capítulo 2

Capítulo 2 — Território

O quarto que me deram era maior do que o apartamento inteiro em que eu morava com minha mãe, mas isso não fazia com que eu me sentisse bem-vinda.

Deixei a mala no chão e me sentei na beirada da cama, ainda sentindo o peso do olhar de Felipe, as palavras de Thiago ecoando: nunca vai ser sua casa. Fechei os olhos por um momento, tentando convencer a mim mesma de que aquilo passaria, de que eles simplesmente precisavam de tempo.

Fui procurar um banheiro e me perdi duas vezes nos corredores idênticos antes de esbarrar nele.

Thiago estava encostado no batente de uma porta, sem camisa, um copo de uísque na mão apesar de ser cedo da tarde. Ele me olhou de cima a baixo com desprezo evidente.

— Se perdeu já — ele disse, sem esconder o desdém. — Deve ser um recorde.

— Só estou procurando o banheiro. — Mantive a voz firme, recusando-me a dar a ele a satisfação de me ver abalada.

— Terceira porta à esquerda. — Ele deu um gole no uísque, os olhos nunca saindo dos meus. — Deixa eu te poupar tempo, já que você é nova aqui: essa casa tem regras. E a primeira delas é que gente que não pertence, geralmente não fica muito tempo.

— Isso é uma ameaça? — perguntei, surpresa com a própria coragem.

Um sorriso sem humor curvou os lábios dele.

— É um fato. — Ele se afastou da porta, dando um passo em minha direção, alto o suficiente para eu ter que erguer o queixo para encará-lo. — Você não faz ideia do que entrou aqui, garota. É melhor convencer sua mãe a voltar pro apartamento de vocês antes que as coisas fiquem... desconfortáveis.

O ar entre nós ficou tenso, carregado de algo que eu não sabia nomear — raiva, talvez, ou algo mais complicado escondido atrás dela.

— Thiago.

A voz de Felipe cortou o corredor.

Ele estava parado alguns passos atrás, ainda de terno, os olhos frios alternando entre nós dois.

— Já chega — disse, sem elevar o tom, mas com uma autoridade que fez até Thiago recuar um passo. Então, virando-se para mim, a voz não ficou mais gentil, apenas mais controlada. — O jantar é às oito. Recomendo que você apareça, e recomendo ainda mais que aprenda rápido a não ficar sozinha pelos corredores desta casa.

Não soou como preocupação. Soou como um aviso de que eu era um problema que ele preferia resolver de forma organizada.

— Não precisa se preocupar comigo — respondi, com mais firmeza do que sentia.

Algo cruzou o rosto de Felipe — não suavizou, mas por uma fração de segundo pareceu genuinamente surpreso com minha resposta, antes de esconder qualquer reação atrás da máscara fria de sempre.

— Não estou preocupado — ele disse secamente, e se afastou corredor abaixo.

Thiago terminou o uísque em um único gole e me lançou um último olhar antes de seguir na direção oposta.

— Pensa no que eu disse — foi tudo o que deixou para trás.

Eu fiquei sozinha no corredor, o coração disparado, a respiração presa no peito. Não era medo exatamente — ou talvez fosse, mas misturado a algo mais confuso, uma sensação estranha de que, por trás da hostilidade de ambos, havia algo que nenhum dos dois queria admitir, nem mesmo para si próprios.

Balancei a cabeça, tentando afastar o pensamento absurdo.

Eles queriam que eu fosse embora. Isso não podia ser mais claro.

Então por que, ao me trancar finalmente no banheiro e encarar meu próprio reflexo no espelho, a única coisa que eu conseguia sentir era a lembrança do jeito como os olhos de Thiago tinham demorado tempo demais nos meus lábios antes da ameaça sair de sua boca?

Três meses atrás, minha vida fazia sentido.

Agora eu não fazia ideia do que tinha acabado de começar.

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