso. Mas também não finjo que ele não está quebrado. Naquela noite, Rafael tocou piano pela primeira vez desde a morte da mãe. Marina ouviu do corredor. A melodia era hesitante, com erros claros, mas havia nela uma ternura que ele jamais mostrava em público. Quando ele percebeu sua presença, parou. — Desculpe — disse ela. — Não quis interromper. — Era a música preferida dela. — Continue. — Toco mal. — Talvez seja tradição de família. Rafael riu. Foi breve, baixo, mas real. Ele continuou. Marina sentou-se no sofá e ouviu até o fim. A partir daquele dia, algo mudou entre eles. Não de forma declarada. Não havia confissões nem promessas. Mas Rafael passou a chegar mais cedo para o jantar. Marina deixou uma planta na sala, depois outra. Ele reclamou que o apartamento começava a parecer habitado. Ela respondeu que esse era justamente o objetivo. No entanto, quanto mais a mentira se tornava confortável, mais perigosa ficava. Beatriz não havia desistido. Certa manhã, Marina encontrou um envelope sobre sua mesa. Dentro havia fotografias dela entrando em uma clínica com a mãe, cópias de documentos da dívida hospitalar e uma mensagem digitada: "Quanto vale o amor da esposa perfeita?" Marina sentiu o chão desaparecer. Guardou tudo rapidamente, mas Rafael apareceu na porta antes que ela conseguisse disfarçar. — O que é isso? — Nada. Ele se aproximou. — Marina. Ela odiou estar tremendo. — Alguém sabe. Sobre minha mãe. Sobre as dívidas. Pode usar isso para dizer que me casei por dinheiro. Rafael pegou o envelope, leu a mensagem e seu rosto se fechou. — Beatriz. — Não temos prova. — Eu consigo provas. — E se ela revelar o contrato? O silêncio que se seguiu confirmou seu medo. — Rafael, se isso vier à tona, não será apenas um escândalo para você. Minha mãe vai descobrir. Seu avô vai descobrir. Todos vão dizer que eu fui comprada. — Eu não deixarei. — Você não controla tudo. Ele passou a mão pelos cabelos, gesto raro de desordem. — Eu deveria ter previsto. — Não sou um risco corporativo, Rafael. — Eu sei. — Sabe? Porque às vezes parece que você tenta resolver minha vida como se eu fosse parte de uma operação. Ele se aproximou, mas parou antes de tocá-la. — Eu tento proteger você. — Proteção sem verdade também machuca. A frase ficou entre os dois como uma porta fechada. Naquela noite, Marina não jantou com ele. Ficou no quarto, olhando para a cidade e tentando entender por que a ameaça de perder aquela mentira doía tanto. O contrato deveria ser uma solução temporária. Um acordo frio. Um papel. Mas, em algum ponto entre bailes, silêncios, jantares e músicas tocadas com tristeza, Marina havia começado a desejar que Rafael olhasse para ela sem precisar fingir. E esse desejo era o primeiro sinal de perigo.






