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Capítulo 1 — A Chegada
O portão de ferro se abriu devagar, como se a própria casa estivesse relutante em me deixar entrar. Eu apertei a alça da mochila contra o ombro e olhei pela janela do carro. A mansão parecia ter saído de uma revista — pedra clara, janelas enormes, um jardim tão bem cuidado que parecia falso. Nada daquilo combinava comigo. Nada daquilo era meu. — Elisa, chegamos — minha mãe disse, com aquele sorriso nervoso que ela vinha usando desde que anunciou o casamento. Eu não respondi. Não porque não tivesse nada a dizer, mas porque tinha demais, e nada daquilo seria gentil. Três meses. Fazia três meses que Lúcia conhecera Ricardo Andrade num jantar de negócios, e um mês que ela usava aliança no dedo. Rápido demais para ser real, rápido demais para não doer. E agora ali estávamos nós, subindo a alameda de uma casa que não era nossa, para morar com uma família que não pedi. O carro parou. Foi então que os vi. Três silhuetas no topo da escadaria de entrada, parados como uma barreira, não como um comitê de boas-vindas. O mais alto tinha os braços cruzados, terno impecável, olhando para o carro com uma frieza calculada, como se estivesse decidindo o quanto de trabalho eu ia dar antes mesmo de eu sair do banco de trás. Ao lado dele, um segundo homem, mais jovem, encarava o carro com a mandíbula travada, os punhos fechados junto ao corpo. Não havia nada de sutil na hostilidade dele — parecia prestes a atravessar o jardim e mandar o motorista dar meia-volta. O terceiro era o único que sorria, mas era um sorriso errado, afiado demais para ser gentil, do tipo que promete problemas embrulhados em charme. — Aqueles são meus filhos — a voz de Ricardo veio de trás de mim, orgulhosa demais para perceber a tensão no ar. — Felipe, Thiago e Noah. Eu saí do carro devagar, sentindo os três pares de olhos me despirem de qualquer ilusão de que seria bem-vinda ali. Ninguém desceu para nos ajudar com as malas. Ninguém deu um passo à frente. — Elisa — Ricardo disse, sorrindo largo demais, o tipo de sorriso que tenta consertar coisas que palavras não conseguem. — Seja bem-vinda à nossa casa. Nossa casa. A frase soou como uma piada de mau gosto, considerando como os três lá em cima olhavam para mim. Eu subi os degraus e parei diante deles, recusando-me a desviar o olhar primeiro. — Então é você — Felipe disse, a voz baixa, cortante, os olhos me avaliando como se eu fosse um item fora de lugar no inventário da casa. — A filha. Não era uma pergunta. Era um rótulo. — Elisa — corrigi, mantendo a voz firme mesmo com o coração acelerado. Um silêncio pesado. Felipe não se apresentou, não estendeu a mão. Apenas manteve os olhos frios sobre mim por um segundo a mais do que confortável antes de se virar para o pai. — Vou estar no escritório. — E desceu os degraus internos sem me dar mais nenhuma atenção, como se eu já tivesse deixado de existir. Thiago foi o próximo a falar, e não se deu ao trabalho de suavizar nada. — Não sei o que você espera encontrar aqui — ele disse, dando um passo à frente, a voz baixa o suficiente para que só eu ouvisse —, mas essa não é sua casa. Nunca vai ser. — Thiago — Ricardo repreendeu, mas o filho já tinha se afastado, descendo o corredor com passos pesados, deixando atrás de si um silêncio ainda mais desconfortável. Só sobrou Noah, o sorriso ainda no lugar, mas os olhos dele me estudavam com uma atenção que não combinava com a leveza da expressão. — Não liga pros dois — ele disse, se aproximando, a voz suave como se estivesse me fazendo um favor. — Eles só não gostam de coisas novas. — Uma pausa calculada. — Ainda. Havia algo perturbador na palavra "ainda", algo que eu não conseguia decifrar, e antes que eu pudesse responder, ele já tinha se virado e entrado na casa, deixando para trás apenas o eco de passos e a sensação nítida de que eu tinha acabado de entrar em território inimigo. Minha mãe apertou meu braço, tentando parecer confiante. — Eles vão se acostumar — ela sussurrou. Eu não respondi. Porque, pela primeira vez desde que soube do casamento, eu tive certeza absoluta de uma coisa: aqueles três não queriam que eu me acostumasse com nada ali. Eles queriam que eu fosse embora. E, de alguma forma, isso doeu mais do que eu esperava.






